Sagrada Esperança em poesia musicada

Jomo Fortunato|
15 de Setembro, 2014

Fotografia: Kindala Manuel

O “Poeta dos Pés Descalços, pseudónimo literário de Ângelo Reis, apresenta, amanhã, em conferência de imprensa, o projecto “Resgate de Valores, Memórias de Agostinho Neto”,  na sede da União dos Escritores Angolanos (UEA), em Luanda.

 O encontro, que se realiza no âmbito da Semana do Herói Nacional, vai ser uma antecâmara ao lançamento do CD “Kalunga, memórias de Agostinho Neto”, que inclui textos cantados da “Sagrada Esperança” e “Renúncia Impossível”.
Com interpretação em forma de canto e recital, Ângelo Reis e convidados revisitam os poemas: “Antigamente era”, com violão de Constantino Chicato, e Nando Katumbela na percussão e dikanza, “Kalunga”, com Kyako Kyadaff, “Velho Negro” com violão de Tio Hossi e percussão de Luís Costa, “Choro de África”, com participação da cantora caboverdiana, Celina Pereira, “Confiança”, com participação de Felipe Santo, de São Tomé e Príncipe, “Contratados”,  com Maio Coope, da Guiné-Bissau, “Com os olhos secos”, interpretação e violão de Malenga Malenga, de Moçambique e percussão de Felipe Santo, “Ópio” com Africanita, Constantino Chicato e Nando Katumbela, “Adeus à hora da Largada”, com Cláudia Wime, “Aspiração”, com Ngonguita Diogo e Lili Vasconcelos, violão de Tio Hossi e percussão de Luís Costa, “O içar da bandeira” com Constantino Chicato, “Poesia africana”, com Francisco Sales, e “Dois anos de distância”, com Ruca Fernandes, de Portugal.
A ideia foi juntar intérpretes e instrumentistas da África que fala a língua portuguesa, para revisitar o fado de Portugal, a Morna de Cabo Verde, o Samba e  a Bossa Nova do Brasil, o Kilapanga de Angola, a rumba, de  São Tomé e Príncipe, o “Ngumbe” da Guiné Bissau, a “Dzucuta” de Moçambique, e a universalidade do “Afrojazz” e  dos “blues”.

Percurso

Filho de Manuel Lousa Roque dos Reis e de Maria José Domingos, Ângelo Miguel Domingos dos Reis nasceu em Luanda no dia  26 de Fevereiro de 1978, e passou a sua infância no Huambo, cidade natal do seu pai. Em consequência da guerra foi levado para Portugal, pela sua avó Maria Odete Lousa, quanto tinha apenas nove anos de idade, a mulher que o educou e desempenhou um importante papel na afirmação do poeta  no mundo das letras.
Ângelo Reis é proveniente de uma família de artistas: o falecido avô  foi músico de bar no Huambo, a sua tia-avó é artista plástica, e o seu pai foi poeta declamador nos seus tempos de juventude. Desde jovem sempre teve uma tendência e inspiração para o mundo das artes, sendo, em finais da década dos anos oitenta, até princípios dos anos noventa, integrante de um grupo de “Rap”, constituído por elementos de várias origens, incluíndo africanos e portugueses, tendo feito parte do movimento conhecido por  “geração rasca”, em Portugal.
Depois de regressar a Angola,  permaneceu no anonimato, e só reapareceu declamando nos palcos da Galeria Celamar em meados de 2005. Em 2007 participou na criação do Movimento Lev´Arte, sendo um dos seus co-fundadores. Ainda em 2007, desta vez na companhia de Kussi Bernardo, Kardo Bestilo, participou na concepção do “Projecto misturas”, tendo feito  parte da antologia poética denominada “Palavras”, que envolveu escritos de vários poetas angolanos.
Ângelo Reis está incluído na Antologia Poética do livro “Raízes” (2013), com poetas do  Brasil e de Angola, e foi mentor dos CD’s, “Casamento entre semba e  poesia”, e o projecto “Contemplando o tempo”, de fado e a poesia.

Depoimento

Incluído no CD, “Kalunga, Memórias de Agostinho Neto”, Ângelo Reis fez o seguinte depoimento escrito: “É preciso refazer o caminho para compreender e dar continuidade à história dos africanos, sem o peso das violências experimentadas ao longo do período colonial e emitir na linguagem a memória calada, para que se registem e superem os traumas. A literatura como meio de comunicação pode ser uma ilustre representante dessa voz sufocada por séculos. Assim sendo, discorre-se sobre as diversas experiências advindas da colonização e das guerras, lançam-se olhares para o mar, como acção imprescindível no remorar da história nacional. A independência de Angola, ocorrida em 1975, levou António Agostinho Neto, médico e poeta angolano, a escrever esta obra ímpar, tendo-me inspirado a mim como poeta da nossa Angola, a declamar alguns dos seus poemas. Com base num estudo realizado sobre as suas obras, “Sagrada Esperança” e “Renúncia impossível” criamos o projecto “Memórias de Agostinho Neto”. É do conhecimento de todos que Agostinho Neto é um dos poetas pai da literatura angolana. Este homem foi um exemplo que defendia uma sociedade sadia, e inpirou-nos a valorizar a construção de ideias firmes para edificação da sabedoria nacional. É na verdade esta grande alma que me leva a refletir sobre a responsabilidade assumida com a arte, e com o povo angolano”.

Objectivos

Ainda segundo Ângelo Reis, o objectivo do projecto é “reavivar  as memórias de Agostinho Neto, inovando a sua poesia, utilizadndo ritmos musicais de Angola, e dos países por onde o poeta maior passou, afim de promover os seus grandes feitos por intermédio das suas palavras, que são o guia para o resgate dos valores cívicos, morais e culturais da nossa sociedade que ecoam “nas mais distantes terras do mundo”, e para toda a eternidade”.

Conferência

Para além da apresentação do CD “Kalunga, Memórias de Agostinho Neto”, a conferência de imprensa será um pretexto para um reencontro de poesia e música, com Ndaka Yoñi, Cláudia Wime, Constantino Chicata, Ras Nguimba Ngola, Fénix Monteiro, e  Tony Kapueto. A ocasião será uma oportunidade para apresentação de canções ao vivo, com percussão e dikanza. Serão oradores: Norberto Garcia, Mário Pinto de Andrade, e Penelas Santana, num acto que será apresentado por Kiocamba Kassua e Paula Carvalho. 

Interpretações

Depois da independência, o carácter revolucionário e universal da  poesia de Agostinho Neto motivou cantores e intérpretes, que têm valorizado a estética da sua obra literária. A canção “Renúncia impossível”,  interpretada por José Kafala, marcou o início deste processo de valorização musical da poesia de Agostinho Neto. Depois da sua morte , Tabonta e Mário Matadidi, duas figuras incontornáveis do “período de retorno” da Músdica Popular Angolana,  interpretaram as canções: “Wele Neto Tuna Yandi”, “Um minuto de silêncio” e “Volta camarada”. 
O CD “Vozes para Nguxi” marcou o contributo da nova geração de cantores à valorização da poesia de Agostinho Neto, com os poemas “Um bouquet de rosas para ti”, com Matias Damásio, “Livre”, Konde, “Minhas palavras”, Fhader Mak, “Noite na quitanda”, Gabriel Tchiema, “Velho negro”, Kizua Gourgel, “Setembro”, Totó,  “Kulembalabala”, Malú, “Herói para sempre”, Eleicy e Black, “Confiança”, Kanda, “Para enfeitar os teus cabelos”, Sandra Cordeiro, e a interpretação colectiva de “Vozes para Nguxi”.

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