Tributo a um cantor de origem pop-rock

Jomo Fortunato |
16 de Março, 2015

Fotografia: Paulino Damião

Enquanto cantor e compositor, Mauro do Nascimento reutiliza, de forma artística, os falares da linguagem popular.

Foi baterista dos “Indómitos”, a banda nostálgica do cantor e compositor Filipe Mukenga, e integrou o cartaz principal do “Projecto Kalunga”, a mais importante e numerosa caravana artística brasileira que visitou Angola, depois da independência, em 1980.
A prematura aparição de Mauro do Nascimento no palco do Ngola Cine, numa das sessões do Dia do Trabalhador, em 1966, integrado num espaço artístico reservado à procura de novos valores musicais, marcou o início, mais remoto, de uma histórica peregrinação pela música.
Cantor e compositor de reconhecido mérito, lembrou, nos seguintes termos, os primeiros passos da sua carreira: “Tinha então catorze anos, quando o Batalha e Ti Mano, dois amigos do meu bairro, convenceram-me que tinha que insistir com esta coisa da música. No entanto, alerto que a minha primeira aparição, no Ngola Cine, foi um completo desastre.
Tínhamos um minuto para mostrar o que valíamos e entrei a cantar completamente desafinado. Tal facto deu-me forças e pensei em superar rapidamente as minhas debilidades. A saída foi aproximar-me aos “Indómitos”". Foi assim que Mauro do Nascimento se aproximou dos “Indómitos”, um  “conjunto de música moderna” de tendência pop-rock, que integrava Filipe Mukenga (voz), António Maneiras (bateria), Joaquim José Salaviza (viola baixo), Fernando Sirgado (viola solo e ritmo) e Raúl da Ilha (teclas).
 Nos “Indómitos”, banda musical que veio a ser a sua grande escola, Mauro do Nascimento aprendeu a tocar bateria, com orientação de  António Maneiras, e  guitarra, primeiro com Fernando Sirgado e depois com os ensinamentos de Tiozinho Miranda, um histórico do Grupo Teatral Ngongo. 
 Filho de José Baptista e de Aida Simões do Amaral, Lucas do Nascimento Baptista é primo do antropólogo Virgílio Coelho, e nasceu no dia 1 de Abril de 1952, em Luanda, Bairro Indígena, na casa da sua avó, Zita Coelho. 

Bandas

Parte substantiva da carreira musical de Mauro do Nascimento advém da sua integração em determinados conjuntos e bandas musicais, muitos dos quais fizeram época na história da Música Popular Angolana. No início dos anos setenta, pertenceu ao grupo musical do Centro Social de São Paulo, em 1972, com o general Ledy e Felizardo Júnior, fez parte do “Duo Fantástico”, no mesmo ano, com Filipe Mukenga, formação que arrebatou o primeiro prémio do Festival de Música Popular de Luanda, e substituiu o cantor Dualy Jair nos emblemáticos “Gambuzinos”, em 1973.
Antes de Novembro de 1975, mês e ano da independência, passou pela “Banda OK Jazz”, formação residente da “Boite Comodoro”, no Lobito, com Jorge Andrade, Franco, Armando Teles e Mangueira, tendo integrado ainda o agrupamento “FAPLA-Povo”, em 1978, e  a Orquestra “Primeiro de Maio”, em 1982.

Canções

Embora se tenha revelado como instrumentista, no início da sua carreira, Mauro do Nascimento também é conhecido como compositor das suas próprias canções. Os temas que encontramos nas suas músicas revelam um autor preocupado com o amor, em “O príncipe negro”, o feitiço em “Nzumbi ya ngi kuata” e  “Ngala ni oma”, e referências a figuras e ocorrências do quotidiano luandense, em “Andorinha voa” e “Poema no Musseque”, as duas últimas formam canções de grande sucesso que, infelizmente,   ficaram registadas somente em fita magnética e estão depositadas no arquivo da Rádio Nacional de Angola.

Cinema
   
Depois de uma aparição na TV Cultura, em São Paulo, Brasil, país onde viveu de 1989 a 1991, Mauro do Nascimento foi convidado pelo professor universitário e presidente da Comunidade Negra do Governo de São Paulo, Carlos  Prudente, a participar como actor no filme “Axê”, uma co-produção com Angola. “Tens as características físicas da personagem que eu pretendo”, disse Carlos Prudente, dirigindo-se a Mauro do Nascimento. Na sequência escreveu “Sangue dos heróis”, trilha sonora do filme, a que se juntou uma outra canção do baiano, Caetano Veloso. Mauro do Nascimento lembrou os versos de “Sangue dos heróis”:  “O sangue dos heróis/ foi a tinta usada/por  Neto e Samora Machel/ com o abraço moldura de Fidel/mas que gente ousada/olha como saciamos/a sede desse mel/poesia e sonhos realizados/mas que maravilha/ hoje, agora e sempre/respeitados, independentes/sobramos/ África do saber/ pirâmide paradoxal/tão genial/um quê natural/nesse Brasil contemporal/no saber de presentear/ a beleza de Oxum/esta garra de Ogum/Oh guerreiros de Iemenjá /Xangô, Jeji Yoruba”.

Discografia


Dois momentos fundamentais marcaram a discografia completa de Mauro Nascimento. O primeiro foi a gravação do seu primeiro single, em 1969, com a etiqueta da RCA, que incluía o grande sucesso “Príncipe negro” e a canção “Nzumbi ya ngi kuata”, do qual retomamos, pela importância na carreira do cantor e compositor, a letra do “Príncipe negro”: "Outrora tudo estava tão lindo/num belo jardim da cidade/Eu era o príncipe negro/e ela a mais bela das negrinhas/Mas eu  nunca chegarei ao fim/pois talvez seja melhor/um dia quando for velhinho/contarei aos meus netinhos/ Outrora tudo estava tão lindo/Mas eu nunca chegarei ao fim pois talvez seja/pois talvez seja melhor assim."
O segundo momento ocorreu com o surgimento do single, “Não quero mais saber de você” e a canção “Ngala ni oma”, tema que aborda a crença no feitiço na perspectiva cultural, uma das referências mais belas da história das canções angolanas da época colonial: “Nga sassumuka bu kilo/mukonda diá ngana muloji/nga dikola mamã/mamã ueza ni lussolo/Ngadalami dingui/ku zeca boba/ni ubeka uami/Eme ngala ni oma/Dia ngana muloji… Eme ngala ni oma/ Dia ngana muloji… Eme ngala ni oma/Dia ngana muloji…"

Kalunga

O “Projecto Kalunga” juntou, em 1980, os mais importantes cantores e compositores da Música Popular Brasileira: Dorival Caymmi, Martinho da Vila, Djavan, Clara Nunes, Dona Ivone Lara, Edu Lobo, Francis Hime e Olívia Hime, João do Vale e João Nogueira, num conjunto de sessenta e cinco pessoas, que incluía artistas, produtores e técnicos, liderados pelo cantor e compositor Chico Buarque e pelo produtor Fernando Faro. Esta caravana, denominada “Projecto Kalunga”, foi um evento que revelou as raízes culturais e um diálogo político e musical existente entre Brasil e Angola, país que tinha conquistado a sua independência, cinco anos antes, em 1975.
Na última apresentação da caravana, na Tourada, em Luanda, participaram os cantores angolanos Felipe Mukenga, Rui Mingas, Valdemar Bastos e Mauro do Nascimento.

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