Cultura

Tradição “versus” modernidade e novas tendências do Carnaval

Jomo Fortunato

A história dos povos tem demonstrado que os modelos comunicacionais da esfera tradicional  da cultura nem sempre estão em oposição com a modernidade, existindo uma complementaridade geracional ao longo do tempo. A modernidade, enquanto estádio adulto da tradição, ergue-se num processo de ruptura parcial com a tradição, conservando determinados códigos e linhas de força, representativas dos valores do passado.  

Os valores identitários do carnaval representados por grupos como “União Operário Kabocomeu” devem ser preservados
Fotografia: Kindala Manuel | Edições Novembro

O conjunto dos valores identitários do Carnaval angolano representados pela tradição, em grupos como União Operário Kabocomeu, com a sua singular e expressiva kazukuta, União Mundo da Ilha, União 54, com a sonoridade das expressivas banheiras, e União Kiela, com a vibração  do semba, constituem, pela exaltação dos valores da tradição, a identidade do Carnaval tradicional angolano nos tempos modernos, facto que se nos afigura urgente preservar.   

A aparição dos Unidos do Caxinde, com a sua forma de exibição, representou o paradigma da modernidade e reorientou os critérios clássicos de avaliação: dança, canção, corte, painel, comandante, alegoria e falange de apoio, para outros níveis de apreciação estética, até então inexistentes. A verdade é que os novos paradigmas do Carnaval exigem uma mudança do antigo regulamento que, estruturalmente, remonta aos primórdios do Carnaval da Vitória, reclamando, pela exigência dos novos tempos, uma profunda revisão.   

Se os aspectos artísticos da tradição, sobretudo a estrutura rítmica da canção, dança, corte, alegoria e adereços, constituírem a base dos critérios de avaliação, estamos longe de considerar os Unidos do Caxinde um modelo clássico da tradição. Contudo, se, inversamente, a avaliação do júri exaltar a mudança, a permeabilidade ao novo, incluindo a absorção dos ventos de outras paragens, os Unidos do Caxinde foram, inequivocamente, o modelo da modernidade.  A organização interna e formas de financiamento dos grupos de carnaval, engajando, para o efeito, os grandes grupos empresariais de forma directa, pode vir a ser um antídoto contra as assimetrias materiais entre os grupos, nivelando as formas de apresentação e prestação artística.

   Plano Nacional 

Julgamos urgente  criar um plano nacional de reorganização do Entrudo que visa imprimir mudanças estruturais na forma de organização do Carnaval nacional, num processo que engajaria os Governos provinciais, representantes dos grupos de Carnaval, blocos de animação, APROCAL, Associação Provincial do Carnaval de Luanda, Comissão Nacional Preparatória do Carnaval, Direcções Provinciais da Cultura, Associações Culturais e todos os intervenientes na  realização da festa popular, incluindo convidados e demais interessados.    

O referido plano teria os seguintes objectivos: melhorar o estado actual de realização do Carnaval, reorganizar a estrutura interna dos grupos, rentabilizar a sede dos grupos, transformar os grupos em associações, realizar eleições e potenciar o estatuto da APROCAL, criar associações do Carnaval nas províncias, documentar em vídeo, ou em outros suportes de registo, a história do Entrudo, criar estratégias de transformar a festa popular em produto turístico e definir o número de foliões no grande desfile central. Não sendo conclusivo, o “Plano Nacional de Reorganização do Carnaval” visa instaurar um debate alargado com os principais intervenientes na realização do Entrudo, procurando consensos para uma festa que se pretende mais organizada e participativa.  Entendemos que o Carnaval deve ser preparado ao longo do ano, pelo que se deve criar um calendário de reuniões de auscultação com os grupos, para que as suas necessidades sejam geridas e atendidas, atempadamente, de maneira racional e adequada.    

Blocos de animação 

O surgimento dos blocos de animação trouxe consigo uma participação eufórica da juventude, que introduziu uma nova linguagem e formas de exibição no Carnaval actual.  Os blocos são a parte visível de um novo traço cultural, que tem contribuído para a redefinição do Carnaval e podem evoluir para verdadeiros grupos, o que, de certo modo, poderá reduzir o peso da participação do Estado. 

Os blocos de animação caminham, cada vez mais, para uma auto-sustentação e muitos deles são provenientes de agremiações culturais e grupos empresariais, com estatutos e funcionalidade própria. Daí que esteja em aberto a criação de uma Classe D, constituída pelos blocos de animação que poderão passar, depois de uma discussão alargada e séria, à competição geral. 

 

Prémio da canção  

O Prémio BAI-Canção do Carnaval revelou-se um importante contributo à modernização do Entrudo. O prémio visa, dentre outros objectivos, envolver os cantores e compositores angolanos na valorização e melhoria das canções do Carnaval, elevar à categoria artística um segmento da música angolana pouco reconhecido, mas que é detentor de inquestionável qualidade e tradição, contribuir para a consciencialização e respeito dos valores musicais da sociedade angolana veiculados pelas canções do Carnaval. Por fim, lê-se no regulamento, visa motivar os músicos e compositores em geral, e, particularmente, os que estão ligados aos grupos de Carnaval, a desenvolver e aprofundar as suas aptidões musicais dentro de um espírito de competição saudável. 

 

Recuperação de adereços   

A recuperação dos adereços, para melhorar a forma de apresentação dos grupos, passa pelo engajamento de profissionais dos vários domínios da arte e dos ofícios que intervêm no processo de criação da estética do Carnaval: artistas plásticos, carpinteiros, funileiros e empresas em condições de fornecer materiais.   

Neste sentido, a alegoria, um dos principais adereços do Carnaval que acaba por determinar o rosto dos grupos, deveria ser elaborado por profissionais qualificados, com o apoio financeiro directo dos patrocinadores.  

O estilo musical kuduro no Entrudo em Angola

Enveredar pela modernidade na tradição, conservando os traços culturais de identidade colectiva, deve ser o princípio de adaptação do Carnaval aos novos tempos.  Tal como o semba, a varina, a “tchianda” e a kazucuta, danças de proveniência popular que “emigraram” para o Carnaval, o kuduro, enquanto género musical e dança de expressão internacional, deve figurar, naturalmente, na contemporaneidade do Carnaval com a criação de um grupo potente que venha a promover esta expressão artística. 
A dança, um dos suportes emblemáticos do kuduro, possui uma plasticidade coreográfica reconhecidamente angolana, que sobrevaloriza o ritmo e a palavra inusitada, características de fácil introdução no ritmo do Carnaval.  As ocorrências do quotidiano dos bairros, a crítica social e política, os comportamentos, os defeitos do adversário, o enaltecimento das virtudes, a auto-promoção, são os temas e estratégias recorrentes de composição temática dos textos do kuduro, que, resguardando o conteúdo moral, podem estar integrados nas canções do Carnaval, evitando o uso irreverente da palavra obscena ou “obscenizada”. 
Acreditamos que a criação de um grupo de carnaval, constituído pelos artistas mais representativos do kuduro, poderá constituir um importante contributo à modernização do Carnaval angolano.


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