Tradição e renovação estética da música popular

Jomo Fortunato |
30 de Março, 2015

Fotografia: Jomo Fortunato

Autor de “Monangambé”, um dos clássicos da Música Popular Angolana mais revisitado pela nova geração de intérpretes, Tonito é considerado, pela crítica mais exigente, um dos mais importantes compositores da sua geração,

pela dimensão metáforica, pertinência dos temas, e correcção do kimbundu, língua nacional que domina com fluência, e constitui o suporte identitário da sua portentosa obra.
Compositor de mérito reconhecido, Tonito nasceu no seio de uma família que se comunicava, concomitantemente, em kimbundu e português: “A língua portuguesa era um suplemento linguístico que complementava os limites lexicais do uso do kimbundu, e o  canto sempre foi um importante vector de expressão artística no interior da minha família”, recordou o compositor.
Embora o discurso cultural e filosófico de Tonito,  tenha as suas raízes no universo cultural Kimbundu, é na ambivalência com a língua portuguesa que o “corpus” da sua obra deve ser entendido. Quando chegou a Luanda, em 1954, proveniente de Calomboloca, Tonito trazia consigo todos os referentes culturais do universo rural, entenda-se, o imaginário campestre e suas fábulas, a memória musical característica da celebração dos mitos, peças musicais de pendor lúdico, a música dos carnavais, cânticos de caça, pesca, sementeiras e colheitas. Neste processo, o cantor assimilou o pensamento proverbial e toda a efervescência rítmica da percussão. Estes ingredientes referenciais, viriam a determinar o fraseado melódico e a estrutura textual das suas canções paradigmáticas.
Filho de Francisco António Fortunato e de Isabel António de Carvalho Fortunato, António Pascoal Fortunato nasceu no dia 6 de Junho de 1943, na localidade de Banza Caculo Kazongo, Algodoeira,  Icolo e Bengo, e  a notícia do seu nascimento foi publicado no jornal “Estandarte”, periódico da Igreja Metodista. 
Tonito foi a voz principal  dos “Kimbandas do ritmo”, em 1959, formação essencialmente acústica constituída por: Catarino Bárber, Mervil, Elias Bárber e Manuel Faria. Foi com os “Kimbandas do ritmo” que o cantor interpretou, pela primeira vez,  a canção “Undengue uami”.  Em 1972 fez coros com Carlos Lamartine, no single “Mbaku kavalé” de Manuel Faria acompanhado pelo conjunto “Águias Reais”. A relação com Carlos Lamartine perdurou até a gravação do LP “Angola ano 1”, referência discográfica incontornável da história da canção política.

Mafumeira
   
Para além de constituir um espaço de reafirmação de Tonito, enquanto cantor e compositor, “Mafumeira” reúne canções dispersas, a maior parte das quais nunca registadas em disco. Neste sentido,  o CD é também uma referência arquivística de uma parte substancial do  conjunto da sua obra. Com “Mafumeira”, Tonito quebrou trinta e nove anos de  silêncio discográfico, e revisita as canções: “Caminho do mato”,  texto do poeta Agostinho Neto,  “Tuila mu ulungu”, “Monami Xiku”, “Palamé”, Canto evocativo, “Kiukitukila”, Mariazinha, “Mu undengue uami”, “Malalanza”, “Menino Triste”,  texto de Jofre  Rocha, e “Kuricuté”, canção interpretada por Sara Chaves, dedicada à sua esposa, Mariana: Kuricuté, Kuricuté/ ngolo mbanza/ comboio kuoloiá/ ngolo mbanza/ comboio kuoloiá/ kuoloiá kualá Mariana... Gravado em Luanda, Paris e Portugal,  “Mafumeira” teve a  produção executiva da  “Kissanji produções, limitada”, e a produção musical coube ao carismático guitarrista,   Simmons Massini, um dos instrumentistas responsável pelo estabelecimento da ponte entre a tradição e a renovação estética da Música Popular Angolana.

