Cultura

Singelo subsídio à realização de um novo modelo de Carnaval

Jomo Fortunato

O Carnaval reclama um en-contro com todas as sensibilidades culturais visando a reavaliação da sua dimensão artística e sustentação económica.

União Mundo da Ilha é o grupo com mais títulos conquistados no Carnaval de Luanda, fruto de um exelente trabalho
Fotografia: Kindala Manuel | Edições Novembro

Entendemos que o carnaval pode ser preparado ao longo do ano, com reuniões de auscultação aos dirigentes dos grupos, num processo anterior ao desfile central, para que as suas necessidades sejam geridas e atendidas, atempadamente, de forma racional e adequada.
A criação de um Plano Na-cional de Reorganização do Carnaval seria a antecâmara à realização de um encontro local de repercussão nacional, congregando todas as sen-sibilidades culturais, o que poderá ocasionar mudanças estruturais na produção e êxito do Carnaval Nacional, enquanto produto turístico por excelência.
O processo de reorganização engajaria os Governos provinciais, representantes dos Grupos de Carnaval, Blocos de Animação, APROCAL, Associação Provincial do Carnaval de Luanda, Comissão Nacional Preparatória do Carnaval, Direcções Provinciais da Cultura, Associações Culturais e todas as instituições intervenientes na realização do Carnaval, incluindo convidados, interessados, e, sobretudo, definir o papel concreto do empresariado nacional.
Não sendo conclusivo, o Plano Nacional de Reorganização do Carnaval, visa instaurar um debate alargado com os principais intervenientes na produção do Carnaval angolano, procurando consensos para uma festa que se pretende mais organizada, modernizada e participativa.
O plano poderá ser traçado perseguindo os seguintes objectivos, melhorar o estado actual de realização do carnaval, reorganizar a estrutura interna dos grupos, rentabilizar a sede dos grupos, transformar os grupos em associações, realizar eleições e potenciar o estatuto da Associação Provincial do Carnaval de Luanda (APROCAL), motivar a criação de associações do carnaval nas Províncias, documentar, em suportes actuais de registo, a história do carnaval, criar estratégias de transformar o Carnaval em produto turístico e definir, rigorosamente, o número de foliões dos Grupos de Carnaval, no desfile central.

Criatividade
O Carnaval, enquanto produto criativo, pode ser inovado em cada edição. A estratégia de restauro dos adereços, com uma substancial repercussão na forma de apresentação dos Grupos de Carnaval, passa pelo engajamento dos profissionais dos vários domínios da arte e dos ofícios que intervêm no processo de criação da estética do Carnaval que vão desde, artistas plásticos, carpinteiros, funileiros e empresas em condições de fornecer materiais com perfil industrial, passíveis de ser introduzidos no carnaval.

Mudanças
Quanto a alegoria, é possível definir patrocinadores que venham a apoiar, directamente, a construção dos carros alegóricos, contrariando a lógica da sua elaboração tumultuosa e abrupta, com efeitos perversos na sua apresentação estética. O painel reclama a intervenção directa dos artistas plásticos, sobretudo na criação da bandeira e nas insígnias que identificam os Grupos de Carnaval. A corte pode recriar a simbologia do poder tradicional angolano, com símbolos de construção industrial, sem menosprezar a criação e construção artesanal. Por último, os comandantes mais antigos do carnaval e consagrados foliões, podem orientar seminários e trocar experiências, através de debates, com a nova geração de comandantes.

Canções
As canções do Carnaval constituem uma vertente musical que se desenvolve, normalmente, fora dos palcos e po-dem ser melhoradas com o contributo criativo da generalidade dos compositores da Música Popular Angolana. Este facto tem motivado compositores e instrumentistas, sobretudo os que se encontram filiados e próximos dos grupos de Carnaval, a desenvolver e aprofundar as suas aptidões musicais e criativas, dentro de um espírito de competição saudável. A aproximação dos profissionais da música aos grupos de carnaval pode resultar na melhoria da estrutura e conteúdo textual das canções. Embora suportadas por uma temática peculiar, a maior parte das vezes em estreito diálogo com o enredo e a alegoria, as canções do carnaval devem estar estruturadas tendo como base um maior investimento na harmonia, melodia, ritmo, característico do Carnaval, e interpretação, associada à teatralização dos foliões, incluindo as características estruturais do texto, ou seja, o recurso ao esquema rimático e à correcção linguística.

