Situação dos museus revista em congresso


25 de Outubro, 2014

Fotografia: AFP

A actual situação e o estado dos museus, a nível mundial, foram debatidos em congresso por inúmeros especialistas espanhóis, portugueses e latino-americanos, que recomendaram a criação de estratégias mais fortes de aproximação entre as instituições e o público.

Temas como a descolonização dos museus e a criação de novas e melhores estratégias de proximidade com o público, estiveram entre os principais pontos de debate. Para a maioria dos especialistas, um museu deve ser um espaço onde “a jóia de um rei é tão importante como um pneu velho ou a fotografia de um avô que poucos conhecem e foi morto pela ditadura”.
Para o responsável pelo programa Gulbenkian Próximo Futuro, António Ribeiro, “o museu era no princípio a instituição que materializava a ocupação colonial do resto do mundo e a sua posse, visto como arquivo ilustrado do poder e lugar de estabilidade das classificações e hierarquizações disciplinadas das raças e das espécies e dos cânones artísticos”, mas hoje precisa de se reinventar.
“Podemos descolonizar os museus?”, perguntou, para responder em seguida: “Podemos e devemos. Mas como? E de que descolonização falamos? Da que se refere apenas aos impérios europeus?”, questionou.
Descolonizar no caso, explicou, é a releitura dos acervos dos museus ocidentais, muitos deles constituídos quando o mundo estava ainda dividido em impérios coloniais e também pela abertura às comunidades onde estão instalados.
O coordenador do Sistema Nacional de Museus do Uruguai, Javier Royer Rezzano, vê a descolonização como a libertação da perspectiva imperial dos acervos, mas também por uma versão de luta de classes dentro do museu, para o tornar mais inclusivo e o aproximar das comunidades que serve.
“Não podemos continuar a construir museus, na América Latina ou em qualquer outro lugar, com base nas colecções reunidas pelas elites económicas, políticas e culturais. Porque o museu moderno, mesmo resultando de um processo histórico em que essas elites tiveram um papel importante, não pode ignorar outras classes nem deixar de falar com toda a gente.”
Como exemplo de uma visão eurocêntrica e um modelo desactualizado e sem preocupações inclusivas, o responsável refere o Museu Histórico Nacional do Uruguai, em Montevideu, criação de uma junta militar, no qual não estão representados nem os trabalhadores, nem as mulheres, nem as comunidades indígenas. “É preciso mudar isto se queremos que os museus continuem a reclamar um papel social, a ser construtores de identidade.”
Mas esta mudança, acrescentou, não se faz sem a consciência de que o museu é também um território de conflito, em que se cruzam diversas visões díspares para responder a perguntas fundamentais, como “o que é uma obra de arte? A que nos referimos quando falamos de história nacional? Como se mostra o extermínio dos povos indígenas? E como é que se trabalha um período de subjugação para um poder colonial ou a uma ditadura?”
Estas e outras perguntas, garante Rezzano, vão expor as clivagens que existem dentro do próprio país: “A colonização não vem apenas de fora, é feita também a partir de dentro, é como a divisão Norte/Sul, que não é só global, existe na nossa própria casa”, observa. “O museu tem de falar de todos e com todos – ricos e pobres, dominantes e dominados, elites e excluídos –, porque, quer se queira quer não, é um espaço político.”
Javier Royer Rezzano não defende o regresso a um “passado indígena” como projecto museológico, algo que “não faria qualquer sentido”, mas acha que sem a “descolonização” do modelo do museu-elite ou do museu-espectáculo estas instituições não podem continuar a reclamar relevância social na América Latina.
Alan Trampe, director das bibliotecas, arquivos e museus do Chile, e o brasileiro Ângelo Oswaldo de Araújo Santos, curador e presidente do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), concordam com Javier Royer Rezzano.
Para o chileno, a fase que vivemos é de transição no que diz respeito à própria ideia de museu. “Hoje convivem museus tradicionais – mausoléus para guardar coisas, mais ou menos actualizados – com museus mais experimentais, a que no Chile chamamos sociais.” Estes últimos, explica, são feitos a partir das comunidades e, muitas vezes, recorrendo aos objectos, documentos e outros testemunhos que as populações trazem das suas casas.
“O museu ocidental, colonial, não nos serve, nem serve de modelo aos outros países da América Latina, porque continuamos a ter comunidades vivas ligadas ao património que queremos mostrar.” O chileno acredita numa premissa aparentemente simples: “Se queres aproximar o museu das pessoas, faz com que conte a história delas.”

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