Cultura

Turismo cultural nas Cachoeiras do Binga

Manuel Albano

A delegação artística alemã que esteve no país de 25 de Janeiro a 9 de Fevereiro era constituída por 13 elementos. Mas apenas 11 participaram na expedição turística ao Cuanza Sul, porque os outros dois estavam com dificuldades de adaptação ao clima quente nesta fase do ano, contrariamente à realidade na Europa, que está com temperaturas muito baixas.

Fotografia: Edições Novembro

No passeio, Luanda esteve representada por 14 directores e actores do grupo Tic Tac, do Anim’Art - Centro de Animação Artística do Cazenga, enquanto que, do Cuanza Sul, participaram grupos de teatro e dança da cidade do Sumbe.
A descoberta das maravilhas das províncias do Sul tem atraído muitos turistas pela diversidade da sua fauna e flora e locais e sítios encantadores.
A comitiva fez-se à estrada a partir da sede do Clube Ferroviário, junto à estação de comboio do Bungo, nas imediações do Porto de Luanda, às 7h50. Passou pelo Museu da Escravatura, Parque Nacional da Quissama, Barra do Kwanza, Viveiro das Palmeiras, Rio Keve e várias aldeias e povoações, num percurso de muitos quilómetros percorridos em duas etapas.

União pela cultura e turismo
A viagem até à primeira grande paragem, depois da travessia da Barra do Kwanza, mostrou paisagens únicas, tais como o rio que dá nome à moeda nacional, a exibir todo o esplendor até ao seu encontro com o mar. O percurso acabou na Fazenda Bacati, a alguns quilómetros do Parque das Cachoeiras do Binga, para um almoço de confraternização.
O motorista Augusto, de 35 anos, é de poucas palavras, mas não se coibiu de nos passar as informações necessárias sobre como seria a viagem até ao destino. No mini autocarro da TCUL, a caravana seguiu para o destino a menos de 100 quilómetros por hora, como recomendou a direcção da transportadora pública luandense. Um percurso de aproximadamente quatro horas foi feito em sete. Na Barra do Kwanza, uma tabuleta indicava que andaríamos mais 179 quilómetros por estrada até alcançarmos o município do Porto Amboim, na manhã de segunda-feira, feriado nacional em memória dos heróis do 4 de Fevereiro.

Travessia do Rio Keve
O primeiro encontro com o Rio Keve foi na ponte. Ao longo da via, eram visíveis placas de sinalização verticais e horizontais, umas mais conservadas que as outras, alertando para os riscos de acidente. A viagem até ao destino foi feita sob temperaturas elevadas. O ar condicionado quase não refrescava o interior da viatura, como nas primeiras horas, o que tornou o itinerário mais penoso, fundamentalmente para os alemães.
Diz o ditado que “quem corre por gosto nunca se cansa”. Por isso, apesar desses constrangimentos, os passageiros estavam bem dispostos. O sacrifício foi compensado pelos momentos vividos. Foram emoções únicas e inesquecíveis, principalmente para a maioria, que conheceu as Cachoeiras do Binga pela primeira vez.
Ao longo da viagem, uns aproveitavam para ouvir música e ver filmes. Houve até tempo para cochilos. Os mais ansiosos não queriam deixar passar qualquer momento do passeio. A chegada, junto ao Instituto de Petróleos do Sumbe, foi o culminar de uma das mais belas etapas.

Recepção popular calorosa
A caravana foi recebida com cânticos religiosos e outras canções do “Mundo” mais ou menos conhecidas de todos. As barreiras linguísticas foram ultrapassadas, porque a música é universal.
Os turistas puderam ver no seu ambiente natural o gado bovino e caprino a pastar tranquilamente, e aproveitaram para fotografar todos os pormenores da paisagem. Os alemães não queriam perder a oportunidade de levar recordações da sua primeira viagem a Angola.
A gastronomia angolana esteve sempre presente em todas as etapas. Tanto na costa quanto no interior, os mariscos do rio e mar faziam as delícias da caravana, embora muitos não arriscassem com receio de indigestão.
Adultos e crianças das aldeias e vilas acenavam à passagem em direcção à caravana num gesto de carinho e simpatia. Todos sentiam que estavam em família. Para os mais experimentados, foi mais uma viagem de rotina, apesar do mau estado de alguns troços da estrada.
Eram 14h30 quando a caravana finalmente chegou ao destino. O som, à distância, das quedas de água era convidativo.

