Quotidiano e conduta social são os destaques

Flávia Massua| Saurimo
27 de Março, 2015

Fotografia: Semba Comunicação

O quotidiano e a actual conduta social das pessoas, particularmente dos jovens, devido ao crescente aumento da globalização, são os alvos temáticos da maioria dos grupos de teatro da Lunda Sul, disse o director artístico do colectivo AMA.

Octávio Alberto, que faz teatro há mais de 15 anos, disse ao Jornal de Angola que as artes cénicas são um excelente meio de fazer críticas sociais e chamar a atenção das pessoas para algumas práticas erradas.
“O teatro é uma sala de aula onde todos podem aprender mais sobre a vida, assim como também é visto como uma ferramenta essencial para expressar sentimentos e emoções, através do quotidiano da sociedade”, disse.
Na Lunda Sul, referiu, a desmotivação em fazer teatro parte da escassez de espaços apropriados para a prática, associada à falta de patrocínios e fraca participação pública, muitas vezes motivadas pelo tabu gerado devido à abordagem de determinados assuntos e pela falta de hábito de ver teatro.
“Hoje, por ser o Dia Internacional do Teatro, a maioria dos encenadores e actores devem reflectir sobre o actual estado da arte, não só a nível da província, mas também do país, e perspectivar novas metas e objectivos para seu maior desenvolvimento”, defendeu.
Octávio Alberto lamentou ainda que apesar da vasta experiência, das várias acções de formações locais e em Luanda, continua a ser difícil retirar o teatro da estagnação na Lunda Sul.
O teatro é uma profissão que precisa de ser mais valorizada, de forma a poder explorar todo o seu potencial. “A nível local alguns grupos continuam a pensar que fazer palhaçada ou brincadeiras para divertir as pessoas é teatro. Este é um quadro que alguns encenadores querem mudar o mais rápido possível”, contou. Uma das apostas sérias do AMA, adiantou, é a formação de novos talentos, acção que tem sido feita com o apoio da Sociedade Mineira de Catoca. “Temos de estar mais próximos de outros colectivos de teatro, em especial os de renome, como o Elinga, o Julu, Horizonte Njinga Mbande, ou o Henrique Artes, para obter mais conhecimentos.”
O gestor do Cine Chicapa, um dos poucos espaços usados para a apresentação de peças de teatro em Saurimo, lamentou o facto de existirem poucas salas em condições. Renato Marques, afecto ao colectivo Sete Cunhas, informou que disponibilizou a sala aos grupos interessados para realizarem ensaios gratuitos todos os dias e apresentarem peças uma vez por mês. “Na província existe um considerável número de jovens com talento, mas a falta de formação técnica leva-os a perderem-se.”
O integrante da banda musical Moyowenos, Dominos Mutambi, disse que a nível local o teatro está a morrer aos poucos, com os actores mal formados, público sem interesse e poucas salas de exibição. “É hora de procurarmos ressuscitar esta arte”, disse.
A estudante Maria Filomena João, de 17 anos, disse que desconhece a data e viu uma peça de teatro uma única vez, mas no programa “Tchilar”, da TPA.
O sector da Cultura tem registados sete grupos: Txisseque Txambunga, AMA, Pequenos Missionários, Os colectivos da Lunda, Kima Kieto, União dos Demais e a Associação do Teatro. A instituição apoia os grupos mediante contratação, mas o Governo Provincial informou que prevê, dentro de meses, construir uma Casa de Cultura em Saurimo, para permitir a realização de mais espectáculos.

Transformação

A presidente da Associação Internacional de Teatro para a Infância e Juventude, Yvette Hardie, reconheceu, num comunicado de imprensa, o papel importante do teatro como actividade artística profundamente “transformadora” e “envolvente”, que permite aproximar as pessoas.
Na sua mensagem por ocasião do Dia Mundial do Teatro para a Infância e a Juventude, disse que esta arte cria experiências “inesquecíveis”, pela profundidade dos seus espectáculos. “O teatro tem a capacidade de transmitir aos espectadores as emoções que compartilhamos diariamente”, disse  o responsável.
A associação, lembrou, celebrou 50 anos. “Muitas coisas melhoraram, mas ainda existem muitos desafios a serem realizados”, disse. A responsável apelou também para uma maior união entre os criadores de teatro a nível mundial.
Para a responsável, o espectáculo de teatro é uma experiência interactiva única, que junta actores e público numa viagem figurativa sobre a sociedade e alguns factos relevantes. “Quando as cortinas abrem e os actores começam a representar os seus papéis o público descobre o que significa estar juntos, através de uma química especial, onde a plateia se abre à experiência e se sente capacitada para fazer o que está a ver”, justificou Yvette Hardie.

Nobel da Paz


Malala Yousafzai, Prémio Nobel da Paz de 2014, e Guila Clara Kessous, a Artista UNESCO para a Paz, consideram o teatro de vital importância para o crescimento das crianças.
“É uma forma de arte que permite ter uma ideia sobre a comunidade, dentro de uma linguagem secreta, mais assente no nós”, explicaram.
O Dia Mundial do Teatro foi instituído pela UNESCO, em 1961. No país, a Associação Angolana de Teatro (AAT) celebra a data, com uma série de actividades, de carácter pedagógico e de reflexão, ligadas às artes cénicas, de forma a discutir e proporcionar a troca de experiências entre os profissionais da arte, em parceria com o Ministério da Cultura.

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