Companheiros

Catarino Bárber, Manuel Faria, Carlitos Vieira Dias, Quim Jorge, Carlos Lamartine, Santos Júnior, Filipe Mukenga, Rui Mingas, Prata, autor do clássico “Pangu diá Penhi”, Duo Ouro Negro, Belita Palma, Tanga, Sara Chaves, Maiuka e seus correligionários do conjunto “Grito di povo”, Fontinhas, José Olivera de Fontes Pereira e Massangano partilharam momentos da carreira musical de Tonito, e citam-no como um dos melhores compositores angolanos, em língua kimbundu, apreciação valorativa que decorre do alcance metafórico dos textos e pela construção melódica das suas canções.

Depoimento

O cantor e compositor Santos Júnior que, com Tonito, partilhou momentos importantes da vida artística no Kissanguela, fez o seguinte depoimento: “Conheci o Tonito no princípio dos anos sessenta, e  desde esta época nunca mais nos separamos. Colega da música, Tonito é um profundo conhecedor das coisas da terra, palmilhei inúmeras vezes a noite luandense com o Tonito, e recordo-me do seu humor e poeticidade. Tonito teoriza tanto em português como em kimbundo, e revela um inequívoco amor à sua terra. Depois aconteceu o  convívio no Kissanguela, formação de que, aliás foi um dos principais fundadores e indiscutível impulsionador. Agrupados na JMPLA, viajámos pelo país e visitámos a Huíla, Huambo, Malanje e Benguela só para citar as digressões de que me recordo. Para além de um cantor de múltiplos recursos vocais, Tonito revela um compositor igual a si próprio e, parece-me ser um dos melhores quando escreve em kimbundu. A música de Tonito navega em harmonias cuja origem está na sua formação religiosa. A sua forma de interpretação musical define os parâmetros de um intelectual sem universidade. Sei que ele é um frenético autodidacta. O “Engraxador”, com letra de Joffre Rocha, é uma das músicas do Tonito que mais me toca. Aí o Tonito já revelava a sua rebeldia e a sua veia nacionalista. Tinha muitas saudades do Tonito, ganhamos todos nós com o seu  reaparecimento”.
O Kissaguela fez inúmeras digressões com Tonito pelo país e estrangeiro, tendo participado no Festival Mundial da Juventude e Estudantes em Cuba. Em 1975,  Zeca Afonso, Fausto e Luís Cília visitaram Angola e Tonito travou amizade com estes três importantes nomes da canção política portuguesa, tendo feito apresentações em várias cidades de Angola, incluindo Cabinda.

Discografia

Tonito sempre defendeu, ao longo do tempo colonial, uma postura intelectual e artística avessa ao mercantilismo fácil. À época os contratos de gravação beneficiavam os detentores do grande capital, consubstanciados na mais vil exploração da criação alheia, daí que não tenha gravado no período da colonização portuguesa. Depois da independência de Angola, Tonito gravou dois singles com as canções “Karipande”, “Grei de Ginga” e “Ngui matekenu” criadas especialmente para o Teatro de História de Angola, em 1976, com Fontinhas (voz e dikanza) e Massangano (guitarra). Tonito figura na colectânia, “Grandes êxitos”, LP em vinial, edição do INALD, com “Monangambé” e “Kiutukukilé”. No entanto, vários cantores interpretaram canções de Tonito:  Eleutério Sanches, “Monangambé”, Trio Melodia, “Maria Sessá”, Sara Chaves, “Kurikutê”, Rui Mingas, “Marimbondo”, Mona ami kibala” e “Undengue uami”, Belita Palma, “Monami Xico” e “Caminho do Mato”, Carlitos Vieira Dias, “Nzala”, Dionísio Rocha, “Palamé”, e ainda Bonga, Martinho da Vila, Dódó Miranda,  Té Macedo, Carlos Lopes e J. Lourenzo.

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