''Laços de Sangue'' foi exibido no teatro Animar’arte do Cazenga

Jomo Fortunato |
6 de Junho, 2016

Fotografia: DR

A peça “Laços de Sangue” do sul africano Athol Fugard, representada pelos actores Merinho Mendes e Raúl do Rosário, dirigida pelo conceituado dramaturgo José Mena Abrantes, foi exibida nos dias 3 e 4 de Junho na Sala de Teatro “Anim’arte” do Cazenga,

 inserida no processo de descentralização e municipalização da programação cultural da III Trienal de Luanda,um projecto da Fundação Sindika Dokolo.O histórico da  peregrinação da peça “Laços de Sangue” conta com exibições no Centro Cultural Brasil-Angola, Palácio de Ferro, Sala de Teatro da Camama, Centro Cultural de Viana-Zango II, Centro Cultural Dr. Agostinho Neto, em Catete, e Teatro Municipal João Caetano, inserida na parceria dos projectos “Encontros com África”, da Câmara Municipal de Niterói, Brasil, e “Ressonância Magnética” da III Trienal de Luanda.
Meirinho Mendes, actor e coordenador do NET, Núcleo Experimental de Teatro,  instituição que resultou da parceria entre o Elinga Teatro, e a Fundação Sindika Dokolo, no âmbito da III Trienal de Luanda, falou da representação da peça no Município do Cazenga: “Os espectáculos no “Anim\'art”, Centro de Animação Artística do Cazenga, surgem no âmbito de uma parceria entre a III Trienal de Luanda e a 11º edição do FESTECA, Festival International de Teatro do Cazenga , como forma de descentralização e dinamização de novos espaços de exibição de teatro da cidade de Luanda. O NET, Núcleo Experimental de Teatro, tem como principal propósito  representar obras de teatro nos seus mais variados géneros, que vão desde o drama, comédia, performance, mimo e outras tipologias, focalizadas, sobretudo, na exploração da dimensão experimental do teatro, incluindo a formação de novos artistas para as mais variadas áreas das artes cénicas em Angola”.

Meirinho

Filho de Luís Mendes e de Filomena Bento, Adérito Bento da Silva Mendes nasceu em Luanda no dia 12 de Maio de 1970. Iniciou a actividade artística em 1989, no Elinga Teatro, e tem desenvolvido trabalhos em cinema, televisão e dança, quer em Portugal, como em Espanha, países onde residiu, estudou e desenvolveu a sua actividade artística.
No domínio da formação, frequentou o Pré-Universitário de Luanda, de 1988 a 1990, na área de Ciências Sociais, e de 2002 a 2005, concluiu o curso de formação de actores da Universidade Autónoma de Madrid.
Meirinho Mendes concluiu ainda como complemento à sua formação os seguintes cursos: Técnica de Representação, Elinga, 1989, Dança Contemporânea Africana, 2006, Formação em Técnicas de Clown, Montagem de coreografias, Contador de Estórias, Representação para a câmara em televisão, e Iniciação ao teatro e cinema.
No domínio do cinema, Meirinho Mendes participou nos filmes “Via de acesso”, de Nathalie Mansoux, em 2008, “Cinerama”, de Inês Oliveira, em 2007, “Na cidade vazia”, de Maria João Ganga, 2004, e “Comboio da Canhoca”, de Orlando Fortunato, igualmente em 2004. Dos seus vários projectos em televisão, destacamos a série humorística “Makamba Hotel”, uma co-produção entre a Valentim de Carvalho, e a TV Zimbo, e projectos no domínio da dança.
Meirinho Mendes tem desenvolvido desde 2005, com o actor Raúl do Rosário, um trabalho contínuo com o Núcleo de Teatro da Fundação Sindika Dokolo, do qual é coordenador, com Direcção Artística do encenador Rogério de Carvalho, e Direcção Geral de José Mena Abrantes, no âmbito da III Trienal de Luanda. Destacamos os trabalhos realizados em Teatro, Cinema, Televisão e Dança, entre Angola, Portugal e Espanha, países onde residiu, estudou e desenvolveu a sua actividade artística. Em 2008 assumiu a direcção artística dos programas produzidos pelos Estúdios Valentim de Carvalho para a TV Zimbo.

