Cultura

Singelo tributo ao lendário guitarrista dos “Kiezos”

Jomo Fortunato

Sem o lendário guitarrista Marito Arcanjo, o conjunto, “Os Kiezos”,  não teria a magnitude artística e a importância histórica que o coloca, de forma inequívoca, no ponto mais alto da alma musical angolana de feição urbana, produzida na época colonial.

Guitarrista recebeu as primeiras lições das mãos de Duia
Fotografia: Edições Novembro

Marito Arcanjo recebeu do histórico Duia, figura carismática do conjunto os Gingas, as primeiras lições de guitarra na casa da sua irmã, Mana Didi Arcanjo. Muito cedo, o jovem Marito, revelou possuir uma extraordinária capacidade de assimilação, tendo demonstrado uma notável destreza na execução da guitarra, recriando os solos do Franco Luambo Makiadi, célebre guitarrista do Congo Democrático.
Tudo começou no início dos anos sessenta, no Bairro Marçal,mais propriamente na zona do “Kapolo Boxi”, quando Domingos António Miguel da Silva, Kituxe, figura indissociavelmente ligada à fundação dos “Kiezos”, reuniu um grupo anónimo de quatro jovens entusiastas, com propensão natural para a música. Essa pequena formação, queextraía sons de instrumentos artesanais, cedo foi crescendo, tomou forma e começou a animar as noites quentes do Bairro Marçal.
Em 1963, Kituxe convidou Tininho e, logo depois, Aristófanes Rosa Coelho, Adolfo Coelho, dikanza e voz, jovem que assistia com frequência, os ensaios do grupo. Na sequência, Adolfo Coelho solicitou os préstimos de Anselmo de Sousa Arcanjo, Marito, figura que marcou de forma definitiva, a história do agrupamento, “Os Kiezos”. 
Marito Arcanjo, genial guitarrista com nome gravado na história da Música Popular Angolana, nasceu no dia 12 de Maio de 1947, em Luanda, e completou 70 anos, no passado Sábado. Marito Arcanjo retornou aos palcos depois de uma longa ausência, para demonstrações simbólicas, em Agosto de 2002 e no dia 9 de Maio de 2010, como figura de cartaz do ciclo de espectáculos dominicais, “Muzonguê da Tradição”, organizados pelo Centro Recreativo e Cultural Kilamba.   O cartaz da mais recente homenagem,  teve a participação da nova geração dos “Kiezos”, com Manuelito na voz, da banda “Kimbambas do Ritmo”, que acompanhou o cantor e compositor, Lulas da Paixão , e do cantor, Tony do Fumo Filho.
 
Designação
 
A designação, “Kiezos”, surgiu, em 1965, no ambiente de uma festa na B3, rua luandense do Bairro Nelito Soares, convívio para o qual os músicos que iriam formar, mais tarde, “Os Kiezos”, não foram convidados. O facto é que os intrusos animaram de tal forma a festa, que se levantou a poeira do quintal, consequência da frenética animação dos dançarinos, situação que provocou a associação do efeito provocado pelo pó da varrida de uma vassoura. “Iezo” é uma palavra, em língua kimbundu, que, traduzida para a língua portuguesa, é sinónimo de vassoura.  O baptismo “Kiezos”, nome que perdura até aos nossos dias, é plural de “iezo”, ou seja, vassouras.  De 1964 a 1965 situa-se a data provável da primeira formação do grupo, entendido como constituição musical com alguma seriedade e solidez artística.

Aparição
Os “Kiezos” apresentaram o seu primeiro grande  concerto, em 1969, no “Ngola Cine” e, em 1970, gravaram o primeiro disco na Voz de Angola, actual RNA, Rádio Nacional de Angola. Nesta altura entraram para o grupo, o percussionista e vocal, Juventino Anselmo de Sousa Arcanjo, irmão do Marito, Vate Costa e Fausto Lemos, o último notabilizou-se como um dos vocalistas principais do grupo, pela interpretação e composição do tema “MbakuKavalé”.  Inspirados nas malhas rítmicas dos “Negoleiros do Ritmo”, “Musangola”, “Dimba Ngola”, “Gingas” e “Ngola Ritmos”, de Liceu Vieira Dias, formações musicais mais famosas da época, “Os Kiezos” foram construindo uma importante trajectória musical, baseada numa construção rítmica e estilística, muito própria, só possível através da unidade inquebrantável do grupo, às  harmonias dos solos da guitarra do Marito Arcanjo, e às notáveis interpretações de Vate Costa dos clássicos: “Za boba”, canção da cantora e compositora, Dina Santos, “Ché-ché mãe”, “Muá Pangu”, “Kuxingue ngamba” e “Ngana Zambi”, 1972, um tema com letra e música de Carlos Lamartine, da qual respigamos os seguintes versos: EiéNgana Zambi / Ngi bane ngósauídi / Pala Ngui mona / Kiosokiákula anani / Eme ngui tata Kia / Ngueniami samba / Ngueniami salo / Ngueniami ó mbolo / Pala ngui bane anani / Ngolombanza / Suku ni luanha / Nguidilangó adi Jame / Nguimba pala ngui ji bidissá / Kizua ni nizua / Kiosokiákulaanami... Estávamos numa época em que se internacionalizavam os grandes grupos de rock na Europa: Beatles, Roling Stones e Credence Clewart Revival, bandas que influenciaram os “Kiezos”, trilhando a moda yé-yé da época. Os “Kiezos” deram um grande salto na carreira quando, convidados pelo locutor Joffre Rocha, participaram, em 1965, na gravação de um anúncio publicitário da empresa cervejeira Nocal.  Este facto resultou num assinalável prestígio do grupo fazendo atrair muitos admiradores. Destes destacaram-se nomes de Costa Venâncio e Timakoi. O primeiro foi um artesão que construiu a primeira viola do Marito Arcanjo, e, ao segundo, deveu-se a gentileza de, sem qualquer retribuição, ter dispensado a sua aparelhagem para os primeiros ensaios dos “Kiezos” com equipamento electrónico. Até então Adolfo Coelho, dikanza e voz, e Fausto Lemos, tambor e voz, assumiam a condição de vocalistas principais, até a entrada de Vate Costa que, para além dos temas do grupo, interpretava canções do Franco Luambo Makiadi.

Milhorró
Jorge Pasteur José da Costa, Vate Costa, é um nome incontornável da história dos “Kiezos”, não só pelo notável desempenho vocal, mas, e, sobretudo, pela interpretação do clássico “Milhorró”.  A canção “Milhorró”, uma composição de Babaxi e Murimba Show, dois destacados compositores do Bairro Indígena dos anos 1958 a 1959, custou, em 1972, a detenção de Vate Costa durante três meses, pela PIDE, Polícia Internacional de Defesa do Estado. 
“Milhorró” tem, na sua estrutura textual, vários versos de índole satírica dirigidas ao regime político da época: Vão, vão-se embora/ que isso assim não pode ser (...), são, explicitamente, os versos que traduzem uma intencionalidade ousada que enfureceu a censura colonial. Atribui-se à Úpia, uma mulher angolana muito chegada aos “Kiezos”, cunhada do Juventino Arcanjo, a gentileza de recordar e passar ao Juventino Arcanjo e Vate Costa, a letra do “Milhorró”. Logo depois foi a gravação, as consequências e o prestígio de um tema que se transformou num verdadeiro hino da história dos “Kiezos”, grupo que recebeu o Vate Costa em 1965.

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