Cultura

Tributo aos cantores e compositores da canção política

Jomo Fortunato

Sobre o simbolismo e importância da primeira edição das “Jornadas dos Heróis da Liberdade”, Anabela Dinis, directora do Gabinete para a Cidadania e Sociedade Civil do MPLA, revelou o seguinte, “Nunca devemos esquecer que é dever de todos os angolanos respeitar e valorizar os heróis da liberdade, muitas vezes com simples gestos simbólicos.

Fató, a única voz feminina do agrupamento musical Kissanguela, foi uma das convidadas para animar a gala dos Heróis da Liberdade
Fotografia: Paulo Muzala | Edições Novembro

Entendo que a sociedade civil pode organizar várias acções, que, quanto a nós, se justificam pela necessidade de uma redobrada atenção e melhoria das condições sociais e materiais da generalidade dos nacionalistas angolanos que lutaram, resolutamente, pela nossa independência. Valorizando os nossos heróis, estamos a defender a nossa matriz, política, histórica e cultural, instaurando, em consequência, um espírito de unidade e harmonia pacífica, para a conservação e reforço do clima de paz e democracia”. 

De facto, pressupostos de natureza cultural, entenda-se, a legítima defesa dos valores da angolanidade, estão na base da motivação política que deu azo à luta dos heróis e nacionalistas angolanos, que determinou o processo que levou à conquista da Independência de Angola.
Sabe-se que cultura e política sempre estiveram em íntima relação, sendo o universo de intervenção política, consequência directa da assunção dos valores mais autênticos da cultura angolana, marginalizada e vilipendiada pela colonização portuguesa, durante cinco séculos de políticas coloniais de pendor assimilacionista.
Neste sentido, entendemos que quando os limites de reflexão cultural, endógena, não conseguiram cumprir os desideratos da sua função social e persuasiva, perante o colonizador, ocorreram a rebeldia e o pragmatismo da luta de intervenção política.
A primeira edição das “Jornadas dos Heróis da Liberdade”, realizadas de 19 a 23 de Fevereiro, sob o signo “Pela valorização dos nossos Heróis”, é um projecto do Gabinete para a Cidadania e Sociedade Civil do MPLA que se vai estender a todas as províncias,e visam valorizar e prestigiar os heróis e nacionalistas angolanos que deram o seu contributo, em condições difíceis, à Luta de Libertação Nacional.
Objectivos
O Gabinete para a Cidadania e Sociedade Civil do MPLA pretende, no âmbito da valorizaçãodos nacionalistas que lutaram pela Independência, atingir os seguintes objectivos: melhorar as condições materiais e sociais de todos os heróis da liberdade, dar a conhecer a História da Independência às gerações mais jovens, aproximar os jovens estudantes da literatura escrita sobre a Luta de Libertação Nacional, valorizar os cantores e compositores da canção revolucionária, e instaurar o ensino e debate da História de Angola, no sistema de ensino.

Programa

As “Jornadas dos Heróis da Liberdade” desdobraram-se em várias acções de natureza social e cultural, consubstanciadas em visitas às residências dos heróis, recons-
tituição do ataque à cadeia de São Paulo, Jantar-Conferência, depoimentos, exposição fotográfica, concertos e amostra de livros. Fizeram importantes depoimentos para a posteridade, Agostinho Inácio (Kisekele) e Engrácia Francisco Cabenha, herói e heroína do 4 de Fevereiro, respectivamente, Pedro Van-Dúnem, José Diogo Ventura, pelo Processo dos Cinquenta, Roberto de Almeida e Luzia Inglês Van-Dúnem (Inga). O programa encerrou ontem com a Taça dos Heróis da Liberdade, um jogo de futebol no Campo Mário Santiago, e o Muzongué dos Heróis com um concerto dos Kiezos, no Centro Recreativo e Cultural Kilamba.

Revivalismo

Muitas das canções interpretadas no Jantar-Conferência das “Jornadas dos Heróis da Liberdade” embora não tenham sido conhecidas pelas gerações mais jovens, valeram pelo revivalismo e simbolismo do momento. Música “engagé”, de intervenção, revolucionária ou, simplesmente, canção política, a verdade é que, volvidos quarenta e cinco anos, ficou gravada na memória colectiva dos angolanos, a marca inapagável de uma música inequivocamente romântica, nos seus motivos melódicos, e, verdadeiramente eficaz, nos seus propósitos políticos e textuais.
As “Jornadas dos Heróis da Liberdade” foram um momento de memória e valorização da canção política.

Canção política nas Jornadas dos Heróis da Liberdade

A canção política angolana esteve representada nas “Jornadas dos Heróis da Liberdade”, com um concerto realizado no passado dia 21, no Cine Tropical, em que participaram os cantores e compositores, Duo Canhoto e Tonito, Fató, Dina Santos, Carlos Lamartine, Calabeto e Santocas que foram acompanhados por uma versão reduzida da Banda Movimento, formação musical da RNA, Rádio Nacional de Angola.
A música do cantor e compositor Santocas, ícone representativo do período efervescente da canção política, teve um efeito mobilizador de transcendente magnitude, numa altura em que os principais movimentos de libertação disputavam, entre si, a conquista do poder em Angola. Ficou na história da canção política angolana, o tema “Angola”, uma belíssima canção do Santocas, magistralmente interpretada no Jantar-Conferência das “Jornadas dos Heróis da Liberdade”, da qual respigamos o texto integral, “Angola/ tua anangola/ kindala ngó/ ando tu bana/ MPLA tua sakidilá/ tua sakidilá/ ni osso ua bangue/ kama tangue ka me gié/ hama gitanu já mivu/ mu tua bité/ kama tangue ka me gié/ hama gitanu já mivu/ mu tua bité/ olotula ó kizua pala etu tuimbila/ ó muinbu ietu/ massoxindulum/ massoxindulum/ aná assumbixilé/ ó jipangue jetu mui itari/ alukenu ji makuenze já MPLA/ a bixilakiá/ Alukenu”. (“Angola é dos angolanos/ só agora/ nos será entregue/ MPLA estamos agradecidos/ estamos, agradecidos/ pelo que fizeram/ só não conta quem não sabe/ os quinhentos anos que passámos/ está chegando o dia/ para nós cantarmos a nossa canção/ e as lágrimas cairão/ e as lágrimas cairão/ aqueles que venderam/ os nossos irmãos/ por dinheiro/ têm de ter cuidado/ porque os nossos Irmãos/ do MPLA já chegaram”).
De facto, as canções quando atingem, na plenitude, o seu poder comunicativo, podem ser transformadas em válidos instrumentos de formação de opinião e de mudança do curso da História, sobretudo quando surgem em épocas de mudanças políticas radicais. Tal facto, contraria a efemeridade de determinados modelos de criação musical, de natureza circunstancial, que surgem em oposição aos paradigmas musicais de impacto intemporal.

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