Raúl

Filho de Maria Luísa Ferreira Resende e de Carlos Emanuel de Barros Rosário, Raúl Jorge Resende de Barros Rosário, Raúl do Rosario, nasceu em Benguela no dia 22 de Agosto de 1973.  Depois de ter frequentado dois  anos do curso de electricidade, no ex-Instituto Médio Karl Marx, Makarenko, alistou-se no exército , logo após o juramento de bandeira. Foi membro do ex-Centro Hípico de Luanda , tendo viajado por várias províncias de Angola. 
Raúl do Rosário fez artesanato  em Benguela, comércio na Huíla, foi desenhador gráfico, motorista de ambulância na ONG  Médicos Sem Fronteiras, e operador de máquinas pesadas na extinta UNAVEM, Angola, até descobrir a vocação para o teatro.
 No domínio da representação fez a sua estreia com a peça “Equus”do inglês Peter Shaffer, com direcção de Maria João Ganga , Luanda, em 1991, tendo depois protagonizado mais de trinta peças com destaque  para “Suicidota”, com texto e direcção de José Mena Abrantes, Agosto de 1991, “Sequeira Luís Lopes ou o mulato dos prodígios”, texto e direcção de José Mena Abrantes, Luanda, Setembro de 1993, “Quem me dera ser onda”de Manuel Rui Monteiro, encenada por Cândido Ferreira, Portugal, numa co-produção com Caxindre-Cena Lusófona-Elinga Teatro, participou na V Estação da Cena Lusófona, São Tomé e Príncipe, Agosto de 2002, e “Yerma” de Garcia Lorca, sob Direcção de José Mena Abrantes , em Dezembro de 2003.
No domínio do cinema destacamos “O herói” de Zezé Gamboa, Angola, 2002, filme premiado no Sundance Festival, “Na cidade vazia”, de Maria João Ganga, 2003, Prémio Nacional de Cultura e Artes, “Posto avançado do progresso” de Hugo Viera Lopes, Portugal, filmado no Soyo, Angola, em 2015, “Dias Santana”, um filme de acção de Maradona Dias dos Santos, e Chris Rouland, numa co-produção angolana e sul-africana, em 2015, “Cartas da Guerra” do realizador Ivo Ferreira, Portugal, baseado no romance de Lobo Antunes, filmado no Menongue-Angola, em 2015.

Estreia

A peça ‘Laços de Sangue’, de Athol Fugard, teve estreia mundial em 1961, dirigida por Barney Simon, tendo no elenco o negro Zakes Mokae, e um branco, o próprio Fugard. Dois anos depois, Fugard criou o “Serpent Players” com amadores de um bairro negro de Port Elisabeth, com o qual apresentou obras de Maquiavel, Buchner, Brecht e Sófocles.
Apenas para o público local, uma vez que o grupo estava proibido de representar para brancos, os poucos que apareciam eram amigos de Fugard. A situação piorou em 1965, quando o governo racista proibiu formalmente os elencos mistos e alargou a segregação racial ao público do teatro. A alternativa passou a ser entre cumprir essa lei ou não fazer nada. Fugard optou por respeitar a proibição e por apresentar as suas peças para públicos segregados. O importante para ele era que as duas comunidades as vissem.

Sinopse

A peça “Laços de Sangue”, “Blood knot”, na sua versão inglesa é baseada num  texto  de 1961, e, em Luanda, teve a sua estreia nos dias  11 e 12 de Fevereiro de 2016, no Centro Cultural Brasil-Angola. A narração baseia-se num conflito entre dois irmãos, Morris e Zacarias, filhos da mesma mãe e pais diferentes, que, por circunstâncias naturais, um nasceu negro e outro mestiço. Esta diferença determinou percursos e oportunidades desiguais nas suas vidas, que o escritor  Athol Fugard explorou dramaturgicamente. A peça foi escrita no contexto sócio-político sul-africano do apartheid, contudo aborda um tema transversal a todas as épocas e sociedades. Na triangulação atlântica Angola, Brasil e Portugal, onde os discursos luso-tropicalistas e os mitos da democracia racial remetem a questão racial para uma aparente invisibilidade, é urgente reflectir e debater frontalmente o tema do racismo que perdura nas nossas sociedades actuais.
A peça tem no seu elenco os actores Raúl do Rosário e Meirinho Mendes e foi adaptada e dirigida pelo director do Elinga, José Mena Abrantes, encenada por Rogério de Carvalho, com desenho de luzes de Jorge Ribeiro, sonoplastia de Sebastião Delgado e guarda-roupa de Alex Kangala.

Autor

Nascido em Middellburg, uma pequena aldeia na região semi-desértica de Karroo, Athol Fugard cresceu e estudou em Port Elisabeth, um porto industrial no Oceano Índico, que possui uma população mista de negros, brancos, indianos, chineses e mestiços de vários cruzamentos, circunstância da qual, como ele admite, nunca se conseguiu dissociar e que conformou o seu carácter e as suas posições políticas. Autor de mais de trinta peças de teatro e de vários romances e filmes, Athol Fugard recebeu muitos prémios e títulos honoríficos internacionais e também a “Ordem de Ikhamanga” em Prata, do governo sul-africano pós-apartheid, “pela sua excelente contribuição e realizações em teatro”. Muitas das suas obras foram adaptadas para o cinema, uma das quais o seu romance “Totsi”, dirigida por Gavin Hood, que ganhou, em 2006, o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro.

Centro

O Centro de Animação Artística do Cazenga, criado em 1998, é um espaço de intervenção cultural do município, com cerca de dois milhões de habitantes, que congrega jovens artistas e criadores nos diferentes domínios da arte. O espaço acolhe o FESTECA, Festival Internacional de Teatro do Cazenga, organizado pela Associação Globo Dikulu- Acção para o Desenvolvimento Juvenil.
Actualmente, o Centro conta com um auditório com capacidade para 300 pessoas, espaços de trabalho para oficinas de artes plásticas, dança e literatura, cozinha, biblioteca em reformulação, incluindo um refeitório. No domínio da literatura, a associação tem editado os “Cadernos Tentativa”, publicação que promove a produção poética de novos poetas. Segundo o  responsável da associação, Orlando Domingos, o Centro tem sido apoiado pelos Ministérios da Cultura e Juventude e Desportos.

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