Roman Polanski desiste de festival


18 de Agosto, 2014

Fotografia: Reuters

O controverso cineasta polaco Roman Polanski, actualmente radicado em França com a esposa Emmanuelle Seigner, ainda ensombrado pela sua condenação nos EUA por abuso sexual de menor, optou por declinar o convite para participar no Festival de Cinema de Locarno.

Numa mensagem enviada ao Festival, Roman Polanski disse estar “profundamente entristecido por desiludir o presidente do Festival, Marco Solari, e o seu director artístico, Carlo Chatrian”. “Lamento informar-vos que, tendo considerado que a minha presença anunciada no Festival de Locarno provoca tensões e controvérsias entre aqueles que se opõem à minha visita, embora respeite as suas opiniões, é com um peso no coração que devo cancelar a minha visita”, disse na mensagem aos responsáveis.
As tensões e controvérsias referidas na mensagem resultam de uma série de declarações de políticos do cantão do Ticino (Suíça italiana) que consideravam inaceitável o convite do Festival ao cineasta polaco.
Na cerimónia de abertura, o presidente Marco Solari deixou claro o apoio das autoridades federais suíças ao Festival, sublinhando o aumento da contribuição estatal para o orçamento do mesmo, assim como o respeito ao princípio de liberdade artística absoluta e de não interferência política nas decisões artísticas - medida significativamente aplaudida pelo público.
Marco Solari assumiu ainda a responsabilidade do convite a Roman Polanski, evocando as tradições democráticas e de acolhimento da Suíça, assim como a evidência de, perante a lei suíça, o cineasta polaco continuar a ser um homem livre.
Polanski foi condenado em 1978, à revelia, por um tribunal de Los Angeles, por ter mantido relações sexuais com uma jovem de 13 anos, num caso ainda hoje rodeado de controvérsias e imprecisões; entre Setembro de 2009 e Julho de 2010, o cineasta esteve sob prisão domiciliária, confinado ao seu chalé de Gstaad, na sequência de um pedido de extradição das autoridades judiciais americanas relativo àquele caso e que acabou por ser indeferido pelos tribunais suíços. 
Em resposta ao cancelamento de Polanski, o Festival considera ter sofrido “um revés”, resultante de uma “inaceitável interferência de algumas pessoas na liberdade artística” do Festival. O crítico Carlo Chatrian, que assumiu em 2013 a direcção artística do Festival, disse, num depoimento em vídeo, que é o “dia mais negro desde que me convidaram para dirigir o Festival”.
“Estou triste porque a ideia do Festival como lugar de encontro e de discussões sofreu hoje um rude golpe”, continua Carlo Chatrian, lamentando que “o público fique privado de um encontro com um artista extraordinário, que aceitou a proposta de dar uma grande lição de cinema”.
Roman Polanski estava para apresentar, ontem, o seu mais recente filme, “Vénus de Vison”, num cinema ao ar livre da Piazza Grande, e dar uma “aula magna” sobre a sétima arte.
Carlo Chatrian reconhece ainda que a liberdade de expressão é um valor inatacável e fez questão no seu depoimento de apontar que “algumas posições ultrapassaram os limites e, através da violência verbal e da distorção da realidade, se tenham tornado em ataques inaceitáveis à dignidade da pessoa.”
O deputado Fiorenzo Dadò, do partido democrata-cristão PPD, escreveu na rede social Facebook que “a pedofilia não é igual para todos”, em referência à condenação.
Outros representantes oriundos de partidos de direita e extrema-direita (nomeadamente a Liga do Ticino e o Partido Popular Suíço) acusaram o Festival de trazer Polanski como “manobra mediática” para evitar que se questionassem as escolhas criativas da actividade. Ao saber do cancelamento de Roman Polanski, o governante socialista Manuele Bertoli, responsável pela Cultura e pela Educação do cantão do Ticino, declarou que “o dia em que a política se intrometer no Festival equivale à sua morte. Isso é algo que devemos evitar em absoluto”.
Em declarações à estação de televisão “TeleTicino”, Manuele Bertoli considerou que é uma má notícia para a região, porque dá ao mundo a ideia de que “o Ticino não está pronto para receber uma individualidade do mundo do cinema como esta”, afastando os holofotes da importância cultural do Festival de Locarno.
 No seu depoimento, Carlo Chatrian espera que “esta ocasião não seja vista como uma vitória daqueles que desejam aproveitar-se do Festival de Cinema, mas se torne numa plataforma para o relançar como espaço de liberdade e local de acolhimento.”

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