Investigação
A investigação universitária deve estar próxima do Carnaval para o conhecimento da história e do perfil artístico das grandes figuras do passado do Carnaval. Os temas sobre o Carnaval devem ser propostos pelos professores Universitários para teses de pós-graduação, na sua dimensão sociológica e artística, motivando o surgimento de títulos bibliográficos sobre o Carnaval. O Carnaval angolano possui uma história secular e grupos que, pelo seu passado, devem constituir matéria de investigação universitária. É urgente recuperar, para estudo, a dimensão material e imaterial do Carnaval, que incluem pinturas, esculturas, adereços, literatura, canções, linguagem e costumes ligados a aspectos da filosofia e estética do Carnaval.

Temas
Com o advento da aproximação dos cantores e compositores aos grupos de carnaval, os temas das canções têm variado e vão desde a exaltação da obra dos grandes poetas, apelo ao respeito dos preceitos educacionais da tradição angolana, consubstanciados na pedagogia da sabedoria dos mais velhos, o carácter satírico e apelativo dos textos que, pelo seu conteúdo, alertam as autoridades e sociedade em geral, para a solução construtiva de problemas básicos das populações. Uma outra vertente dos temas, enaltecem a expressividade do ritmo e as origens sócio-culturais do Carnaval angolano.

Compositores
Destacaram-se ao longo dos últimos dez anos do Carnaval de Luanda, os compositores, Zecax, com a canção "Semba da mulher angolana”, que representou os Unidos do Caxinde, em 2009, Acácio Bambes, União 10 de Dezembro, com os temas, “Antigamente Era”, 2017, e “A união do carnaval da Maianga”, 2018, Tonicha Miranda, com o grupo União Mundo da Ilha, com o tema, “Letratoyagimivu” , 2018, Dom Caetano, União Recreativo Kilamba, com a canção “Mesene yaufunu”, 2018, e Patrícia Faria, com o tema, “Facetas do nosso país”, interpretada pela cantora e radialista, em 2017, no União Recreativo Kilamba. Dom Caetano tornou ainda a representar o União Recreativo Kilamba, com a canção, “Angola e seus ancestrais”, Baló Januário com o tema “Corredor do Kwanza”, represen-tou o União Njinga a Mbande, e Calabeto deu voz à canção “Monami”, representando o União 10 de Dezembro, todos em 2019.

Kuduro

Tal como o semba, varina, tchianda e kazucuta, danças tradicionais que emigraram para o carnaval, o kuduro, enquanto dança e música de proveniência popular e expressão internacional, deve figurar, naturalmente, na contemporaneidade do carnaval com a criação de um grupo que venha a promover esta dinâmica expressão artística. A dança, um dos suportes emblemáticos do kuduro, possui uma plasticidade coreográfica reconhecidamente angolana, que sobrevaloriza o ritmo e a palavra inusitada, características de fácil introdução no ritmo do carnaval. As ocorrências do quotidiano dos bairros, a crítica social e política, os comportamentos, os defeitos do adversário, o enaltecimento das virtudes, a auto-promoção, são os temas e estratégias recorrentes de composição temática dos textos do kuduro, que, resguardando o conteúdo moral, podem estar integrados nas canções do Carnaval, evitando o uso irreverente da palavra obscena ou “obscenizada”. Acreditamos que a criação de um grupo de carnaval, constituído por jovens artistas representativos do kuduro, poderá constituir um importante contributo à modernização e inovação do Carnaval angolano.

Tempo

Multimédia