TerceiraTrienal com produção de documentário

Jomo Fortunato |
14 de Dezembro, 2015

Fotografia: Cláudia Veiga

Os fundamentos culturais e propósitos cívicos da III Trienal de Luanda foram motivos de um encontro realizado no dia 9 de Dezembro de 2015 no Palácio de Ferro, em Luanda, entre jornalistas angolanos e uma equipa internacional que se deslocou a Luanda com propósito de produzir um documentário sobre a trajectória cultural, e impacto social da Fundação Sindika Dokolo.

O principal orador e patrono da Fundação homónima, Sindika Dokolo, falou do seu percurso pessoal, gosto pela arte, e da oportunidade que teve de conhecer profundamente os valores da cultura africana e universal, pela via da educação familiar. No âmbito da concretização dos seus projectos, a Fundação Sindika Dokolo pretende debater sobre as grandes questões existenciais dos africanos, contribuir para uma melhor educação para o desenvolvimento, valorizar o património, e dar a conhecer a rota do circuito mercadológico da arte africana no mundo.
A III Trienal de Luanda, que arrancou no dia 1 de Novembro de 2015, vai até 30 de Novembro de 2016, e está dividida em artes visuais, com exposições de arte clássica e contemporânea, comunicação que prevê a edição de jornais, revistas, catálogos, edições e reedições de títulos bibliográficos fundamentais para a compreensão da história literária e cultural angolana, programas de rádio e televisão, fóruns, que inclui um extenso ciclo de conferências, sessões de teatro, concertos, e programas de educação, que prevêem visitas de estudantes de diferentes níveis de ensino, nos espaços da III Trienal de Luanda.A III Trienal de Luanda pretende ainda reanimar o debate, sobretudo com intelectuais angolanos, sobre o entendimento, e interpretação da arte clássica africana, e “projectar o futuro de maneira mais profunda”, segundo palavras de Sindika Dokolo. O certame, que acontece sob os signos: “Da utopia à realidade” e “Da escravatura ao fim do apartheid”, dois importantes motivos de reflexão da III Trienal de Luanda, vai motivar o debate sobre o valor intrínseco da arte africana, e sua dimensão patrimonial, ultrapassando a ideia de que a arte africana é estranha, exótica, desconhecida e inacessível.
“É imprescindível restabelecer verdades, e as verdades estão com os africanos, os europeus conhecem apenas uma parte dessa verdade”, disse a dado passo, o coleccionador Sindika Dokolo.
Contrariamente às edições anteriores, a III Trienal de Luanda não ficará circunscrita à capital, ela vai até à Huíla, Benguela, Huambo, e Zaire, e pretende reabilitar, em Luanda, a sala de teatro do Zango, com exibição de peças para a população local.

Espaços

Os espaços e a sua gestão são uma componente fundamental na concretização dos programas da Trienal de Luanda. Este ano a Fundação Sindika Dokolo terá a sua sede provisória no Palácio de Ferro, espaço gentilmente cedido pela ENDIAMA, Empresa de Diamantes de Angola, parceira da III Trienal de Luanda, local que vai acolher parte substancial dos eventos da III Trienal de Luanda. Um outro espaço de fruição cultural, sobretudo da música e das artes cénicas, será o Elinga Teatro, instituição que celebrou um acordo com a Fundação Sindika Dokolo e a IMOGESTIN, para uma profunda intervenção de restauro.
O Palácio de Ferro é um edifício histórico da cidade de Luanda, que se crê ser da autoria do arquitecto francês, Gustave Eiffel. O emblemático edifício possuiu uma decoração original em filigrana metálica e tem um soberbo avarandado envolvente, sendo sem sombra de dúvida, o melhor exemplar da arquitectura do ferro em Angola, e foi recentemente restaurado.

Exorcismo


Sindika Dokolo valoriza a dimensão mística e metafísica da arte, e sempre teve a ideia de possuir uma colecção de arte clássica africana, a par de uma outra de tendência mais contemporânea, uma opção que decorre da influência que a primeira, pode exercer na segunda. Segundo uma curiosa reflexão de Sindika Dokolo, o entendimento e interpretação das peças de arte africanas vão para além da nossa percepção consciente, e intelectual. A máscara em si não é arte, a máscara é a “performance”, é o meio através da qual entramos em transe, ou seja, e exorcizamos a dimensão mística, intrínseca às nossas culturas tradicionais. “Gosto da arte que choca com a minha sensibilidade… a arte do exorcismo”, revelou Sindika Dokolo, parafraseando Pablo Picasso. Descobrindo a nossa relação com os nossos antepassados, esclarece o coleccionador, podemos compreender melhor a dimensão estética da arte contemporânea.
Sindika Dokolo defende o conceito de “arte poderosa de exorcismo”, em que as peças são  “objectos animados de alma”, ou seja, a ideia é irmos às fontes, à arte ancestral para compreendermos a arte actual, porque os africanos são depositários de um passado mítico, que deve ser valorizado no processo de leitura e interpretação da contemporaneidade artística africana.

Conferências


A Conferência de abertura da III Trienal de Luanda, realizada no passado dia 12 de Dezembro na Mediateca de Luanda, teve como conferencista o coleccionador Sindika Dokolo, que disse na ocasião pretender que a Trienal de Luanda seja um evento popular, e defendeu a ideia que temos que ser nós próprios a abordar os nossos problemas. A III Trienal de Luanda pretende atingir a cifra de 100 mil crianças nas visitas aos programas de educação, de um evento que vai partilhar com Angola e com o mundo a “Colecção Africana de Arte Contemporânea ”. Sindika Dokolo defendeu a ideia de criação de um “Museu a céu aberto”, onde a sociedade poderá reaprender a se relacionar com a arte. Sindika Dokolo defendeu ainda a tese de redefinição do vocabulário do universo artístico, promovendo a designação “Arte clássica africana”.
O patrono da Fundação defendeu também a partilha com público a dimensão mística da arte africana, num processo de abertura à comunidade humana global. Sindika Dokolo abordou o tema do retorno das obras de arte clássicas angolanas, e a entrega, em acto simbólico, das máscaras recuperadas ao Presidente da República. Este ano a Trienal de Luanda terá 176 conferências e a participação de 352 oradores, e estará mais aberta à intervenção de intelectuais e académicos angolanos.

Perfil

Filho de pai congolês e de mãe dinamarquesa, Sindika Dokolo nasceu no dia 16 de Maio de 1972, em Kinshasa. Enquanto coleccionador de arte, Sindika Dokolo possui a maior colecção de arte contemporânea africana, com cerca de cinco mil obras de arte, tendo começado a construir a sua colecção, com apenas quinze anos de idade. Curiosamente, a sua relação com as artes não se destina a ser reconhecido como um grande coleccionador, mas sim dar a conhecer a arte dos africanos no mundo, numa  perspectiva de valorizar e prestigiar a arte do continente.

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