Romantismo e entrega de uma grande mulher da música
Jomo Fortunato |
Com a gravação do clássico “Madya Kandimba”, em 1957, Garda inicia o processo de uma entrega romântica e desinteressada à música, enquanto cantora, compositora e instrumentista, transformando-se num símbolo representativo de resistência cultural, no feminino, nos primórdios da formação da Música Popular Angolana.
Artista gravou pela Valentim de Carvalho o single Fotografia: Dombele Bernardo
Com a gravação do clássico “Madya Kandimba”, em 1957, Garda inicia o processo de uma entrega romântica e desinteressada à música, enquanto cantora, compositora e instrumentista, transformando-se num símbolo representativo de resistência cultural, no feminino, nos primórdios da formação da Música Popular Angolana. Garda, com apenas 7 anos, assistia, contrariada pelos progenitores, às tertúlias em casa e escondia-se sob a mesa para ouvir a conversa dos adultos e a música interprtada pelo pai, um homem que tocava bandola, instrumento de cordas, estruturalmente próximo do banjo. Filha de Horácio de Oliveira e de Ana Andrade de Oliveira, Ildegarda de Oliveira nasceu, em Luanda, no dia 20 de Fevereiro de 1931, numa altura em que eram vivos os cantares da tradição luandense e emergiam, nos musseques, os grupos emblemáticos da massemba, também designada rebita, recordações que Garda conserva na sua desmesurada memória, de forma apaixonada e nostálgica. O ouvido apurado e a total paixão pela música, levaram-na ao auto-didactismo, chegando a tirar, directamente da viola, as notas dos temas da cantora Ângela Maria e os clássicos do samba canção, discos que ouvia numa altura em que o baião brasileiro estava na moda, nos bailes de Luanda dos anos 50. Mais velha de um conjunto de sete irmãos, Garda frequentou o quarto ano dos liceus e queria ser advogada para defender os mais fracos, contudo a música foi muito mais forte e, aos 18 anos, compõe o tema, “Meu violão”, a sua primeira canção: Meu violão adorado/ sempre lembrado/serás para mim o meu encanto/e nas horas vagas/ quando sozinha/ és tu que me acarinhas/Lá…lá…lá…lá…./Lá…lá…lá…lá…./ Chora, chora comigo/meu violão/ que eu estou chorando… Garda diz ter escrito esta canção em situação de desolação e tristeza, pelas adversidades da vida, numa altura em que era obrigada a cuidar dos irmãos, sem tempo para se dedicar aos estudos.
Garda e seu conjunto
Inequivocamente possuída pela música, a cantora funda, em 1956, o grupo “Garda e seu conjunto”, com Horácio Júnior (viola), Alberto de Oliveira (acordeão) e Fernando Perez do Amaral (voz, viola e maracas), uma formação que se tornou paradigmática, no início da sua carreira, constituída, maioritariamente, por membros da família, incluindo o pai que se juntava aos filhos, de forma sazonal, para os acompanhar, executando a bandola. Embora não falasse quimbundo, no interior da sua família, Garda esteve próxima de figuras da música angolana, como Liceu Vieira Dias, Nino Ndongo, amigo do seu pai, Rui Legot, Voto Neves, Eleutério Sanches, e Alba Clington, com quem cantou, em dueto, a canção “Bessangana”, interpretada em público numa das festas do empresário Manuel Vinhas, proprietário da fábrica Cuca. O grupo “Garda e seu conjunto” granjeou enorme reputação e prestígio, a tal ponto que, além das apresentações em Luanda, no governo-geral e na messe dos oficiais, foi convidado a deslocar-se a Portugal, em 1957, onde a título privado fez uma actuação na Festa da Quinta do Perú, propriedade do empresário Manuel Espírito Santo, com direito a aparições na televisão e no Casino Estoril. Nessa altura, conhece o editor Valentim de Carvalho, que a convida a gravar, e fez uma apresentação em Cascais, no Clube da Parada.
O disco "Madya Kandimba"
Garda grava, em 1958, pela Valentim de Carvalho, o single “Madya Kandimba”, um clássico que diz ter aprendido com o mais velho Fançony da Rebita. O disco inclui ainda os temas “Partida”, letra de Maria Eugénia Lima, “Angola”, do tenente Relvas, “No pé da Baía”, uma corruptela da expressão “ao pé da Baía”, baseada num texto de Coachat Osório, com música de Garda. Embora tenha gravado com o seu conjunto, os resultados do registo do single, “Madya Kandimba”, não agradaram o ouvido de Garda porque, disse, não tinham os instrumentos adequados, e foi gravado com a aparelhagem técnica do conjunto de Marino Marini, grupo que fez a primeira parte do baile de Manuel Espírito Santo. “De facto, o acordeão era bom, mas o acompanhamento era muito estridente, e foi por isso que não queria o disco, gosto de ser perfeita", recorda Garda. No entanto, o disco foi lançado, mas Garda, contrariada, não
enviou a foto da capa, tendo sido substituída pela uma figura de uma mulher negra, escolhida de forma aleatória. Salvo novas achegas na investigação, Garda afirma, convicta, que “Madya Kandimba” foi o primeiro disco, em vinil, a chegar a Luanda, pela editora Valentim de Carvalho, inaugurando o ciclo dos registos discográficos.
