Cultura

Simbolismo da Chicala na pintura de Nelo Teixeira

Jomo Fortunato

Como refere o prestigiado curador, DominickTanner: “Nesta Chicala de tempos passados, o artista expõe algo que a cidade de Luanda não preservou e que os mais jovens não têm conhecimento ou esqueceram, ou seja, um muro vermelho de chapa cor de sangue que cercando as habitações, escondia a destruição das casas e, simultaneamente, encarcerava os seus habitantes. 

Exposição no bairro onde o artista reside há mais de duas décadas está patente desde sexta-feira
Fotografia: Edições Novembro

As obras no projecto,  “Muro Vermelho”, foram produzidas a partir de recortes, rasgos, colagens e camadas de ideogramas, enfim, relatos visuais e fragmentos de memória da gentrificação deste importante bairro que foram vivenciados pelo artista e que ficaram registados em acervos pessoais.
O muro recriado viabiliza o acesso a algumas dessas imagens, potencializando a sua visualidade ao trazer à superfície as lembranças de um tempo passado. Define-se, desse modo, que o “Muro Vermelho” faz parte da memória colectiva não só da Chicala, não só de Luanda, não só de Angola mas de todos os angolanos.”
Nelo Teixeira vive e trabalha em Luanda, estudou pintura e escultura nos seminários promovidos pela União Nacional dos Artistas Plásticos (UNAP). Formado em carpintaria,  criou cenografias em diversos filmes,  dos quais destacamos, “Na Cidade Vazia”, da realizadora Maria João Ganga, “O Herói”, de Zezé Gamboa, “Ponto de Encontro”, de Hugo Vieira da Silva,  e nas peças de teatro “As bondosas”, José Mena Abrantes, e o “Preço do Fato”, do grupo Pitabel, com encenação de Adérito Rodrigues.  Nelo Teixeira tem exposto regularmente, desde 2000, e teve participação na segunda edição do Jovens Artistas Angolanos (JAANGO), movimento de arte angolana contemporânea que engloba artistas dos mais variados domínios da arte, no Museu Nacional de História Natural de Luanda, em 2013.
Neste ano fez parte da terceira  edição da “Ponte Cultural Angola-Israel”, um intercâmbio cultural na cidade de Telavive, que consistiu num conservatório intitulado “Danalogue” em prol do trabalho e do diálogo comunitário, em memória da jovem voluntária Dana Maor, onde participou numa Exposição Colectiva. Ainda no mesmo ano participou nas exposições colectivas “Sobumba” e “Arte 100 Fronteiras”, ambas em Angola. Logo depois participou na componente “Reciclarte”, no projecto “Orgulho em ser angolano” e no leilão da “Bonham’s” de arte africana, Londres, Reino Unido.
“Muro vermelho” de Nelo Teixeira, última exposição deste ano do Espaço Luanda Arte - (ELA), inaugurada no passado dia 26 de Outubro vai até 30 de Janeiro de 2019.

 Reciclagem 

Nelo Teixeira trabalha com materiais reciclados, dada a influência do tio. Desde a década de 1990, integra o grupo “Os nacionalistas”, sendo membro de pleno direito da União Nacional dos Artistas Plásticos, desde 1996.  Nelo Teixeira  expõe regularmente desde 2000 em várias exposições colectivas na então Galeria Celamar, Humbiumbi, Elinga Teatro, “Soso” Arte Contemporânea, Associação 25 de Abril e BAI-Arte. Em 2015 fez parte de exposição colectiva no  Pavilhão de Angola na 56ª Bienal de Veneza, Exposição Internacional de Arte, que teve lugar no Palazzo Pisani, em Campo Santo Stefano, com a exposição “Sobre as Formas de Viajar”,  onde desenvolveu um trabalho em que a madeira foi a estrutura de base, incorporada no conceito, “objecttrouvé”. Em 2016 as suas obras estiveram expostas no stand do  Espaço Luanda Arte - (ELA), na nona Edição da Feira de Arte “FNB Joburg Art Fair”, na África do Sul. Ainda no mesmo ano fez uma exposição individual de nome “Kilapi” no “ELA” e outra no Banco Económico, denominada “Not Bok”.
Filho de Joaquim Martins Teixeira e de Suzana de Oliveira Carlos, Manuel de Oliveira Martins Teixeira, nasceu no Ambrizete, Província do Zaire,  no dia 14 de Fevereiro  de 1974. 

 

Chicala

Nelo Teixeira trabalha e reside, desde 1993, no Bairro da Chicala onde criou o atelier “Só Bumba”, que tem desenvolvido várias parcerias com movimentos artísticos e projectos solidários. Da sua família, herdou a arte de criar máscaras e tem vindo a desempenhar um papel importante na comunidade artística de Luanda, onde ensina às gerações mais novas algumas das suas técnicas”. Sobre os materiais com que trabalha, Nelo Teixeira disse o seguinte: “Trabalho muito com materiais reciclados e resíduos. Tento explorar quase tudo, metais, plásticos, alumínios, vidros, tintas, até porque Luanda é uma cidade muito rica em resíduos, aos quais associo toda a inspiração que alimenta a minha criação artística”. 

 

Entrevista

Em entrevista concedida ao jornalista, Norberto Pires, do portal “Bué fixe”, no dia 20 de Outubro de 2016, Nelo Teixeira respondeu o seguinte: A propósito de como terá surgido a sua afeição pela pintura: “O meu gosto pela pintura surgiu de uma linhagem familiar e do incentivo de muitos pintores. Na condição de carpinteiro fazia as bases das telas e os artistas viam que eu tinha talento para tal. No entanto, tive educação artística na família e na escola, em termos gerais, globais. Sou, praticamente, um auto-didacta assumido. Estou na arte mas vim da carpintaria, como disse, e os meus mestres da pintura, fora de Angola, são o Vincent Van Gogh, Pablo Picasso, Leonardo da Vinci e Salvador Dalí. Dos pintores angolanos, destaco os que, de forma incontornável, influenciaram a construção da minha obra, António Ole, Jorge Gumbe  e Van”.
Entendemos que num processo de reconstituição emotiva e intelectual da memória, Nelo Teixeira reutiliza e consagra em arte, um conjunto de objectos de proveniência inusitada, imagens inéditas e propostas gráficas surreais, de importância aparentemente secundária e residual, conferindo ao dispensável um estatuto de valorização artística, inequivocamente indispensável à compreensão da sua profunda e apaixonada visão do mundo.


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