Cultura

Tendências e propostas de crescimento do jazz angolano

Jomo Fortunato

Além do investimento do Estado angolano no ensino das artes, têm surgido formas inovadoras de aprendizagem artística, muitas das quais por autodidactismo, suportadas pelo advento das novas tecnologias da esfera comunicacional. No entanto, foi inegável o contributo da catequese missionária e instituições religiosas de caridade social, a exemplo da Casa Pia e Casa dos Rapazes de Luanda, e o importante papel desempenhado pela Igreja Tokoísta, no domínio do ensino e aprendizagem da música, ao longo da história da Música Popular Angolana.

Guitarrista angolano recebeu aulas de música clássica do professor norte-americano Barry Nolan
Fotografia: Edições Novembro |

Carlos Praia, um estimável produto da Igreja Tokoísta, iniciou os primeiros acordes de violão, em 2003, influenciado pelo seu pai, Carlos dos Santos Francisco, vulgarmente conhecido por “Mano Carlitos”, na mesma Igreja. Logo a seguir, entrou para Escola Mestre Webba,  de 2004 a 2006, onde frequentou o curso de violão clássico, destacando-se entre os demais alunos, tendo obtido o Certificado de Mérito. Na sequência, fez parte da banda da mesma Escola, constituída por professores, convite formulado pelo reconhecimento, versatilidade e forma peculiar de execução da guitarra. Enquanto membro do coro infantil  da Tribo  Sulana, e, mais tarde, do coro Rei David da  Igreja Tokoísta,  Carlos Praia tocou viola baixo e solo, período em que aumentou os seus conhecimentos musicais,  pelo pragmatismo da liturgia dos cultos religiosos.
Guitarrista, compositor,  arranjista, director e produtor musical, Carlos Praia juntou-se ao cantor e compositor, Vladmiro Gonga, voz e violão,  e formou, em 2006 , a “Banda Perfil”, com Beny Bass, baixo, Mechack, bateria, e Arnald, nas teclas,  formação voltada para  pequenas intervenções musicais  em locais de  entretenimento.
Filho de Carlos dos Santos Francisco e de Isabel Luís Praia, Carlos Francisco Praia dos Santos nasceu, em Luanda, no dia 13 de Dezembro de 1991.

Botswana
Aproveitando a Missão Diplomática do seu pai no Botswana em 2009 , Carlos Praia recebeu aulas do professor americano, Barry Nolan, arranjista da orquestra das Forças Armadas do Botswana, período em que melhorou, de forma substancial,  os seus conhecimentos de música clássica e teoria básica de Jazz, conteúdos que foram imprescindíveis para os testes de admissão à Universidade. Carlos Praia recordou que “Barry Nolan organizava, aos domingos, encontros fraternais de músicos amantes de Jazz no Hotel Gaberone Sun, no Botswana.
 
África do Sul
Em Janeiro de 2013, Carlos Praia entrou para a Universidade TUT, Tswane University of Technology , Faculdade de Artes,  Departamento das Artes Performativas, na Província de Gauteng-Pretória, África do Sul,  onde durante quatro anos, concluiu a Licenciatura em “Jazz e Música Popular”, com um Currículo da prestigiada “Berklee College of Music” , ensino terciário de jazz, ou seja,  alguns dos seus professores estudaram na Berklee.  “Estudei harmonia, treino de audição, arranjos,  improvisação, história do jazz, ensaios,  administração de artes, composição de Jazz, técnica de comunicação, arranjos de Jazz, Direcção de  Big Bands , criação de jingles, orquestração para filmes e produção musical”, recordou Carlos Praia. Ainda na África do Sul tocou e deu instrução a músicos na  Igreja Tokoísta e teve a honra  de ser músico e Director Musical de bandas de várias Igrejas. Carlos Praia concluiu com distinção a sua Licenciatura em “Jazz e Música Popular”, em 2016, ano em que fez um recital de Mestrado com a sua professora, Nelmarie Rabie.

Participações
Paralelamente aos seus estudos, Carlos Praia passou pela televisão na África do Sul, integrou a banda do guitarrista de Jazz Corey Christeansen ,   e tocou na Orquestra de Jazz da sua Universidade. Mesmo fora de Angola, compôs temas com o seu irmão da Igreja, Daniel Cassule, cantor da Igreja Tokoísta. Destaque para os concertos em efemérides angolanas realizados nas Embaixadas de Angola, na África do Sul e Botswana, Workshops de teoria musical e Jazz, direcção do coro na União Africana, Etiópia, Addis Abeba, onde tocou com os músicos, Doctor Mulato Astatke e Guirum Gizaw.

Angola
Carlos Praia chegou a Angola, definitivamente, em Maio de 2017, e formou o trio, ”Carlos Praia Jazz Band”, com Pedro Aguilar, baixo, e Jack da Costa, bateria, tendo participado em vários concertos, dos quais destacamos, comemorações dos vinte cinco anos de Jazz da Rádio LAC,  Luanda Antena Comercial, Novembro de 2017, no Hotel EPIC SANA, organizado pelo crítico de Jazz, Jerónimo Belo, Dia Internacional do Jazz,  Academia BAI e III Trienal de Luanda, concerto da cantora Anabela Aya, Palácio de Ferro. Modesto e longe dos artifícios da fama, Carlos Praia continua a tocar na Igreja Tokoísta no coro Rei David, onde iniciou, e continua receptivo a eventos Gospel, ensino e produção discográfica.
Discografia
“New Grace” o disco de estreia de Carlos Praia, possui dez temas originais instrumentais, predominantemente em guitarra, baixo e percussão. A composição,  arranjos,  captação e mixagem esteve a cargo do guitarrista, variando em estilos como, bossa nova, baladas de jazz, swing , bolero, momentos de fado, country music , massemba , “ragtime” e  improvisação de “avant-gard jazz” , com harmonias avançadas de jazz.

Depoimento
Francisco Makiesse, Director do Centro Cultural Agostinho Neto, em Catete, e amigo de Carlos Praia, fez o seguinte depoimento sobre o guitarrista, “Carlos Praia é um jovem que deseja explorar linguagens diversas no universo do jazz. No seu regresso a Angola foi acolhido pela banda musical Tokoísta da Tribo Sulana, seguidamente pela “Lucengomono”, Companhia d’Artes, onde é artista, criando a sua própria banda e um “Atelier Jazz”. Dessas experiências congregou num único formato que vai apresentar, muito brevemente, ao público constituído por uma obra e repertório heterogéneo e um “sound” refinado, plasmado numa improvisação, “jazzisticamente” consolidada. Tenho uma grande admiração pela sua capacidade e competência criativa, facto que me deixa estar cada vez mais perto, seguindo os seus passos, aguardando que Angola o descubra para encontrar o caminho, que julgo determinante, de ritmos e melodias intermináveis”.

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