Cultura

Ubuntu-Casa de Cultura e Artes promove seminário sobre África

Francisco Pedro

A Ubuntu-Casa de Cultura e Artes realiza amanhã, às 15h00, na Vila Alice, em Luanda, um seminário sobre “Afrocentricidade e Literatura”, no qual vão intervir os investigadores Bráulio Xavier Mereciev e Oliver Martins Quiteculo.

Investigadores africanos e afro-americanos abordam temas inspirados em Cheikh Anta Diop
Fotografia: DR

O seminário marca o início das actividades deste ano da Ubuntu, sobre “Afrocentrizar”, cuja programação foi divulgada em Novembro de 2018.
Segundo Eugénio Coelho, coordenador cultural da Ubuntu, “Afrocentrizar” significa apresentar África no centro das abordagens de todas as actividades, realizando-as numa perspectiva do pensamento e agir africano.
O cerne do seminário é a reflexão sobre a possibilidade da literatura “afrocentrada local” em oposição à “literatura africana”, à luz do paradigma da “afrocentricidade” que opera a um só tempo como conceito, veículo cultural e ferramenta cognitiva em qualquer domínio da criação humana.
O orador Bráulio Xavier Mereciev é presidente da União dos Jovens Académicos Africanos, enquanto Oliver Kiteculo é escritor, premiado em 2018 no concurso literário António Jacinto.
As intervenções dos oradores estarão focadas em várias questões: Existe de facto uma literatura afrocentrada? Se sim, quais são os fundamentos ou critérios ontológicos e epistemológicos da sua validação? E porque são esses os critérios e não outros?
O seminário visa, também, desenvolver o conceito de literatura angolana com base em critérios ontológicos e epistemológicos endógenos.
Esta preocupação, adiantou Eugénio Coelho, está vinculada a uma afirmação feita pelo Presidente Agostinho Neto: “Desenvolver a cultura angolana não é submetê-la a outras.”
“Desta ideia de Agostinho Neto, podemos entender que se trata da liberdade das pessoas terem o direito e ser sujeito da sua história de pensamento sobre si mesmo, o que constitui a condição para reinventar a emancipação da literatura angolana afrocentrada”.
O seminário de duas horas assenta, ainda, no conceito de literatura proposto na década de 1980 pelo professor Molef Kete Asande, segundo o qual “a libertação necessária não é apenas a independência e a autonomia, mas a liberdade epistémica”.
Esta afirmação defendida pelo africanista Molef Kete Asande, na opinião de Eugénio Coelho, é a liberdade do sujeito africano falar por si e construir o discurso sobre a sua condição de existência. “É a liberdade de ser livre em negociar a sua entrada na cultura pós-moderna”, frisou. Para animar o debate, a Ubuntu convidou o cantor e músico Adão Minjy, que vai assegurar parte da animação cultural.

Afirmação africana
Aberta em 23 de Março de 2017, a Ubuntu-Casa de Cultura e Artes está situada na Rua Aníbal de Melo, bairro Vila Alice, no distrito urbano do Rangel.  Dispõe de uma biblioteca com mais de cinco mil títulos,   mediateca, biblioteca virtual e uma sala de leitura, que recebe por semana dezenas de estudantes do ensino médio e universitário, sendo o acesso gratuito. O espaço tem uma sala para conferências e exposição de artes plásticas, além de um palco.
A Ubuntu tem colaboração de várias associações culturais no sentido da utilização do espaço para actividades permanentes. Uma delas é a Aprocima (Associação Angolana de Profissionais de Cinema e Audiovisual).
Entre as actividades permanentes da Ubuntu, destacam-se a tradução de documentos para kimbundo, umbundu, cokwe e kikongo. Promove animação de visitas de estudo e excursões para conhecimento do património cultural nacional.
“A nossa visão é inculcar e desenvolver nos angolanos a ‘afrocentricidade’ e o espírito do africanismo, visando superar as consequências nefastas da Conferência de Berlim (1884-1885). Temos como missão incentivar os angolanos no estudo e  investigação científica, promover o hábito de leitura, estimular o desenvolvimento intelectual e a criatividade artística”, salientou o coordenador cultural.
Essas metas têm como princípios a solidariedade, ética, inclusão, respeito pela ancestralidade, afirmação africana, empatia com a diáspora africana e amor ao ambiente.
A palavra ubuntu não é traduzível, por ser entendida como “Humanidade para com os outros”. Exprime a consciência da relação entre o indivíduo e a comunidade, cuja filosofia é: “Eu sou, porque nós somos.”
Ubuntu é uma noção existente nas línguas zulu e xhosa (línguas bantu), faladas pelos povos da África subsahariana.  Na África do Sul, a noção de ubuntu ligou-se, também, à história da luta contra o apartheid e inspirou Nelson Mandela na promoção de uma política de reconciliação nacional, em que o africano vê o universo como um todo orgânico que tende à harmonia e no qual as partes individuais existem somente como aspectos da unidade universal.

Tempo

Multimédia