Realidade sociocultural angolana em palco

Manuel Albano |
1 de Setembro, 2016

Fotografia: Santos Pedro

A personalidade dos angolanos que conseguiram manter viva a chama da identidade cultural mesmo durante o confronto com a inquisição e o poder colonial é apresentada sábado, às 20h00, no Instituto Superior de Artes (Isartes), na Centralidade do Kilamba, em Luanda, na peça “A filha do bruxo” do colectivo de artes Julu.

A peça, que deu ao colectivo o Prémio Nacional de Cultura e Artes, edição 2015, na disciplina de Teatro, é apresentada no âmbito do Circuito Internacional de Teatro (CIT), que reserva uma apresentação de espectáculos todos os fins-de-semana até 17 de Setembro, Dia do Herói Nacional.
A peça é uma pequena homenagem a alguns angolanos que, pela fé demonstrada ao longo dos anos e apesar de fragilizados pelos conflitos entre si, mantiveram vivos os usos, os costumes e as tradições dos ancestrais.
“A filha do bruxo” leva o público para uma viagem pela tradição angolana, num percurso iniciado no século XIX e que continua até hoje, onde a prática do feitiço é vista como um ritual capaz de gerar intrigas entre os nativos de uma aldeia no Cuanza Sul e o colono.
A peça, escrito por Armando Rosa e encenado por Lourenço Mateus, é o resultado de um trabalho de pesquisa sobre a importância da defesa da identidade nacional numa época em que os nacionais viviam dificuldades devido às tradições.
O actor Manuel Teixeira disse, ontem, ao Jornal de Angola, que a peça pretende criar uma maior reflexão sobre os aspectos do dia-a-dia de algumas aldeias do interior do país, muitas vezes ignorados pela sociedade, e onde a feitiçaria é parte da herança cultural de várias populações.  Apesar dos avanços da tecnologia, argumenta, ainda somos um povo muito enraizado em vários princípios, que, mesmo não sendo tão visíveis na capital do país, são referência noutras regiões, sustentou.
Para o actor, o espectáculo também é um contributo para este tipo de conhecimento, aos poucos esquecido pela nova geração, mas que é uma parte essencial do folclore. “É preciso ensinar mais os jovens sobre a importância da defesa e valorização da cultura e das tradições nacionais.”

Intervenção social

“Meninos de rua” é o título da peça a ser exibida no domingo, às 20h00, no Instituto Superior de Artes (Isartes), na Centralidade do Kilamba,  pelo grupo Njila, no âmbito do âmbito do Circuito Internacional de Teatro. O encenador do grupo Valdemar Francisco “Vlad” disse que a peça “Meninos de rua” narra a vivência de seis meninos que vivem ao relento nas avenidas de Luanda, por vários motivos.
Motivos esses, explica, relacionados com a fuga à paternidade, questões culturais como acusação de feitiçaria, maltrato, incesto e exploração de menores. “A vontade de fazer diferente é o que nos motivou a escrever a peça.”
A vontade de falar de um problema social pouco discutido por outros grupos é, segundo o responsável, a principal razão que os motivou a escrever a obra. “Saímos à rua, jogámos futebol, comemos e dormimos com alguns meninos de rua durante dois dias, por forma a poder compreender melhor as suas motivações e a realidade na rua”, argumenta o também actor.
O Njila Teatro é um grupo que foi fundado em 2009, por Valdemar Francisco “Vlad” e o colega Paulo do Rosário. Derivou de uma formação ministrada por professores angolanos, brasileiros e cubanos sob a tutela da companhia de Arte Horizonte Njinga Mbande.
Depois dessa formação em teatro, cinema e televisão que durou oito meses, os actores sentiram necessidade de formar um grupo de teatro, com a intenção de dar continuidade à formação recebida e, desta forma, não perder a prática.
A primeira edição do Circuito Internacional de Teatro arrancou no passado dia 1, no Isartes, na Centralidade do Kilamba, em Luanda.

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