Tendências de renovação estética da poesia

Jomo Fortunato |
28 de Setembro, 2015

Fotografia: Eduardo Pedro

Poeta e contista, João Tala mudou o panorama literário angolano com a publicação de “A forma dos desejos”, livro que inaugurou uma forma inusitada de construção poética, em que a memória da palavra, mesmo fora do verso, potencia  múltiplos universos de significação, estimulando infinitamente o imaginário, e as experiências íntimas do leitor.

As palavras do poeta sobre o “leitmotiv”, ou seja, o fio condutor da sua escrita, dão pistas importantes para a compreensão do seu processo criativo: “Reflicto a emanação de processos que dotam a palavra de uma existência própria, através de vias abertas, a partir de pulsões do inconsciente. Tais pulsões resultam de várias vivências humanas, com valor na história e nas emoções, no amor e ódio”.
“No domínio dos sentidos vão conformar a própria subjectividade, dotando a palavra de uma carga simbólica, estressante mesmo, por causa das exposições sócio-profissionais em actividades que dão motivação existencialista: fui soldado enfermeiro, tendo servido nos espaços e cenários de guerra, formei-me em medicina, percorri com alguma profundidade o interior da Lunda-Norte como médico militar, levando assistência e meios médicos não só às tropas, mas, igualmente, às populações afectadas, factos que me foram marcantes, e se destacam ainda em muitos dos meus conteúdos”.
“São estes os meus antecedentes, sobre os quais acrescento as minhas leituras e o exercício permanente no sistema de criação e realização estética. Estes são, contudo,  alguns pormenores de entre vários momentos de referência no processo da minha forja literária”.
Embora a imanência e a estética do texto resguardem, pela força ficcional da metáfora, a problematização das conflitualidades sociais e políticas, a poesia de João Tala não deixa de destapar o véu das suas características interventivas: ainda apagam pálpebras de volta à tontura/ainda o sentimento da nossa longa história/a ruína vai da notícia à revolução/palavras mortas nunca mais preenchidas/ os rios demorados no sintoma dos países/ e tudo passa e o poema indaga/o dia que acontece como uma ruína. Lemos em “Tontura”, poema do livro “Rua da insónia, um manifesto de inquietações”.
Filho de Tala Sebastião Joaquim e de Bernarda Simão António, João Tala Sebastião Joaquim nasceu em Malanje no dia 19 de Dezembro de 1959. Médico de profissão, na especialidade de medicina interna, e membro da União dos Escritores Angolanos, João Tala iniciou a actividade literária no Huambo, onde cumpria o serviço militar, tendo sido, ainda na mesma cidade, co-fundador da Brigada Jovem de Literatura, Alda Lara, em 1980.

Versificação

No poema “Colheitas uterinas” do livro “A forma dos desejos”, João Tala anunciava a sua estratégia de versificação, distanciando-se da significação directa, aproximando-se mais da sugestação cinematográfica de imagens: Da paisagem testemunhei a prova de fogo/o silêncio material e a riqueza metafísica/na tua lavra, irmã, há colheitas uterinas:/uma nova viagem para que nos regressemos nós mesmo na indiferença./Liberdade sem medo, conta os dedos da/ tua mão procriada, conta P’ra nação/nosso machado secreto canta pela raíz./ - tens essa noção de fogo em tua tabuada.

Medicina

O exercício da medicina, vem influenciando momentos importantes da criação poética de João Tala,  visíveis em determinados títulos dos seus poemas. Seleccionamos, de forma arbitrária, uma sequência de títulos, com os quais podemos inferir diferentes fases da existência humana: “Colheitas uterinas”, pode simbolizar o nascimento, “Tontura”, existência atribulada,  “Psiquiatria I e II”, a possível ou impossível terapia da loucura, “Obituário”, a morte definitiva, e “Me reconstruindo”, a liberdade, reconstrução ou a ideia cristã de ressurreição celestial.

