Cultura

Peça “Laços de Sangue” no Festival de Cabo Verde

Jomo Fortunato |

Com uma longa e consistente experiência no domínio da representação cénica, o Núcleo Experimental de Teatro, criado pelo artista plástico  Fernando Alvim, do qual pertencem os consagrados actores angolanos, é uma parceria entre o Núcleo de Teatro da Fundação Sindika Dokolo e o Elinga Teatro de José Mena Abrantes, grupo fundado no dia 21 de Maio de 1988.

Núcleo Experimental de Teatro apresenta no Mindelact “Laços de Sangue”, uma peça que aborda o racismo, com Raúl do Rosário e Meirinho Mendes
Fotografia: Maradona dos Santos

O Mindelact, Festival Internacional de Teatro do Mindelo, que este ano acontece sob o signo “Arte, alma e afecto”, tem conquistado um enorme prestígio internacional, dentro e fora do continente africano, a contar pelo número de candidaturas que tem recebido, mais de duas centenas de propostas ao longo das suas várias edições, cuja selecção está definida no regulamento do festival, do qual respigamos os mais importantes critérios, qualidade artística, componente original e criativa, e o respeito pelo princípio da diversificação.
Ainda segundo o regulamento, a organização tem em conta a capacidade mobilizadora de recursos dos grupos no seus países de origem e quanto menor for o número de integrantes, maiores são as probabilidades de selecção. A organização não aconselha o uso de cenários complicados, pesados ou de tamanho considerável, facto que pode determinar a exclusão, por motivos logísticos. O programa inclui ainda acções de formação para agentes teatrais cabo-verdianos e dos países convidados, nas mais diversas áreas artísticas ligadas ao teatro. Segundo informação disponível,  o Mindelact “é o principal evento teatral de Cabo Verde, e, actualmente, o mais importante acontecimento teatral de toda a África Lusófona, sendo considerado, hoje,  o mais importante evento teatral da África Ocidental. Nas suas vinte e duas edições anteriores, aconteceu sempre em Setembro, na cidade do Mindelo, mas este ano, e pela primeira vez, decorrerá no início de Novembro, por questões logísticas. O Mindelact, além da vertente de espectáculos, promove o intercâmbio entre todos os participantes, concertos de música, exposições de design e artes plásticas, e, nos últimos anos, tem organizado um “Festival off” alternativo e uma programação específica dirigida às crianças, denominada “Teatrolândia” em que o Brasil, na presente edição, vai apresentar a peça “A gaiola” e “Mil histórias para contar”, Cabo Verde, “Tapete voador”, Portugal, “Contos, cantos e outros tantos”, Alemanha, “Uma viagem ao redor do mundo” e   São Tomé e Príncipe vai dirigir às crianças a peça “Contos da avó e avô”.
O Mindelact teve a sua primeira edição em 1995, só com a participação de grupos de São Vicente e Santo Antão. Houve uma evolução em 1996, com uma abrangência nacional, tendo-se internacionalizado em 1997 e hoje está confirmado como sendo o mais importante certame teatral do arquipélago.
O Festival terá cerca de uma centena de artistas de mais de trinta companhias de teatro de  Angola, Argentina, Brasil,Cabo Verde, Espanha, Inglaterra, Japão, Moçambique, Portugal, República Checa, Senegal, Alemanha e  São Tomé e Príncipe,que generosamente oferecem a Cabo Verde uma amostra do que de melhor se faz no domínio das artes cénicas, um pouco por todo o mundo. A organização considera que os artistas são o coração que faz este evento viver e pulsar, avidamente. De destacar que cerca de dois terços da programação agora anunciada é totalmente gratuita e vai no sentido de levar o teatro a todos os cantos da ilha de São Vicente.

Renascimento
A vigésima terceira edição do Mindelact, segundo podemos ler no prospecto informativo, “procura renascer, tal como Fénix, das cinzas do desânimo. É uma edição onde muita coisa mudou, a começar pela sua calendarização, já que é pela primeira vez que acontece em Novembro. A organização sustenta a sua filosofia de actuação em três pilares básicos, o artístico, investindo num programa de extraordinária qualidade e diversidade, no emocional, procurando devolver o evento à cidade, diversificando ao máximo os parâmetros de actuação e no afectivo, renovando uma equipa com novas energias, novas ideias, sem nunca esquecer tudo de bom que foi feito nas vinte e duas edições anteriores.   O maior evento de artes cénicas da África Ocidental, que aqui se apresenta, procura trazer até ao público aquela que será, provavelmente, a sua melhor programação de sempre”.
Sinopse
“Laços de Sangue”, “Bloodknot”, na sua versão inglesa, é baseada num  texto  de 1961, e, em Luanda, teve a sua estreia nos dias  11 e 12 de Fevereiro de 2016, no Centro Cultural Brasil-Angola. A narração baseia-se num conflito entre dois irmãos, Morris e Zacarias, filhos da mesma mãe e pais diferentes, que, por circunstâncias naturais, um nasceu negro e outro mestiço. Esta diferença determinou percursos e oportunidades desiguais nas suas vidas, que o escritor Athol Fugard explorou dramaturgicamente. A peça foi escrita no contexto sócio-político sul-africano do apartheid, contudo aborda um tema transversal a todas as épocas e sociedades. Na triangulação atlântica Angola, Brasil e Portugal, onde os discursos luso-tropicalistas e os mitos da democracia racial remetem a questão racial para uma aparente invisibilidade, é urgente reflectir e debater frontalmente o tema do racismo que perdura nas nossas sociedades actuais. Na sua primeira representação a peça foi adaptada e dirigida pelo director do Elinga, José Mena Abrantes, encenada por Rogério de Carvalho, com desenho de luzes de Jorge Ribeiro, sonoplastia de Sebastião Delgado e guarda-roupa de Alex Kangala.

  Breve perfil artístico de Meirinho Mendes e Raúl do Rosário

Embora tenham uma biografia artística vasta, seleccionamos os aspectos mais importantes do perfil de Meirinho Mendes e Raúl do Rosário, dois actores de prestígio artístico que vão representar Angola no Mindelact. Filho de Luís Mendes e de Filomena Bento, Adérito Bento da Silva Mendes nasceu em Luanda no dia 12 de Maio de 1970. Iniciou a sua actividade artística em 1989, no Elinga Teatro, e tem desenvolvido trabalhos em cinema, televisão e dança, quer em Portugal, como em Espanha, países onde residiu, estudou e desenvolveu a sua actividade artística. No domínio da formação frequentou o Pré-Universitário de Luanda, de 1988 a 1990, na área de Ciências Sociais, e de 2002 a 2005, concluiu o curso de formação de actores da Universidade Autónoma de Madrid.
Filho de Maria Luísa Ferreira Resende e de Carlos Emanuel de Barros Rosário, Raúl Jorge Resende de Barros Rosário, Raúl do Rosário, nasceu em Benguela no dia 22 de Agosto de 1973.  Depois de ter frequentado dois  anos do curso de electricidade, no ex-Instituto Médio Karl Marx, Makarenko, alistou-se no exército, logo após o juramento de bandeira. Foi membro do ex-Centro Hípico de Luanda, tendo viajado por várias províncias de Angola.  Raúl do Rosário fez artesanato  em Benguela, comércio na Huíla, foi desenhador gráfico, motorista de ambulância na ONG  Médicos sem Fronteiras, e operador de máquinas pesadas na extinta UNAVEM, Angola, até descobrir a vocação para o teatro.

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