Cultura

Trio de músicos que “prendeu” angolanos em casa

Analtino Santos

Denominado 3G do Semba, o concerto foi uma aula magna de angolanidade assente na rítmica e sonoridade. Teve carácter solidário e visou angariar donativos para a Fundação Ana Carolina, vocacionada para o apoio, tratamento e acompanhamento de crianças carenciadas portadoras de patologias crónicas do foro neurológico.

A tarde do passado domingo (28) constará dos anais da música angolana ao reunir num mesmo concerto Bonga, Paulo Flores e Yuri da Cunha, representantes das três gerações de músicos angolanos em actividade.
Fotografia: Edições Novembro

O concerto, pelos dados empíricos, já que, lamentavelmente, não foi objecto de estudos de audiência, terá sido um dos mais vistos em Angola. A própria TPA terá atingido um dos mais elevados picos de audiência de toda a sua história. Nas redes sociais, foram inúmeras as referências ao espectáculo, que chegou a ser dos assuntos mais comentados no Twitter em Portugal.

Numa simples observação às páginas do Facebook e Instagram de figuras públicas e anónimos angolanos é possível notar as várias publicações e referências ao encontro musical de gerações. O concerto foi tema de conversas elogiosas também nos táxis, nos ambientes familiares e nos locais de trabalho. Raramente um concerto musical conseguiu tanta unanimidade relativamente à sua óptima qualidade e sentido de oportunidade.

Das “estranjas” para a banda

Bonga, Paulo Flores e Yuri da Cunha reuniram em palco grandes nomes da música angolana, como Betinho Feijó, director artístico de Bonga e dos mais respeitados produtores nacionais, nas guitarras ritmo e solo, Ximbinha nos solos em alguns temas, e o promissor baixista Mayo Bass, que foi alternando com Carlitos Tchiema.

O percussionista João Ferreira esteve em sintonia com o axiluanda Galiano, respeitado compositor que esteve nas congas e dikanza. A bateria foi partilhada por Dino Silva, Ivo Costa e Gildo Umba. Ciro Bertini tocou o acordéon, Gobliss os teclados e o guineense Manecas Costa dedilhou a guitarra, trazendo aos ouvidos da audiência as malhas do seu Gumbé.

Houve quem, num exemplo típico do humor corrosivo das redes sociais, sugeriu que os músicos deviam ser chamados a prestar declarações na PGR “pelos estragos emocionais” que causaram no auditório. O concerto musical começou com o “muadiakima” Bonga a soltar a interventiva “Balumukueno”, lançada em 1972, ano de nascimento de Paulo Flores, que, respeitosamente, “apropriou-se” de um dos clássicos de Bonga: “Ilia”.

De seguida, houve a bela homenagem “Obrigado, Kota Bonga”. Desta forma, não foi necessária a orientação “Fica em Casa”, porque estava a desenhar-se uma tarde com fortes motivos para a permanência em casa. Depois da interpretação de “Kandengue Atrevido” Bonga reconheceu o contributo de Paulo Flores e Yuri da Cunha para a música angolana, sublinhando que são dignos do seu respeito.

O jovem-septuagenário (77 anos) cantou e encantou em “Marimbondo”, “Água Rara”, “Kamacove”, “Olhos Molhados”, “Cambuá” e “Diakandumba”, dentre outros sucessos que marcam o seu percurso artístico. Paulo Flores e Yuri da Cunha foram cuidadosos ao colocarem no alinhamento musical os seus principais sucessos, ambos fazendo uma incursão pelo Semba, a Kizomba e os lamentos que os notabilizaram.

Ti Paulito com“Poema do Semba”, “Coisas da Terra”, “Reencontro”, “Cherry”, “Garina”, “Inocenti”, “Minha Velha” e outras obras do seu processo criativo que já vai longo suscitou muitas memórias antigas. Por sua vez “Mr. Pulungunza”, o próprio Yuri da Cunha, colocou no alinhamento os sucessos “E tudo mudou”, “Regressa”, “Makumba”, “Homem é Bom”, “Kuma Kwa Kwie” e outros.

Não ficaram de fora os bem conseguidos duetos entre os compadres Paulo Flores e Yuri da Cunha, nomeadamente, “Kandengue Atrevido”, uma perfeita adaptação de “Moleque Atrevido” do brasileiro Jorge Aragão, assim como a versão feita ao tema de David Zé “Rumba Za Tukine”, mostrando que eles vieram de longe e que bebem da fonte. A mais recente safra desta parceria, “Njila ia Dikanga”, não tinha como não ser tocada.

Os dois ainda reservaram um momento para homenagearem Teta Lando em temas como “Eu vou voltar”, “Angolano segue em frente” e “14 Chuvas”. Durante o concerto várias vezes foi feito o apelo para ajudar a Fundação Ana Carolina, localizada no bairro Benfica, em Luanda, que tem apoiado crianças com problemas neurológicos e paralisia cerebral.

Segundo Paulo Flores, essa tem sido a causa de um pai que, depois de perder um filho com este quadro clínico, tem dedicado a sua vida à Fundação. Isto sensibilizou o trio de músicos, assim como a Movicel, uma das principais parceiras na produção do concerto. Numa tarde em que Bonga Kwenda, mais uma vez, mostrou que é na fonte da terra que o viu nascer que vai beber a razão de ser da sua criatividade, a dikanza, a ngoma e a puíta foram os instrumentos que tocou tanto nas suas interpretações individuais como nas colectivas.

O sucesso “Mona ki ngui xiça” foi cantado em trio, assim como a rapsódia final, onde o semba, a rebita, a kabetula, a kazukuta e outros ritmos do carnaval contribuíram para um final feliz e animadíssimo. Como ponto final da emissão “Gingonça” foi mais um contributo do kota.

O fim do concerto foi o início de uma série de publicações, manifestações de apreço e até de votos de agradecimento à TPA, que parece ter acertado, finalmente, no regulador do volume de som da emissão. Angola chorou, dançou e reencontrou-se. É caso para dizer que agora, parafraseando Teta Lando, “os nossos mortos vão compreender porquê que morreram afinal”.

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