Cultura

Reveses do folclore em “Caça às Bruxas”

Adriano Melo

Os limites da crença e a repercussão de alguns mitos na vida das pessoas são apresentados hoje, às 18h00, na sede da União dos Escritores Angolanos (UEA), em Luanda, sob uma nova perspectiva, com o lançamento do livro de Albino Carlos, “Caça às Bruxas”.

Novo drama de Albino Carlos é apresentado ao público hoje na sede da União dos Escritores
Fotografia: Edições Novembro |

O romance, como explica o autor, é baseado num caso real e mostra que as crenças, mitos e superstições podem emperrar o desenvolvimento do país, além de constituir amarras para as pessoas.
Com algumas incursões nas formas tradicionais de narrar uma história e uma mistura com técnicas modernas do romance, o livro apresenta, para Albino Carlos, muito trabalho estético quer em termos de conteúdo quer em termos de apresentação das estórias. “Há mistura de géneros literários e jornalísticos, já que o meu lado de jornalista esteve em grande evidência.”
Para o autor, o livro é, aci-ma de tudo,  uma homenagem às vitimas de acusações de feitiçaria que têm ocorrido por todo o país e é apresentado para denunciar as atrocidades cometidas em nome da tradição. “É também uma homenagem à heróica localidade do Cuito Cuanavale e às suas gentes”, acrescenta.
Por outro lado, reforça, o mote da história, a morte de sete homens acusados de feitiçaria, revela também a incapacidade do Estado em lidar com esse tipo de questões, assim como o papel que as autoridades tradicionais po-dem desempenhar na gestão da justiça no meio rural. “O facto que mais atenção me despertou foi como um ho-mem - no caso o governador do Cuando Cubango, na altura - no desempenho das suas funções, coloca as suas crenças no epicentro do acto, ao invés de se submeter à Constituição.”
A escolha deste caso em particular, adiantou, foi de-vido à sua mediatização, uma vez que chegou ao ponto de ter mobilizado várias pessoas e instituições, desde a política à polícia, a justiça, o po-der tradicional e a comuni-
cação social.
Na altura, conta, os estudiosos dessas questões do direito teorizaram as mais diversas teses e consideraram importante compatibilizar, em certos casos, a perspectiva moderna do direito com as formas tradicionais de gestão da Justiça.
“Muito recentemente, o presidente do Tribunal Su-premo, Rui Ferreira, deslocou-se em missão oficial à província do Zaire e visitou o tribunal tradicional local. Chamou-me a atenção pelo facto de Rui Ferreira ter tratado as autoridades tradicionais com muito respeito e consideração, chegando ao ponto de os considerar colegas na actividade de administrar e gerir a justiça”, justificou.
Albino Carlos acredita que essa é a solução, pois é importante começar a reconhecer o grande papel social e cultural das autoridades tradicionais na coesão social e na consolidação da ideia de Nação e país.
O caso Kamutukulenu, continuou, abalou muito as estruturas dos princípios de organização do Estado angolano. “Há muitos livros e artigos a respeito. Porém, ao invés de usar como matéria de estudo ao nível do Direito, Antropologia ou da Sociologia, preferi fazer desse caso o ponto de partida para parodiar a nossa existência como Estado, povos e Nação, num romance tão intrigante quanto brutal.”
A questão da feitiçaria, disse, é apenas um pretexto para abordar assuntos mais profundos sobre quem somos, “falando dos fantasmas que perseguem os angolanos desde antes da colonização, no período colonial, no pós-colonial, na fundação da Nação, o contacto com o estrangeiro e lidar com o poder entre compatriotas. Enfim, tenta mostrar a encruzilhada em que se encontram, em termos de perspectiva pessoal, os angolanos a nível individual. É um livro sobre os problemas que nos atormentam.”
Embora seja um drama, o autor disse que decidiu também fazer recurso ao humor, porque, na sua opinião, os homens se avaliam, também, pela capacidade que têm de sorrir dos seus próprios problemas. “O riso muitas vezes constitui a melhor forma de encarar os problemas. Mas o livro não é uma comédia. É um autêntico drama. Saber quem somos, os espíritos e fantasmas das guerras e atrocidades de todos os tempos, a indefinição do futuro, tudo isso é um grande drama que o angolano carrega às costas e que ensombra o seu destino”, destacou.

Tempo

Multimédia