Henrique Artes abandona o teatro

Roque Silva |
21 de Abril, 2015

Fotografia: Kindala Manuel

O colectivo Henrique Artes, vencedor do Prémio Nacional de Cultura e Artes 2013, encerra este ano as suas actividades relacionadas com o teatro, afirmou ao Jornal de Angola o director do grupo.

Em causa, disse Flávio Ferrão, estão a falta de apoios constantes que dificultam o funcionamento normal do grupo, com destaque para a realização de espectáculos, e a efectivação de outros projectos ligados à formação em Angola ou com a sua participação em festivais internacionais.
O grupo é o grande ausente, por falta de apoio financeiro, da 1ª edição da Mostra Internacional de Teatro que começou na sexta-feira em Lisboa. Esta é a segunda ausência do Henrique Artes em festivais internacionais por falta de dinheiro, porque antes não representou o país no Festival Internacional de Artes Performativas de Sintra, em 2014, pelo mesmo motivo.
Flávio Ferrão disse que situações do género hipotecam o colectivo e ajudam a perder prestígio junto da organização da amostra, “porque as ausências produzem efeitos negativos para a actividade”.
No caso da Mostra Internacional de Teatro, disse, a organização informou que se responsabilizava pela estadia, alimentação e transporte, devendo a companhia convidada pagar apenas a deslocação. “Éramos aguardados em Lisboa, porque demos garantias da participação em publicidades. Portanto, este é o último ano como grupo de teatro.”
O artista afirmou que os empresários em Angola não estão interessados em apoiar o teatro, o que condiciona o crescimento profissional dos seus actores e do grupo como tal.
“O Henrique Artes é reconhecido em Angola e no estrangeiro e a falta de condições financeiras também tem desestabilizado emocionalmente os integrantes do grupo”, desabafou.
O Henrique Artes, assim como muitos outros grupos, lamentou, não têm um patrocinador oficial, que os ajude a realizar os seus projectos. “Estamos no activo há 15 anos graças à vontade e esforço dos integrantes. A maioria dos grupos tem problemas semelhantes, assim como o da inexistência de uma sede condigna ou um lugar para actuar. O valor gasto, às vezes, na realização de um espectáculo não é compensado”, disse.
O grupo tinha em carteira a estreia de cinco peças de teatro: “Cinderela de Luanda”, de Victor Guerra, “Fogo na família”, inspirado nos contos de Victor Hugo Mendes, “A visita”, de Fragata de Morais, “Depois da tempestade”, de Rossana Piedade, e “Rio Mbridge”, da autoria do grupo, que narra os últimos momentos das heroínas de Angola.

A mostra

A Mostra Internacional de Teatro, dedicada exclusivamente às artes cénicas africanas, dedicou a semana passada a Angola. A actividade termina sábado e tem a participação do grupo Craq Othod e da companhia residente do Centro Cultural Português de Mindelo, ambos de Cabo Verde.
O grupo de teatro Henrique Artes foi fundado a 26 de Outubro de 2000, por estudantes do ensino Pré-universitário.
A peça “Hotel Komarka”, que já foi exibida em mais de dez províncias e na 20ª edição do Festival de Teatro de Mindelo (MINDELACT), em Cabo Verde, é uma das suas principais referências. “Hotel Komarca” é uma peça que retrata a vida de sete presos dentro de uma cela. É um espetáculo cheio de humor e aventura, medos e sonhos, onde cada um relata o crime que o levou a viver naquele novo espaço a que chamam Hotel Komarka. Outro destaque é o espectáculo “A Órfã do Rei”, um monólogo, encenado por Flávio Ferrão, e interpretado por Mel Gâmboa, que foi apresentado no Festival Lusófono de Teresina, no Brasil.
O grupo de teatro conquistou também dois prémios Cidade de Luanda, com as obras “Meu Enigma”, em 2004, e “Côncavo e Convexo”, em 2008, assim como obteve, em 2005, o segundo lugar na categoria de encenação e o de melhor actriz, atribuído a Matilde Kabango, do mesmo prémio.

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