Cultura

“Sim Camarada” em francês

Adriano de Melo |

Passado, sonhos e perspectivas dos angolanos antes e depois da independência, escritos por Manuel Rui Monteiro e publicados em diversas histórias no livro “Sim Camarada”, podem ser lidos agora também pelos francófonos.

Livro “Sim Camarada” de Manuel Rui Monteiro tem agora uma versão em francês
Fotografia: Paulino Damião | Edições Novembro

Nas livrarias francesas, com a chancela da editora Chandeign Paris, o livro, traduzido por Elisabeth Rodrigues, é uma oportunidade de os leitores francófonos conhecerem o que representou a independência para os angolanos e como foram os primeiros anos, particularmente a nível social, para um povo que saía da colonização.
A versão com 208 páginas está a ser comercializada na França ao preço de 20 euros e foi um dos destaques da edição do passado dia 14, do jornal francês Le Monde, que dedicou um espaço na sua secção Cultural, “Monde des Livres”, para falar um pouco do impacto que teve o livro de Manuel Rui Monteiro na época.
Através dos cincos contos do livro, “O Conselho”, “O Relógio”, “O Último Bordel”, “Duas Rainhas” e “Cinco Dias Depois da Independência”, o jornal francês fez uma crítica positiva ao trabalho do escritor, que, na altura, fez um menção especial à questão social, as dúvidas da população e aos vários movimentos de luta pela independência que se envolvem numa verdadeira guerrilha urbana.
“A escrita ecoa o júbilo de um povo inteiro. Movido pela urgência de dizer e gritar, ele brota do humor e da ternura. Desdobra-se com lirismo e às vezes, como numa ladainha, esse momento histórico em que a vida de um povo inteiro balançou. A revolução é como andar de bicicleta, se parar, cai”, pode-se ler numa das notas introdutórias sobre o livro.
Com a publicação do livro, o leitor francófono pode também conhecer o retrato de Manuel Rui Monteiro do “camarada”, homem, mulher, ou pioneiro, da Angola de 1975, uma época de luta, mudanças e esperança.
Outro aspecto importante é o facto de, nos cinco contos da obra, o autor utilizar a ironia e o lirismo para expor as dinâmicas sociais estabelecidas durante o governo de transição e os primeiros momentos após a independência de Angola, em 1975.
Como primeira obra de ficção publicada em Angola depois da independência, em 1977, com o selo da União dos Escritores Angolanos (UEA), a publicação da versão francesa do livro é para Carmo Neto, secretário-geral da instituição, um grande feito para a literatura angolana.
“É uma prova da qualidade da literatura angolana”, disse, acrescentando que a UEA tem preparado projectos para maior divulgação das obras nacionais. “Em Novembro, durante o dia de Angola no projecto Conacry - Capital Mundial do Livro, a UEA pretende, caso tenha possibilidades financeiras, apresentar títulos de autores conceituados e novos, num vasto acervo.”
Para Carmo Neto, é preciso que projectos desta natureza, que ajudam a divulgar o nome e as obras de autores nacionais, tenham maior dimensão. “É a própria identidade nacional que ganha espaço com esta divulgação”, explicou. Outro projecto que tem permitido a divulgação da literatura angolana, conta, é o “Literatura-Mundo”, iniciativa criada pela UEA, em parceria com a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, que culmina, em breve, com a publicação de uma antologia de autores lusófonos.

Perfil do escritor
Manuel Rui Alves Monteiro nasceu na cidade do Huambo a 4 de Novembro de 1941. Efectuou os seus estudos primários e secundários no Huambo, seguindo para Portugal, onde estudou Direito na Universidade de Coimbra, terminando o curso em 1969. Enquanto estudante foi activista cultural da Casa dos Estudantes do Império (CEI), participou em acontecimentos literários e políticas, tendo sido preso por dois meses em Portugal. Exerceu advocacia em Coimbra e Viseu.
Poeta, contista, ensaísta e crítico, escreve com frequência comentários críticos para jornais e revistas angolanas. Tem alguns livros de literatura infantil publicados. É o autor do Hino Nacional, versão angolana da Internacional, Hino da Alfabetização, bem como de outros poemas que integram o cancioneiro angolano. Colaborou em diversos jornais como o Planalto, República, “Mosca”, suplemento do Diário de Lisboa, Jornal de Angola, Correio da Semana. Foi galardoado com o Prémio “Caminho das Estrelas” de 1980, do Concurso de Literatura Camarada Presidente, outorgado pelo Instituto Nacional do Livro e do Disco de Angola (INALD).

Editora francesa Chandeigne celebra bodas

A publicação do livro foi feita no âmbito do 25º aniversário da editora francesa Chandeigne, que pela data publicou um catálogo das suas obras, com destaque para as especializadas na lusofonia, onde já tem um total de 247 títulos traduzidos.
A editora criada em 1992, pelo livreiro francês Michel Chandeigne, está enquadrada entre as generalistas, pois tem livros de literatura, ciências humanas, infanto-juvenis, arte e outros para um público mais largo. Inicialmente especializada nas crónicas de viagem da época dos descobrimentos e em romances de escritores lusófonos, a Éditions Chandeigne passou, anos depois, a editar poesia, livros de arte e infanto-juvenis.
Entre os destaques do catálogo deste ano constam os livros de Manuel Rui, Eça de Queiroz e Valério Romão (Portugal), Mia Couto (Moçambique), Graciliano Ramos, João Guimarães Rosa e Luiz Ruffato (Brasil), Manuel Lopes, Baltasar Lopes e Henrique Teixeira de Sousa (Cabo Verde).
A editora tem como “referência” a Librairie Portugaise & Brésilienne, na Place de l’Estrapade, em pleno Quartier Latin, em Paris, que foi criada há 31 anos por Michel Chandeigne, um francês que foi professor de Ciências Naturais em Lisboa, que fez expedições à procura de meteoritos no Brasil, foi observador da ONU em Moçambique, e viajou e trabalhou em Cabo Verde e Goa.
Entre as suas primeiras obras publicadas, estão a tradução de “A História Trágico-Marítima” (1992), uma coleção dos naufrágios ocorridos no século XVI com navios portugueses, “La Frontière (récit) & Les Azulejos du Palais Fronteira” (1992), de Pascal Quignard, e os dois primeiros livros da colecção “Bibliotèque Lusitane”, “La Littérature Portugaise” (1995) e “Camões. L’Oeuvre Épique & Lyrique” (1995).

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