Cultura

Singelo tributo ao histórico conjunto “Os Jovens do Prenda”

Jomo Fortunato

Cinquenta anos depois da  fundação, em 1968, o conjunto “Os Jovens do Prenda”  organizou um conjunto de actividades, com destaque para um espectáculo no campo do Felício, no bairro Prenda, sábado último, que revisitou os mais importantes sucessos do grupo e reuniu figuras históricas e instrumentistas da nova geração. 

O processo de formação dos “Jovens do Prenda” resultou da fusão de vários pequenos grupos
Fotografia: Edições Novembro

A designação, “Os Jovens do Prenda” , resultou da reutilização do  topónimo de um bairro histórico luandense, incluindo as suas zonas adjacentes, que viu nascer o conjunto musical que então se formava. O processo de formação do conjunto resultou da fusão de vários pequenos grupos e desdobrou-se em quatro fases assim designadas, a primeira com o surgimento dos “Jovens do Catambor”, em 1965, com Manuelito, viola solo,  Napoleão, puíta, Zé Kaquarta, caixa, e Juca, chefe do grupo e empresário,  designação reforçada pela ocorrência frequente dos ensaios no Bairro Catambor.
A  segunda fase começou com o surgimento do agrupamento “Estrelas da Maianga”, ainda em 1965, com Kangongo, caixa, Antoninho, viola solo, Gamboa, puíta e viola baixo, Maneco, vocalista, João, tambor baixo, e António do Fumo, dikanza e vocal.
A terceira fase foi a dos “Os sembas”, em 1966, com  Sansão, vocal, Casimiro, chefe do grupo, Chico Montenegro, vocal e dikanza, Zé Gama, viola baixo, em guitarra de seis cordas, os irmãos Augusto Tchurula, bate-bate,  e Antoninho Tchurula, dikanza, Zé Keno, viola solo, e Inácio, colaborador.
A quarta fase, considerada definitiva, surgiu com os “Jovens do Prenda”, em  Outubro de 1968, designação que perdurou até a actualidade e que resultou, fundamentalmente, da fusão dos “Jovens do Catambor” e dos “Sembas”. 
De notar que, muito antes da dissolução dos “Jovens do Catambor”, o guitarrista Zé Keno já tinha sido convidado a integrar este grupo, convite que então declinara. Com a concretização, efectiva, da referida dissolução Zé keno aceitou o repto com uma única condição, levar consigo antigos companheiros dos “Sembas”: Zé Gama, viola baixo e Sansão, vocal, que se juntaram ao Didi, vocal, Augusto, vocal, Inácio, tambor baixo,  e Chico Montenegro, tambor solo, formando, assim, a primeira e mais sólida formação dos “Jovens do Prenda”, dirigida pelo empresário Juca.
Num quintal contíguo ao local onde ensaiavam os “Jovens do Prenda”,  trabalhava o conjunto,  “Estrela da Maianga”, formado  por Antoninho, guitarra, António do Fumo, vocal e dikanza,  e Kangongo, tamborim. O desenvolvimento rápido e seguro dos “Jovens do Prenda”, atraiu o Kangongo e o António do Fumo, duas figuras que iriam emprestar ao grupo maior elasticidade artística, sobretudo ao nível da composição e da interpretação.

Formação   
 
A primeira grande formação dos Jovens do Prenda, na versão do Zé Keno, integrava o Juca, chefe e empresário do grupo, Didi da Mãe Preta, vocal e dikanza, Sansão, vocal e  pandeireta,  Zé Gama, viola baixo,  Inácio, tumbas baixo,  e Chico Montenegro caixa ou tambor solo.  Augusto João Luís, autor do clássico “Samba Samba” diz ter integrado os “Jovens do Prenda” em 1966,  proveniente dos Kinas, grupo do cantor e compositor, Dino Kapakupaku. Augusto João Luís integrou, primeiro, os “Jovens do Catambor” e, só depois, os “Jovens do Prenda”, permanecendo até finais de 1969, época em aparecem dois conselheiros, os empresários Manguxi e Braguês, o último  alugava aparelhagens e era proprietário do Salão do mesmo nome, no Sambizanga. Aconselhados pelo empresário Manguxi,  os  “Jovens do Catambor” passaram a “Os Jovens do Prenda” e a justificação foi a seguinte: “o certo, argumentava o empresário, é denominar o grupo com o nome do bairro de onde são provenientes”.
 
Kandango
Depois do “Período de Silêncio” da Música Popular Angolana, 1974, os “Jovens do Prenda” ressurgiram, em 1981, pela mão caridosa do empresário Kandango e gravaram o LP “Música de Angola, Jovens do Prenda” (1982, IEFE, Discos, Intercontinental Fonográfica, Lda) – um disco de criação colectiva – com Zé Keno, viola solo e voz, Alfredo Henrique, viola ritmo, Carlos Timóteo, viola baixo, Avelino Mambo, bateria, Zecax, vocalista e pandeireta, Massy, saxofone, Gaby Monteiro, percussão e voz, Fausto Ricardo, trompete, Verrynácio, tumbas, Chico Montenegro, bongós e voz, Luís Neto, dikanza, Augusto João Luís, dikanza e vocal, Laurindo, teclas, Correia, trompete, e Baião, contra-solo. 

Sonoridade
Existem bandas musicais de forte pulsação popular que perduram no tempo, um fenómeno que decorre,  essencialmente, da filosofia estética dos grupos, consequência natural da formação musical, cultura e proveniência social dos seus integrantes. De facto, o enraizamento cultural e a dinâmica social dos musseques de Luanda, fizeram dos Jovens do Prenda um dos grupos mais emblemáticos da história da Música Popular  Angolana.
Uma das características que realça a arte do grupo é o seu ritmo. Os “Jovens do Prenda” têm uma sonoridade  muito peculiar que advém da fusão de ritmos locais, a incidência é o semba e rumba, com forte influência do Doutor Nicó, um importante cantor que fez história na música da República Democrática do Congo. 
Os grandes guitarristas ritmo  dos “Jovens do Prenda” foram: Mingo, Alfredo Henrique, Diogo Sebastião e Quintino, actualmente na Banda Movimento. Sobre as várias metamorfoses que o grupo tem sofrido, decorrentes de cisões e abandonos, Luís Neto afirmou: “as pessoas nascem e crescem, contudo cada um vai para onde mais lhe agrada. ‘Os Jovens do Prenda’ não são só música e entretenimento, são uma escola...”

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