Cultura

Teatro angolano na Argentina

Roque Silva |

O colectivo de teatro Olonguisse, da província do Cunene, foi seleccionado para participar no Circuito Internacional de Teatro deste ano, que decorre desde o passado dia 12 até 26 de Novembro, em Buenos Aires, capital da República da Argentina.

Artes dramáticas nacionais vão estar presentes pela primeira vez em palcos de Buenos Aires pelo colectivo de teatro Olonguisse do Cunene
Fotografia: DR

A estreia do grupo do Cunene num festival internacional surge na sequência de um convite do Instituto Nacional de Teatro da Argentina, remetido pela Secção Cultural da Embaixada Argentina à Direcção Nacional de Acção Cultural em Luanda, que por sua vez dirigiu a todos as direcções provinciais da Cultura.
No documento a que o Jornal de Angola teve acesso, o Instituto Nacional de Teatro da Argentino convida os grupos interessados a candidatarem-se para a selecção internacional de espectáculos do projecto.
As despesas correntes da viagem, como alojamento, alimentação dos grupos seleccionados e transporte interno na Argentina são pagas pela organização, segundo o documento.
O responsável do grupo, Jeremias Cangombe, disse ao Jornal de Angola que o Olonguisse aguarda pela resposta de uma instituição financeira para a disponibilidade de divisas por forma a suportar algumas despesas do elenco.

Iniciação feminina

“Efundula”, iniciação feminina realizada na província do Cunene e em algumas regiões do país, é o título da peça de teatro que o grupo prevê apresentar naquele país da América do Sul.
O espectáculo, um drama criado com base em factos reais do sul de Angola, desenrola-se no interior de uma aldeia, em que é descoberto que uma jovem grávida está prestes a ser iniciada. A jovem está grávida do tio, irmão da mãe, que também é o soba da comunidade. A autoridade tradicional tenta convencer o namorado da sobrinha a assumir a gravidez devido os contornos que o facto pode trazer na aldeia.
O autor disse que o espectáculo, encenada por Félix Mor e dirigida por António Zamunda, vai ser levada à Argentina com uma parte do aparato tradicional, desde a representação do soba, os familiares da jovem visada e os utensílios usados na realização do ritual. As cabeças de gado são os únicos utensílios ausentes no espectáculo, disse Jeremias Cangombe que defendeu a necessidade de promover-se e divulgar as tradições de Angola no exterior por via de representações de teatro.
“As tradições das várias regiões do país e da sobretudo africana estão cada vez distantes das grandes cidades e são muito apreciadas pelos estrangeiros. Por isso, os grupos de teatro devem aproveitar as suas digressões para dar a conhecer um pouco mais sobre a sua cultura.”
O ritual, que é conhecido por efico, no Namibe e na Huíla, é feito nas mulheres na etapa de transição (da adolescência à fase adulta) e deve anteceder um possível relacionamento amoroso.
Apesar do nível académico ou classe, toda a mulher oriunda e residente deve passar pela iniciação antes de perder a virgindade e gerar filhos, sob pena de ser desprezada pela comunidade e pela família.
O colectivo de teatro Olonguisse está inscrito na Associação Mundial de Teatro, da qual faz parte desde 2013. Fundado há 12 anos, o grupo participa regularmente em festivais nacionais, sobretudo em Luanda, Namibe, Huambo, Benguela e Uíge. “Minha filha, minha namorada” é outra peça de referência do conjunto, distinguido com Prémio Revelação no Festival Nacional de Cultura (Fenacult).

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