O encanto das Cachoeiras
O Parque das Cachoeiras, ou Cachoeiras do Binga, a 45 quilómetros da cidade do Sumbe, é um local de grande encanto e beleza. Ninguém resistiu a um bom banho de rio, uma peladinha de futebol na areia e degustação dos aperitivos da terra. O fino fresco não faltou no convívio. O ambiente foi de união, festa e fraternidade. O Parque das Cachoeiras é gerido actualmente pelo jovem empresário angolano João Mfumu, director-geral da empresa de prestação de serviços Zionist, Comércio, Indústria e Construção Civil.
Com um espaço acolhedor, a empresa oferece serviços de restauração, campismo, recreio com passeios de barco e a cavalo e pesca desportiva, dispondo igualmente de áreas para a prática de ciclismo e caminhadas. Está aberto ao público todos os dias, das 8h00 às 18h00. O local é ideal para piqueniques com a família e amigos.
A caravana seguiu depois para o local do almoço, na fazenda Bacati. À distância, o bom cheiro dos codornizes assados na brasa anunciava momentos de fartura. Havia cabidela, caldeirada, carne assada, feijoada e bitoque e, como não podia faltar, a boa funjada.

Fome saciada dá lugar à diversão
A partir da Fazenda Bacati, na parte superior das Cachoeiras do Binga, é possível apreciar com maior segurança o jorrar das águas do Keve, que banha, nas suas margens, campos férteis e terras de caçadores e agricultores. Nesta época chuvosa, as águas do rio ficam mais turvas.
As Cachoeiras do Binga, conjunto de quedas de água e rápidas mais ou menos caudalosas, segundo a época do ano, são uma das atracções turísticas mais visitadas da região. Cenário fantástico, coisa de outro Mundo, de deixar qualquer um em êxtase diante de tanta beleza natural.
A brisa fresca resultante do bater das águas nas rochas cria sonoridades excepcionais. O maestro é a própria natureza, que proporciona a sensação de tranquilidade e paz.
O rio a serpentear entre as pedras é um convite permanente ao banho. A força das águas agita o Keve e precipita-o por entre degraus de pedra polida, desembocando em bacias tranquilas. Nas margens calmas, o rio manso abre caminho entre pequenos areais onde se pode descansar tranquilamente, com a cachoeira principal como pano de fundo.
Para alcançar o local, saindo de Luanda, depois de passar por Porto Amboim e pelo Instituto Nacional de Petróleos, entra-se no desvio para a Gabela e seguem-se as indicações em tabuletas. Uma viagem normal dura de três a quatro horas.
A expedição foi mostrar aos visitantes europeus as potencialidades turísticas angolanas e algumas obras de reconstrução. O regresso a casa foi o que menos encanto trouxe aos turistas por ser realizado de noite. O cansaço foi vencido pelas memórias frescas do passeio.

Conda é o próximo destino
A próxima excursão poderá chegar às águas quentes da Conda, na província do Cuanza Sul. O desafio foi lançado pelo chefe de Departamento do Turismo da província, António Jorge Fernando.
Em declarações ao Jornal de Angola, António Jorge Fernando referiu a existência de um programa do Executivo para a promoção do turismo cultural em toda a província. Nesse sentido, o Governo do Cuanza Sul está a trabalhar junto do empresariado local na melhoria das infra-estruturas hoteleiras, uma área pouco explorada mas com grande potencialidade, um meio de criação de emprego e de geração de rendimentos. “Estamos a trabalhar com o empresariado local no sentido de apresentar serviços de qualidade e com preços acessíveis, para atrair cada vez mais turistas nacionais e estrangeiros à província”, anunciou.

Intercâmbio em clima de irmandade
Em declarações ao Jornal de Angola, o director Artístico do espectáculo “A Vida é Sonho” e porta-voz da delegação alemã, Carlos Manuel, disse que a experiência em Angola aconteceu num “clima de amizade e solidariedade”.
Ao fazer o balanço das actividades realizadas em Luanda, Cuanza Norte e Cuanza Sul, explicou que os jovens actores da Alemanha levam de Angola uma nova imagem, contrária à que ouvem nos meios de comunicação social na Europa, nos quais os africanos são sempre subvalorizados.
A vinda da delegação alemã ao país criou “um ambiente de receios”, todavia ultrapassado devido ao bom momento que o país vive. “Havia alguma apreensão da parte dos actores que fizeram várias perguntas, por ser a primeira vez a visitarem o continente africano, mas tudo ficou ultrapassado com a chegada da comitiva a Angola”.
O actor alemão disse que o contacto com a realidade angolana e a vontade permanente de comunicar com as comunidades do Cazenga, foi um dos momentos marcantes da estadia da delegação. “Essa parceria ajuda a acabar com alguns preconceitos e idealismos, por causa de algumas informações distorcidas, que são passadas aos europeus sobre a realidade dos africanos”, frisou.

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