Cultura

Singela homenagem ao rei do “bolero” angolano

Jomo Fortunato

Bernardo António, Dikambú, guitarrista e prestigiado conhecedor da história da Música Popular Angolana, num texto publicado no encarte do CD “Memórias, Chico Montenegro” escreveu o seguinte, referindo-se ao perfil artístico do cantor, “Toda a criação nasce da alma e todo o compositor procura retractar as emoções, alegrias e tristezas, as vivências e tudo que a imaginação permite.

Chico Montenegro uma figura histórica do conjunto “Jovens do Prenda” faleceu no sábado
Fotografia: Edições Novembro

Chico Montenegro é um compositor nato que incorpora em si todas estas qualidades. Há mais de trinta anos que Chico Montenegro não pára de criar novos textos, novas mensagens que se transformam em sonoridades agradáveis, autênticos patrimónios musicais. (…) Motivado pelos ritmos nacionais, nos meados dos anos sessenta, os “Jovens do Catambor” decidiram formar um conjunto com esta designação. Posteriormente com José Keno, Gama, Kangongo, e Verry Inácio, Sansão e Didi fundam os “Jovens do Prenda”. Chico Montenegro tocava caixa e mais tarde descobriu o seu fascínio pelos bongós. Moldou a sua voz para interpretar de corpo e alma, boleros e rumbas, não obstante possuir no seu reportório bons sembas”.
De facto, embora todos cantassem nos “Jovens do Prenda”, segundo palavras de Chico Montenegro, muitos dos seus membros foram revelando as suas qualidades artísticas, ao longo da história do grupo. José Keno, por exemplo, destacou-se como célebre guitarrista solo, sem par, na história da Música Popular Angolana, Tony do Fumo ficou conhecido enquanto cantor, compositor e pelas suas qualidades de intérprete, e, Chico Montenegro, com a marca dos seus célebres “boleros”, distinguiu-se como cantor, compositor e percussionista de mérito reconhecido.

Catarse
É possível inferir, pela interpretação textual das canções de Chico Montenegro, os contornos e reflexos da opressão colonial, os efeitos da discriminação, desigualdade e perseguição aos nacionalistas na época do regime colonial. Neste sentido, a criação artística de Chico Montenegro advém de um efeito catártico, ou seja, da purificação da sua alma por meio de uma descarga emocional provocada por vários traumas pessoais que ocorreram ao longo da sua vida. Julgamos que este é um dos sentidos através do qual deve ser entendida e analisada a obra musical de Chico Montenegro. “Tive muito sofrimento na vida, sobretudo ao nível familiar e trabalhei como ardina, marceneiro, com o Tony do Fumo, engraxador e criado na casa de patrões portugueses”, recordou o cantor e compositor.

Descendência
Embora seja um artista proveniente de uma família ligada à música, com ramificações e descendência no Brasil, pela via do avô paterno, um brasileiro que se supõe chamar, José dos Santos, Chico Montenegro recordou que o pai tocava, “Kakoxi” ou “ cacoxa”, uma espécie de violino com três cordas, tocado nos “kombas”, cerimónias fúnebres, e nas noites de “sunguilar”, passagem da noite em tertúlia sob a luz do luar. O “Kakoxi” ou “cacoxa”, duas designações para um mesmo cordofone, é um instrumento típico da zona de Massangano, Cambambe, município da província do Cuanza-Norte, e extrai-se um som contínuo, semelhante ao de um violino, friccionando uma pequena vara às cordas atadas na caixa-de-ressonância.
No entanto, os “Kazolas do Prenda”, grupo de carnaval do grande comandante, Paulo Jorge, vulgarmente conhecido por Muxinge, acabou por ser na infância, a verdadeira escola de Chico Montenegro, sobretudo ao nível da percussão. Cantor, compositor e percussionista, Chico Montenegro, tambor solo e voz, ajudou a fundar, em 1968, o agrupamento “Jovens do Prenda” cuja primeira formação pontificavam os nomes de José Keno, voz e guitarra, Verry Inácio, tambores, Sansão, pandeireta e voz, e José Gama, viola baixo. Entram depois Tony do Fumo, voz e dicanza, Kangongo, tambor baixo, e Didy da Mãe Preta, pandeireta.
Filho de Miguel António e de Maria Lourenço Madeira, Francisco Miguel António, Chico Montenegro, nasceu em Luanda, Bairro Prenda, no dia 2 de Outubro de 1952.

Conjuntos
Para além dos “Jovens do Prenda”, Chico Montenegro fez parte do conjunto “FAPLA - Povo”, em Janeiro de 1976, formação musical militar da Direcção Política Nacional das “FAPLA”, ligada ao Ministério da Defesa de Angola, que agregou instrumentistas provenientes de vários grupos musicais, tais como Hildebrando Cunha, guitarra solo do África Ritmos, Babulo, baterista do “Luanda ritmos”, Dulce Trindade, viola ritmo que se estreava como instrumentista, Nandinho, hoje conhecido por Nanutu, Casa dos Rapazes, clarinete e saxofone tenor, Mateus Gaspar, teclas, seminarista, Habana Maior, tumbas do Bossa 70, Massy, da Casa Pia de Luanda, saxofone alto, Correia, da Casa Pia de Luanda, trompete, Mauro do Nascimento, cantor, Zeca Pilhas Secas, veio dos Águias-reais, viola baixo, e veio a ser substituído por Carlos Timóteo, Calili, proveniente dos Jovens do Prenda, Robertinho dos Ébanos, voz, Bidon, veio da Frente Leste, no Moxico, Samanjolo, do Huambo, voz, Santocas, voz, Pepe Pepito e Nonó Manuela, do Uíge, vozes, David Zé, Artur Nunes e Urbano de Castro, cantores, Dikembé, tocava o Likembé, espécie de kissanji, e Chico Montenegro, voz e bongós. Importa referir que o conjunto FAPLA-povo foi uma formação representativa das várias culturas de Angola, que incluía teatro, dança e marimbeiros, da qual destacamos, o saudoso dançarino e marimbeiro, Mulundo.

Homenagem
Chico Montenegro foi homenageado no Centro Cultural e Recreativo Kilamba no dia 24 de Fevereiro de 2008, na sexagésima oitava edição do "Caldo do Poeira", um projecto cultural da RNA, Rádio Nacional de Angola, pelo conjunto da sua obra e contributo à cultura angolana. A homenagem teve como convidados os cantores e compositores, Massano Júnior, Dino Kapakupako, Armanda Cunha, Zecax, Dom Caetano e Vate Costa, com acompanhamento do agrupamento “Os Jovens do Prenda”.

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