Cultura

Uíge carece de espaços de actividades culturais

Valter Gomes | Uíge|

A falta de um espaço adequado para a realização de actividades culturais, ou de espectáculos, tem sido uma das principais dificuldades enfrentadas pelos promotores locais no desenvolvimento das artes.

A produção de artesanato utilitário e decorativo é regular e cria muitos empregos
Fotografia: Paulo Mulaza | Edições Novembro

O Jornal de Angola verificou que a maioria destes espaços está em mau estado de conservação e prestes a ruírem. A maioria dos promotores de espectáculos entrevistados acredita que essa carência não está só a retirar o interesse dos jovens pelas artes, como, também, a reduzir a curiosidade das pessoas por estas. Devido a este problema, acrescentam, tem sido difícil ensinar arte aos jovens interessados.

A dança, disseram, tem sido uma das artes que chama muita atenção da juventude, mas a falta de salas, apropriadas, impede os professores ou profissionais desta arte de a passar à próxima geração.
Os espaços foram uma realidade há cinco anos na cidade do Uíge. Hoje muitos destes locais, com destaque para os do Grande Hotel do Uíge, o Diamante Negro, Tico-Tico, a Mayeno, Cavo e Clinton, foram transformados em estabelecimentos comerciais ou estão à beira de ruína.
Promotor de espectáculos e ex-dançarino, Mayeno Viegas defende que a falta de espaços adequados leva, às vezes, “e quase sempre”, os jovens às práticas erradas. “É preciso ocupar o tempo livre dos jovens e as artes fazem isso muito bem, porque até desperta neles o gosto pelas boas virtudes. Existem muitos locais ‘adormecidos’ que têm qualidade para albergarem actividades culturais.”
Para inverter a situação, o promotor pede maior interesse dos empresários locais, em particular para os jovens talentos, cujo potencial pode acabar por ficar ofuscado, devido ao número reduzido de espaços. “Os proprietários de alguns destes espaços também deveriam fazer mais no sentido de os reaverem”, apelou.
A carência de espaços na conhecida terra do “bago vermelho”, continuou Mayeno Viegas, tem “forçado” a maioria dos jovens a procurarem por diversão em locais inapropriados, com risco da sua saúde ou segurança. “A saída são os quintais e outros espaços improvisados”, realçou.
Outra referência da província é Pedro Cachala, ex-dançarino que nas décadas de 1970 e 80 teve muito sucesso e hoje lamenta o facto de existirem poucos fazedores e praticantes desta arte. “Muitos acabaram por se ausentar e outros fracassaram. O Cine Moreno e o Ginásio eram os principais palcos de dança e pontos de diversão da juventude. Hoje são espaços comerciais.”
Apesar das condições precárias, alguns tentam fazer de artes como a dança, a sua fonte de rendimento. O grupo Getily, dirigido por Gabriel Filó, é um exemplo disso. Mesmo com as dificuldades para actuarem ou passarem o seu legado, por falta de espaço, têm, diariamente, feito de tudo para manter viva a arte.
Actualmente a trabalharem numa sala adaptada e provisória, cedida pela direcção da cultura do Uíge, o grupo, disse Gabriel Filó, enfrenta problemas, que não vão só do financeiro, mas também incluem a falta de material.
“A dança é, como a maioria das artes, fundamental na vida social de um indivíduo, em especial porque também tem capacidades terapêuticas. É também uma forma de ajudar os jovens a terem maior interesse por uma arte e quiçá criarem um compromisso profissional com esta manifestação artística, que é um bom meio para expressar a cultura de um povo”, explicou Gabriel Filó.
O grupo Getily, informou Gabriel Filó, foi criado a 28 de Outubro de 2007. Actualmente é um dos poucos que faz artes na cidade do Uíge. As suas criações incluem compassos de vários estilos, como o semba, kizomba e rebita. Um dos seus objectivos é garantir a educação cultural dos jovens.

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