Cultura

Tokoísmo no âmbito da filosofia da libertação

Jomo Fortunato

Numa perspectiva de valorização da história cultural endógena e do enaltecimento das personalidades, que, em diferentes frentes, foram avessas ao sistema colonial português, Patrício Batsîkama, apresentou, em livro, o resultado de uma investigação, sobrea cosmovisão de Simão Gonçalves Toco, 1918-1984, personalidade ímpar que marcou a história da religião angolana, pelo culto da paz, um desígnio universal que pode ser associado ao desejo, velado, de luta pela independência.

Historiador lançou na sexta-feira o seu mais recente livro sobre a cosmovisão de Simão Gonçalves Toco figura que marcou a história da religião em Angola
Fotografia: Sebastião Neto

De facto, a emancipação política dos angolanos, desejo de Simão Toco, ficou revelada nas palavras de Simão Kibeta,  membro da Igreja Tokoísta, que representou o Bispo Afonso Nunes, no acto de lançamento do livro, “Simão Toco, fundador do tokoísmo, foi e é um grande líder religioso e insigne nacionalista africano, cuja vida encerrou e encerra inúmeros sacrifícios consentidos no ex-Congo Belga, Angola e no Arquipélago dos Açores, Portugal, para onde foi deportado e permanecido durante onze  duros e sacrificados anos. Ainda nos anos quarenta do século passado, antes do surgimento dos movimentos de libertação, o Profeta africano nascido em Angola já arrastava multidões consigo, ensinando a palavra de Deus, mas também inculcando nas suas consciências as ideias de liberdade, auto-determinação e independência nacional”.
Coutinho Pedro, apresentador do livro, traçou as linhas gerais da obra, “O livro “Tokoísmo, teologia de libertação”, de autoria de Patrício Batsîkama, é uma obra de caris filósofo assente no tokoísmo e no pensamento do seu fundador, o profeta ético Simão Gonçalves Toko, e consiste na “Dialéctica das verdades contrárias”. Ela associa-se a posição de Simão Toko com a “Teoria da complexidade” de Edgar Morim, e a “Filosofia da libertação” em Simone Well e Enrique Dussell. O autor, que é historiador e filósofo, faz uma revisão critica sobre a história do tokoísmo desde 1949, reconstrói alguns conceitos filosóficos e classifica o pensamento de Simão Toko como a higiene ontológica que determina o comportamento do ser humano. (…) Para este académico, transportar uma doutrina social religiosa para o campo da Filosofia é um exercício que exige muita leitura e capacidade cognoscitiva, acrescentando que a obra é pioneira e que traz um debate e desafio ao mesmo tempo. O autor de “Tokoísmo, teologia da libertação”, tem a firme convicção de que nos próximos cem ou trezentos anos, muita gente ainda falará do Tokoísmo e não será apenas numa perspectiva religiosa”.

Tokoísmo
O Tokoísmo, designação dos seguidores do profeta angolano Simão Gonçalves Toco da “Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo no Mundo”, é uma religião cristã com sede em países africanos e europeus. O seu fundador,  Simão Gonçalves Toco, nasceu em 1918 em Maquela do Zombo, província do Uíge, tendo recebido o nome kikongo de Mayamona. Após frequentar o ensino primário na Missão Baptista de Kibokolo, concluiu os estudos  no Liceu Salvador Correia em Luanda. Por esta altura, conheceu um acontecimento milagroso que despoletou a sua missão religiosa, o encontro com Deus em Catete, no dia 17 de Abril de 1935. Depois regressou ao Uíge para trabalhar nas missões baptistas de Kibokolo e Bembe. Em 1942, decidiu partir para Leopoldville, Congo Belga,  para colaborar com a missão local, onde dirigiu um coro musical com cantores zombos, chamado Coro de Kibokolo, oriundos, igualmente, de Maquela do Zombo. Segundo Patrício Batsîkama, o tokoísmo baseia-se na “dialéctica das verdades contrárias”, ou seja, na valorização da visão do outro.

Filosofia

A Filosofia da Libertaçãonasceu como movimento filosófico na América Latina, entre 1960 e 1970, numa linha de continuidade das teses defendidas pela “Teologia da Libertação”, “Pedagogia do oprimido”, “Psicologia da libertação”, “Sociologia da libertação”, “Direito da libertação”, também designado, “Direito alternativo”, “Antropologia da libertação” e “Economia da libertação”.

Estrutura
Em relação à estrutura do livro, o autor propõe, em tese, na primeira parte, o título “Para uma teologia tokoísta”, e logo a seguir no primeiro capítulo a “Grande profecia”, Patrício Batsîkama compara Simão Toko a outras figuras da história, com para a KimpaVita. No segundo capítulo, entramos para a “História do Tokoísmo” , no terceiro capítulo, aborda “Sua santidade Tokoísta”, quarto capítulo, “Cidade santa- Ñtaya”, e no quinto  capítulo, “Para uma teologia tokoísta”. Na segunda parte, o autor aborda a questão da “Filosofia da liberdade” e no capítulo seis, o “Argumento sobre o grande sistema”, no sétimo capítulo, “Liberdade tokoísta”, no oitavo capítulo, “Ética tokoísta” e para terminar no nono capítulo, encontramos a abordagem, propriamente dita, da “Filosofia da libertação”.

Conclusão
Na conclusão do seu livro Patrício Batsîkama termina, escrevendo o seguinte, “A nossa abordagem não esgotou o tema em si, apenas o introduziu. Convém aceitarmos que ela é, na verdade, incompleta pelos resultados alcançados face as pretensões que lançamos no início. A nossa humilde contribuição consistiu na leitura crítica das ínfimas fontes ao nosso alcance. Tivemos provisoriamente que pôr de lado inúmeras fontes valiosas pela nossa incapacidade de analisá-las. Remetemos para a geração futura a reapreciação das mesmas- caso já não voltemos a analisá-las- e essa geração terá o propósito de rentabilizar o debate que agora provocamos”. 

  Perfil e qualificações académicas de Patrício Batsîkama

Patrício Batsîkama, natural de Makela Ma Zombo, é bacharel em História e Ciências Sociais pela Universidade Pedagógica Nacional, República Democrática do Congo, licenciado em História e Filosofia da Arte e Mestre em História pela Universityof  Plymouth, Reino Unido. Doutorou-se em Antropologia política pela Universidade Fernando Pessoa, em Portugal, com o tema: “Nação, nacionalidade e nacionalismo em Angola”. A tese do seu Pós-Doutoramento foi publicada com título: “O Legado de José Eduardo dos Santos para 3.ª República”. Ambos livros têm a chancela da editora, da Mayamba.
É autor de dezassete livros, vinte e seis artigos científicos e vinte e setecomunicações em várias universidades nacionais e internacionais. É coordenar o Centro de Investigação Científica no ISPT, Instituto Superior Politécnico Tokoísta.
 Na opinião de Patrício Batsîkama, “Este ensaio ilustra o meu esforço em fazer sair o tokoísmo do campo religioso para abarcar o debate filosófico. Esta estratégia é legítima pelo facto de mostrarmos, documentalmente, duas dimensões que antes não eram abordadas, a dimensão nacionalista, por estar no início do protonacionalismo angolano, 1943-1949, e a dimensão filosófica, por ter estruturado a ‘dialéctica verdades’, contrárias a partir da ‘higiene ontológica’, 1948-1976”.

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