Cultura

Veteranos de guerra no teatro

A peça “Campo minado”, da encenadora argentina Lola Arias, junta em palco veteranos das duas frentes da Guerra das Malvinas, 35 anos depois do conflito, em cartaz ontem e hoje em Lisboa.

Ingleses e argentinos representam episódios que viveram em situação de conflito armado
Fotografia: DR

Nos dias 8 e 9, a peça vai ser apresentada no Porto, no âmbito da programação do Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica (FITEI). “Campo Minado”, de acordo com a imprensa lusa transforma-se num “plateau” de cinema que, por sua vez, se converte em máquina do tempo e acolhe os ex-combatentes, numa viagem para o passado, permitindo-lhes a reconstrução das suas memórias de guerra e da vida, após o conflito.
Lou Armour, um fuzileiro britânico foi capa de vários jornais, quando os argentinos o fizeram prisioneiro, a 2 de Abril de 1982, é agora professor de crianças com dificuldades de aprendizagem.
O argentino Rubén Otero, que sobreviveu ao afundamento do navio General Belgrano, tem agora uma banda de “covers” dos Beatles. Estes são dois dos seis veteranos que se cruzam em palco e que vão reflectir sobre as suas histórias, a “herança” do passado, o seu impacto e as suas experiências, no âmbito do projecto de teatro documental da escritora, actriz, “performer”  e encenadora argentina Lola Árias.
A eles juntam-se David Jackson e Gabriel Sagastume, Sukrim Rai e Marcelo Vallejo. Estiveram todos na guerra das Malvinas, são veteranos e sobreviventes do conflito.
Jackson passou a guerra a ouvir e transcrever códigos de rádio, e agora escuta outros veteranos no seu consultório de psicologia. Sagastume, um soldado que nunca quis disparar qualquer arma, é advogado de direito penal. Sukrim Rai foi um “ghurka” que soube usar a faca e que trabalha como segurança, actualmente. Marcelo Vallejo, por seu lado, foi apontador de morteiro e é agora campeão de triatlo.
No decorrer dos actos, os actores apresentam várias questões, tais como: “o que é um veterano? um sobrevivente? um herói? um louco?”, perguntas que a encenadora argentina Lola Arias coloca em cena, num espectáculo que confronta visões distintas da guerra e que reúne velhos inimigos para contarem a mesma história.
O dramaturgo argentino Rafael Spregelburd considerou “Campo Minado” uma cura, “uma letal quimioterapia”. “Se somos testemunhas do fulgor destes seis homens quebrados é possível que também nas nossas almas ocorra uma modificação”, escreveu Rafael Spregelburd sobre a peça de Lola Árias.
“Claro que Lola Árias não procura fazer terapia, nem saberia como. Refina, no entanto, a sua técnica e o seu estilo: a deslocação do melodrama para puro som, as frases curtas e cortantes, como títulos de capítulos que só se montam na cabeça do espectador. Mas a peça é curativa. Uma letal quimioterapia”, lê-se na apresentação da obra, na página da Culturgest, na Internet.
“Campo minado” é o regresso do teatro documental de Lola Arias à Culturgest, depois da autobiografia de “Melancolía y Manifestaciones”, em 2012, em que cruza a sua história, a da sua família, com a imposição da ditadura militar na Argentina, em 1976, e do texto que levou ao festival Panos, no ano seguinte, “Os Suicidas”, a partir de um caso real, que envolveu adolescentes, no norte da Argentina.
As interpretações de “Campo minado” são de Lou Armour, David Jackson, Gabriel Sagastume, Rubén Otero, Sukrim Rai e Marcelo Vallejo, com figurnos de Andrea Piffer, sobre texto e encenação de Lola Arias.
O trabalho de pesquisa e produção foi de Sofia Medici e Luz Algranti, a cenografia, de Mariana Tirantte, a música de Ulises Conti, a luz e direcção técnica de David Seldes e o vídeo de Martin Borini.
A peça é representada em inglês e espanhol, com legendas em ambas as línguas, e em português.

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