Cultura

Uma atitude de meditação

Manuel Albano |

A escultura Kuku, popularmente conhecida como Pensador, oriunda do leste de Angola, é uma pequena estatueta de madeira cuja configuração representa um idoso numa atitude de profunda meditação.

Escultura popularmente conhecida como Pensador tem uma configuração que representa um idoso em reflexão
Fotografia: Domingos Cadência | Edições Novembro

A estatueta está configurada com a cabeça inclinada para a frente, remetendo o pescoço para uma posição alongada. O Jornal de Angola faz nesta edição o retrato dessa peça que também tem sido uma das atracção nas visitas guiadas do Museu Nacional de Antropologia, em Luanda, no seguimento da rotatividade das suas colecções.
O Kuku era um dos objectos que se encontravam dentro do cesto de adivinhação ou Ngombo ya Cisuka e que servia para a invocação dos espíritos dos antepassados. Depois da sua recolha, a estatueta foi ampliada e confiada ao Museu Nacional de Antropologia, passando assim a ser mais divulgada e inscrita na literatura etnográfica e museográfica.
Segundo a visão chokwe do Mundo, o Kuku retém a força dos espíritos dos antepassados. A família consagrava-o como defensor da linhagem perante os antepassados com os quais serve de intermediário entre os vivos e os mortos. Neste caso, era considerado o detentor do poder espiritual. Com a sua morte, juntava-se ao mundo dos antepassados onde se tornava espírito sujeito a ritos.
O Pensador é o equivalente de Samanyonga. Em língua chokwe, os prefixos Sa e Ma significam pai de… e mãe de... Pela sua dimensão cultural, o Kuku foi aceite como símbolo da Cultura Nacional, durante o I Simpósio realizado em 1984, e é também um dos elementos gráficos das notas de kwanza.
A população chokwe concentra-se sobretudo no nordeste de Angola e numa larga faixa que se estende até ao sul do país, mas também no extremo sudoeste da República Democrática do Congo e no extremo noroeste da Zâmbia. Os chokwe destacam-se pela tradição artística, particularmente em esculturas e máscaras.
Historicamente, estão envolvidos no colapso do Reino Lunda, mas no nordeste de Angola continuam a viver numa estreita coabitação com a etnia lunda. A migração para o sul, onde muitas vezes se estabeleceram em espaços não ocupados por outras etnias, continuou até meados do século XX. A coesão entre eles, muito se deve a uma rede de autoridades tradicionais. A sua fonte de rendimentos continua a ser a agricultura de subsistência e a caça. Espiritualmente, mostram-se pouco abertos ao cristianismo, salvo quando passam a viver em espaços urbanos.

Museu de Antropologia
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O Museu Nacional de Antropologia possui desde Novembro do ano passado um depósito central, adjacente ao edifício principal, com o objectivo de conservar o acervo em melhores condições.
O edifício de quatro pisos dinamizou o funcionamento do museu. A construção dessa estrutura está incluída no Programa de Investimento Público (PIP).
O director do Museu Nacional de Antropologia, Álvaro George, garante estarem criadas as condições para o aumento do nível de conhecimento dos angolanos e estrangeiros sobre o acervo etnográfico que descreve o quotidiano dos diferentes grupos etnolinguísticos de Angola. O novo edifício possui um bom isolamento térmico, reduzindo os gastos energéticos, com temperaturas internas mais amenas. O ruído externo é reduzido e as vantagens são muitas na melhoria significativa do conforto.
O depósito central pretende ser uma extensão contemporânea do principal edifício, de forma a garantir a harmonia estética e facilidade de utilização. O novo edifício tem espaço do estacionamento, cisternas, grupo gerador e depósito de gasóleo. Dispõe de acesso fácil para carga e descarga junto do elevador monta-cargas e uma comunicação de serviço para o edifício principal do Museu Nacional de Antropologia.
Fundado em 13 de Novembro de 1976, o Museu Nacional de Antropologia foi a primeira instituição museológica criada após a independência de Angola ocorrida um ano antes.
Esta instituição de carácter científico, cultural e educativo está vocacionada para a recolha, investigação, conservação, valorização e divulgação do património cultural angolano. O Museu Nacional de Antropologia é composto por 14 salas distribuídas por dois andares, que abrigam peças tradicionais, designadamente utensílios agrícolas, de caça e pesca, fundição de ferro, instrumentos musicais, jóias, peças de pano feito de casca de árvore e fotografias dos povos khoisan.
Quem gosta de música, tem oportunidade de conhecer os diversos instrumentos tradicionais e de ouvir uma demonstração do uso da marimba. A grande atracção do museu é a sala das máscaras que apresenta os símbolos dos rituais dos povos Bantu.

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