Festival de monólogos presta homenagem à fundadora do Oásis

Helma Reis |
27 de Março, 2016

Fotografia: Domingos Cadência

O teatro angolano tem vários rostos. Dos mais visíveis ao menos, alguns despontaram mais do que outros ao longo dos anos. “Totonha” foi um deles. Com força de vontade e determinação conseguiu se impor ao longo dos anos, como uma referência do teatro angolano.

Hoje com 55 anos, Vitória Avelino Dias Soares é casada e mãe de quatro filhos. Apesar da idade, “Totonha” continua a considerar o teatro o seu forte. O seu talento já foi alvo de diversas homenagens. Este mês é uma das artistas homenageada do Festival de Monólogos Vitória Soares.

Jornal de Angola- Quando começou a paixão pelo teatro?

Vitória Soares -
Comecei a fazer teatro na igreja, no grupo Etraci, em 1985, na altura sob a direcção do encenador Augusto Correia. Na época tinha apenas 12 anos. Três anos depois o grupo extinguiu-se e resolvi experimentar outros palcos.

Jornal de Angola- Qual foi a sensação de pisar um palco?

Vitória Soares -
Lembro que a primeira vez tive uma sensação maravilhosa. Embora estivesse tímida senti que ali era o meu lugar. Foi este o momento que definiu toda a minha vida.

Jornal de Angola- Antes do teatro teve algo que a marcou?

Vitória Soares -
Na época fiquei feliz por ver que as crianças também podiam encenar. Então comecei a sonhar mais alto. Anos depois fui convidada a encenar o papel da Virgem Maria num espectáculo de teatro na igreja.

Jornal de Angola- Depois dos primeiros passos como foi?

Vitória Soares -
Em 1989, a convite de António Pedro Cangombe, enquadrei-me no grupo de teatro Oásis da Angotel. Anos depois fui a primeira actriz nomeada para o cargo de directora geral do mesmo grupo, que hoje é o Oásis.

Jornal de Angola- Teve alguém como influência na sua carreira?

Vitória Soares -
Sempre quis fazer teatro. Felizmente ninguém me contrariou. Claro que na altura nem pensava que poderia, um dia, ganhar uma homenagem. Antes o que predominava era a vontade de levar o teatro mais além. Tínhamos um gosto pela sensibilização. Poucas pessoas sabiam o que era o teatro e confundiam os actores com palhaços. As actrizes eram vistas como mulheres mal comportadas e sem trabalho. A sociedade descriminava principalmente as mulheres. Hoje o teatro é um cartão de visita. A única pena é que ainda não chega a todos extractos da sociedade.

Jornal de Angola- Tem alguma peça que gostaria de encenar?

Vitória Soares -
Cada peça é como um filho e temos um carinho especial por todos os espectáculos, porque levam-nos a uma realidade diferente. Para mim, até hoje todas as peças do Oásis são boas em termos de argumento e mensagem a transmitir. Geralmente o grupo procura por assuntos fundamentais do quotidiano e os que ajudam a preservar a tradição.

Jornal de Angola- O que falta melhorar no teatro angolano?

Vitória Soares -
Falta de tudo um pouco. Hoje felizmente temos uma escola de formação do ensino superior, mas ainda faltam espaços para exibição de peças. Mesmo com o surgimento de várias centralidades ainda ressentimos a falta de locais adequados.

Jornal de Angola- Qual foi o seu último trabalho como actriz?

Vitória Soares -
Abandonei os palcos cedo, em 1992. Ao longo dos anos foram muitas representações, no teatro, cinema e televisão. Hoje é difícil dizer quando, realmente, deixei de representar. Além de representar também tenho escrito algumas peças então gosto de dizer que ainda não tenho um último trabalho. Apesar disso, hoje a responsabilidade está mais assente na direcção e coordenação dos trabalhos do Oásis.

Jornal de Angola- O que representa o teatro na sua vida?

Vitória Soares -
O teatro representa a liberdade, a vida e a luz, porque nos deixa ver várias facetas da vida humana e quem assiste muitas vezes revê um problema pessoal ou encontra uma solução para estes.

Jornal de Angola- Que conselho deixa aos jovens actores?

Vitória Soares -
É uma profissão muito arriscada, mas não é difícil de fazer. O meu primeiro emprego foi na empresa Sociborda, onde trabalhei até 1979, mas por amar o teatro deixei o emprego e as coisas deram certo até hoje. Não me arrependo do que fiz, por ser algo que gosto. Por isso eles são bem vindos. O teatro precisa de mais apoio.

Jornal de Angola - A presença feminina no palco já é realidade?

Vitória Soares -
Não posso falar por todos, mas no Oásis sim. A descriminação feminina está em todos os sectores da própria sociedade, porque a cantora, ou mesmo a bailarina também sofrem esse estigma.

Jornal de Angola- Como avalia o apoio dado ao teatro?

Vitória Soares -
Este apoio seria mais notável se tivéssemos muitas salas de teatro. Seria uma vantagem porque os frutos seriam benéficos para todos, investidores e direcções dos grupos. Geralmente são os próprios grupos que se sacrificam por algo.

Jornal de Angola - Quais os seus projectos actuais?

Vitória Soares -
No momento pretendo levar o Oásis a bom porto, assim como tenho feito de tudo para um dia ter um museu pessoal, com uma sala de teatro, pelo menos com 200 lugares. É o que mais anseio.

Jornal de Angola- O que representa ter um festival de teatro em seu nome?

Vitória Soares -
Responsabilidade e honra. São as duas únicas palavras que tenho para descrever esse reconhecimento. Quando comecei nunca pensei que acabaria por ser homenageada. É um sinal que demos grande contributo à sociedade.

Jornal de Angola - Que futuro perspectiva para o teatro?

Vitória Soares -
Penso que hoje já se faz teatro de maneira diferente. O futuro é um livro em aberto. Por exemplo, hoje, em alguns países, o teatro e a tecnologia actuam como parceiros na melhoria das performances dos actores. Portanto o conselho é que os actores angolanos procurem actualizar-se e acompanhar o desenvolvimento do mercado nacional e internacional. Os convites para participar em festivais são medidores.

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