Cultura

Semba carece de classificação nacional para candidatura na Lista da UNESCO

Francisco Pedro

A intenção de se inscrever o semba, enquanto género musical e dança angolanas, na Lista do Património (imaterial) da Humanidade é uma das apostas do Ministério da Cultura para este ano.

A dança semba já ultrapassou as fronteiras do continente africano e tem sido ensinada em diversos países do Mundo
Fotografia: Edições Novembro |

Por ocasião do 8 de Janeiro, Dia da Cultura Nacional, importa  recordar a raríssima bibliografia existente sobre o semba.
No dia 13 de Setembro de 2017, foi lançado em Luanda o livro “Dança Semba - um Guia Teórico Prático”, de autoria de Josué Campos Neto, angolano nascido no Congo Democrático.
Citado pela Angop, trata-se de um manual com esquemas de dança, para facilitar as pessoas interessadas em aprender a dançar. “O manual que coloco à disposição dos formadores e formandos é uma ferramenta indispensável e didáctica que visa essencialmente uma compreensão objectiva e clara dos movimentos do semba”,  afirmou o autor na ocasião.
Segundo o autor, a coreografia do semba resulta na verdade de uma síntese das múltiplas influências musicais em Luanda, com realce para o bolero, a rumba, o merengue, a plena, tango e outras.
Para Josué Campos Neto  é impossível discorrer sobre o semba - dança - sem abordar o género musical, pelo facto de este se encontrar associado à mesma caminhada evolutiva que a dança.
O livro teve uma tiragem de três mil exemplares, sendo a primeira de Josué Campos  Neto, natural de Kinshasa.
Um ano depois do lançamento do livro “Dança Semba - um Guia Teórico Prático”, por coincidência no dia 13 de Novembro de 2018, foi lançado em Luanda “Ritmos da Luta – O Semba como ferramenta de libertação”, da autoria de Fernando Carlos.
Apresentado pelo cantor Kizua Gourgel, autor do prefácio, de acordo com a Angop, o aparecimento do N’gola Ritmos foi, com certeza, o mais marcante, em 1974, cujo objectivo era de combater a opressão cultural colonial e afirmar a identidade musical nacional.
“Com os N´gola Ritmos nasceu uma nova linguagem da música angolana. As harmonias ganharam novos contornos nas mãos de Liceu Vieira Dias, que trouxe o violão clássico para estilos nacionais como a kazucuta e a kabetula e abriu portas para novos rumos musicais como o semba, descendente da masemba. A influência dos N´gola Ritmos e de Liceu Vieira Dias é tal que nos dias de hoje está na base do surgimento de novos estilos musicais e definições estilísticas como a masemba e o semba cadenciado”. O autor, Fernando Carlos, nasceu em 1993, em Luanda, e dedica-se ao teatro e à música.

Apurar as pesquisas
Numa altura em que o Ministério da Cultura aposta na  inscrição de Cuito Cuanavale, Tchtundudo Hulo e Corredor do Cuanza na Lista do Património Mundial, bem como o semba como Património Imaterial da UNESCO - Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura, impõe-se apurar todas as investigações divulgadas sobre esses bens culturais.
Desta forma, evitam-se especulações que podem ser nefastas a uma pretensão digna para enaltecer a cultura nacional, ou seja, a promoção da identidade angolana.
Por outro lado, caso sejam apuradas a veracidade das investigações divulgadas em livro ou noutros meios, sobre esses bens materiais e imateriais, designadamente Cuito Cuanavale, Tchitundo Hulo, Corredor do Cuanza e o semba, será bem-vinda para que a intenção de  inscrição na Lista do Património Mundial  seja concretizada com êxito, à semelhança de Mbanza Kongo, cuja candidatura ocorreu a 8 de Julho de 2017, na cidade de Cracóvia, na Polónia.
Recordamos que, um dos requisitos para que o Executivo apresente uma candidatura a UNESCO para a Lista do Património Mundial é a classificação a nível nacional, e para o efeito muito “trabalho de casa” deve ser feito para que o semba tenha essa classificação nacional.
Que opinião tem o Ministério da Cultura acerca do conteúdo do  livro “Dança Semba - um Guia Teórico Prático”, de autoria de Josué Campos Neto.
E a mesma questão recai para o livro “Ritmos da Luta – O Semba como ferramenta de libertação”, da autoria de Fernando Carlos.
Será que os assessores do Ministério da Cultura, bem como os professores do curso de Música e Dança, quer do Complexo das Escolas de Arte (CEARTE) quer do Instituto Superior de Arte (ISART), conhecem o conteúdo desses livros? Se sim, o que dizem? 
E que opinião têm os professores de música e dança que espalham a “moda”, por Luanda, noutras províncias e mesmo no exterior, ensinando centenas de pessoas ávidas em dar passadas, senão mesmo algumas umbigadas (semba)? E os compositores e intérpretes, alguns defensores do semba como bandeira nacional, até cantam “o semba..../ semba é nossa bandeira”, afinal, conhecem ou não essas obras didácticas e históricas sobre o semba?

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