Formação clássica
Em 1959, Garda abandona a música ligeira e entra para a Academia de Música de Luanda, com o objectivo de concretizar um dos sonhos de juventude, onde aprende música clássica com Maria Helena Travanca, professora de solfejo, tendo sido examinada pelo professor Ivo Cruz, que veio expressamente de Lisboa. Paralelamente, começa a trabalhar como telefonista do Banco de Angola durante o dia, depois de acabar o quinto ano do liceu, contudo, nunca abandonou a viola e tocava, teimosamente, nos intervalos entre os atendimentos das chamadas telefónicas. Ao contrário do que possa parecer, Garda saiu de Angola, em 1962, e entrou no Conservatório, em Lisboa, onde estudou solfejo, até ao terceiro ano, e violino até ao sexto. Multi-instrumentista toca viola, acordeão, bandolim, órgão e dava aulas de violino.
A morte do marido
Os percalços da vida, na sequência da morte prematura do marido, o capitão José Joaquim Lofgren Rodrigues, falecido em Fevereiro de 1973, aos 37 anos, num acidente ao serviço do exército colonial português, em Angola, e o corte no pulso esquerdo, numa porta de vidro, que lhe atrofiou os tendões e a impossibilitou de tocar violino, foram ocorrências que mudaram completamente o curso da sua vida. Garda entra em depressão, e encerra a Escola Musical do Joca, que tinha na cidade do Porto. Joca é o diminutivo do nome do filho, José Horácio. É assim que decide viver na capital de Espanha, durante dez anos, onde trabalhou como cozinheira na residência de uma família rica, tendo passado depois algum tempo na Suiça. Alegre e esperançada, aos 80 anos, Garda afirma, de forma resoluta, que não se assume como artista e entende a música como “uma forma vadia de viver”.
O novo disco
Embora não goste de fazer negócio com a música, o novo disco da Garda resultou da teimosia de uma amiga, Vera Ramos, que a conhece desde 1999, e que foi rebuscar os originais do primeiro single na posse da editora Valentim de Carvalho. Na procura apareceram canções que a cantora já não tinha memória, uma das quais “Amor à primeira vista”, que não chegou a incluir no novo disco. Na sequência, Francisco Vasconcelos, um dos homens fortes da Valentim de Carvalho, foi convidado a assistir uma apresentação da Garda no bar “Ainda a noite é uma criança”, na Praça das Flores, em Lisboa, e ofereceu, além de um bandolim, uma cópia, em CD, dos originais da Garda, do tempo do “Madya Kandimba”, e decide celebrar um contrato, para a gravação de um novo disco. O novo CD, com título homónimo do nome da cantora, inclui as canções “A Garda do bandolim”, escrita pelo moçambicano Mingo Rangel, em homenagem à cantora, “Amor não te quero mais”, “Canção ilha azul”, um tema que ela aprendeu com Liceu Vieira Dias, “Ave Maria do Morro”, um dos grandes sucessos da Garda escrita em 1957, “O último beijo”, música e letra de Garda em memória do falecido marido, “Para Alcina”, canção que a autora dedica à amiga pela morte do seu filho único, “Triste melodia”, “Solo do bandolim” e “Magoaste o meu coração”, relato de uma história passional vivida pela cantora. Sobre a odisseia do retorno da Garda às gravações, o editor Francisco de Vasconcelos, diz: “Mais de 50 anos depois de uma falsa partida, que foi a sua primeira gravação para a Valentim de Carvalho, em 1957, é com muita satisfação que retomamos a carreira discográfica da Garda, ao mesmo tempo que celebramos os seus 80 anos. Entre as duas gravações há uma fascinante história para contar. Mas essa deve ser ela a contá-la”… Está em preparação um documentário sobre a vida e obra da Garda, uma produção da Valentim de Carvalho Multimédia, que vai ser lançado no âmbito dos 50 anos depois da primeira gravação, completando o ciclo de homenagem à cantora. Boémia, por opção, Garda vive no Convento da Encarnação, em Lisboa, e continua teimosamente a cantar.