Temas


Influenciado pelas vivências em cenários de guerra, os percalços da existência humana no tempo, constituem temas  recorrentes na  poesia de João Tala. Vejamos o poema “Psiquiatria II”, do livro “Rua da Insónia, um manifesto de inquietações”: Todos me acham que sofro de miséria/  faço de cada história um reboliço./ Mas devagar essa cicatriz banal eu escrevo;/ esse ardil de loucos é um poemário;/ um documento daquelas minhas dores./  Tudo vai mal, dizem. Tudo vai ! /Vai a raiva tão simples como fazer perguntas;/ vai de passada qualquer maluco palpitando/  [muita gente/ e vão outros palpitando os relógios/ [automáticos:/...tic-tac tic-tac tic-tac.../ Os tique-taques nascem das nossas bocas/ Bocas dissolvidas. Noites volémicas./  Os sentidos moídos na rua dos atritos.
A morte por miséria, e questões muitos actuais como a “coisificação” da vida humana, são temas lavrados no poema, “Obituário”, do mesmo livro: “Onde ouvidos repetem pequenas ruínas/ sobra o revólver sobre dias túmidos/ para decretar morte é como ninguém/ para aumentar áfricas laboratoriais e/ o latifúndio//depois dá um tiro na cabeça da história/ tal como tropeça no meu palavrão/ sem nada para acrescentar à morte/ sem nada para contar à vida/ sem ser nunca o nome da multidão.

Livros


Indiciando uma clara consistência produtiva, sobretudo ao nível da criação poética, João Tala publicou:  “A forma dos desejos” (poesia, 1997, UEA), “Gasto da semente” (poesia, 2000, INALD), “A forma dos desejos II” (poesia, 2003, UEA), “Lugar assim” (poesia, 2004, UEA), “Os dias e os tumultos”(2004, contos, UEA), “A vitória é uma ilusão de filósofos e de loucos” (poesia,2005, UEA), “Surreambulando” (contos, 2007, UEA), “Forno feminino”, (poesia, 2010, Kilombelombe), “Rosas & munhungo”(contos, 2009, UEA), “Rua da insónia, um manifesto de inquietações” (poesia, 2013, UEA).

Distinções

Um dos poetas mais importantes  da poesia contemporânea, João Tala foi distinguido com o prémio Primeiro Livro pela União dos Escritores Angolanos, e primeiro lugar dos Jogos Florais do Caxinde, em 1999, com a obra poética “A forma dos desejos”, Menção Honrosa do Prémio Literário Sagrada Esperança, edição 2000, com o livro “O gasto da semente”, Grande Prémio de Ficção, edição 2004, pela União dos Escritores Angolanos, com o livro de contos, “Os dias e os tumultos”, e Grande Prémio de Poesia, em 2005, com o livro,  “A vitória é uma ilusão de filósofos e de loucos”, pela União dos Escritores Angolanos.

Depoimento

No prefácio do livro “A forma dos desejos”, texto datado de 23 de Março de 1997, o egrégio poeta João Maimona escreveu o seguinte: “João Tala faz parte da comunidade de jovens autores que,  no limiar da década de 80, procuravam, com rigor, pesquisa e talento, seleccionar, agrupar e combinar palavras que pudessem servir a arte através da literatura. A partir do interior de uma Angola em tempo de instabilidade e deficiência de paz social”.
“Estávamos no Huambo: eu, João Tala, Conceição Luís Cristóvão, Bela Graça, Domingos Florentino, Morais Cordeiro, Joaquim Mande, José Amaro Tati e outros. Uma multiplicidade de vozes. Afinando momemtos de alegria. Oferecendo impressões de prazer como este belíssimo título que apresenta os primeiros textos de João Tala. Uma das mais importantes revelações da década de 90. Uma voz que nos deixa, um aviso de que a poesia angolana é uma paisagem com diversidade e infinidade de caminho”.

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