Uma história de amor na quarta-feira de cinzas

Conto de Arnaldo Santos |
18 de Fevereiro, 2015

Fotografia: JA Arquivo

Quando havia luar, as duas famílias seroavam no passeio de cimento da casa dos Chaves. As donas preferiam sentar-se no próprio passeio, mas em cima de colchas, por causa das formigas pretas que tinham uma picada dolorosa.

As crianças brincavam à volta em gritaria estridente. O Sr. Chaves zangava-se porque elas lhe atrapalhavam a conversa e o Sr. Sousa, o vizinho da casa defronte, esperava pacientemente que ele resmungasse e ficava depois a escutá-lo sobre o habitual assunto da cultura do tabaco.
As crianças não se interessavam por aquilo e de vez cm quando, uma ou outra vinha estorvar, chorosa, para reclamar de alguma prepotência. As mães intervinham conciliadoras e os homens impacientavam-se ainda mais. Mas a interrupção não tinha grande importância porque no dia seguinte voltariam a falar sobre os mesmos assuntos. Só nos dias feriados ou de acontecimento imprevisto é que se dispensava o luar. Mas então os meninos não brincavam, medrosos, e preferiam ficar prudentemente junto das mamãs a jogar às pedrinhas, ou a ouvir os comentários sobre o dia, entremeados de remendadas biografias das outras donas do bairro.
Naquele dia, o último do carnaval, D. Ana de Sousa (Donana entre os criados), arreliava-se com eles porque ainda não tinham a louça lavada e ela já ouvia o marido conversar com os vizinhos. “— Oh! esta maldita criadagem...”

Brincando na serra
Enquanto o lobo não vem...


As vozes das crianças chegavam-1he alegres, brincando ao lobo mau. Mas quando é que estes criados querem acabar com o serviço, pensava irritada? Estava agulhada por saber se o Craveira sempre se tinha encorajado a falar à Margarida, a filha mais velha da vizinha, uma jovem alegre e roliça. Além disso queria comunicar à amiga os gabos feitos à sua cassule, mascarada de índia, com um saiote de folhas de mulembeira. “Oh.., mas estes criados! — Pois fiquem sabendo que não quero ninguém a sunguilar no quintal, depois das 11 horas...” — avisou vingativamente.
Quando D. Ana apareceu no passeio, a brincadeira dos garotos já ia adiantada e a Quinhas perguntava: “— O que é que o lobo está a fazer?” “—... a bungular...” — respondiam em coro os companheiros.
D. Ana estranhou que não fosse o filho a fazer de lobo como era habitual e procurou-o com os olhos.
Viu-o sentado no passeio um pouco afastado do grupo, encostado à parede da casa, com o queixo quase apoiado aos joelhos, meditando.
Tinha sido tão inesperada aquela despedida da Nandinha, pensava o Mário. Foi talvez por isso que ele se descontrolara. Mas se alguém viesse a saber? Iriam troçar com certeza. E ele que sentira os olhos inundados de lágrimas. Aquela suspeita magoava-o. Mas não podiam dizer que ele não fosse decidido. A sua mão ainda conservava o calor dos seios duros da criada da Nandinha e recordava os seus gemidos de dor e de volúpia quando a apalpou enquanto jogavam às escondidas.
— Não brincas, Mário? O que é que tens? Estás doente? — sobressaltou-se D. Ana.
Mário despertou bruscamente e respondeu atabalhoadamente. Que não, que não queria brincar. A vizinha interveio. Lembrou que ele devia estar cansado por ter passado a tarde nos musseques atrás das danças. O Sr. Sousa aproveitou a oportunidade para narrar uma briga que tinha presenciado entre a “Kazekuta” e os “Invejados”. Pronunciava “Invejados” com as vogais todas fechadas e o Mário tinha dificuldade em associar aquele nome ao seu grupo de carnaval favorito, o mais falado, que até ia dançar no Palácio. “Invé-já-dos é que era, com as vogais bem abertas, e lembrava logo o estandarte bordado a cores, o ritmo próprio dos ngomas e das dicanzas, os índios com as azagaias...
— ...a Nandinha também vai amanhã para o Asilo. — D. Conceição (assim se chamava a vizinha) que tinha uma filha no Asilo D. Pedro V, falava da partida da filha e associava o nome da Nandinha, colega da filha, que sabia igualmente em férias.
O Mário estremeceu. Relembrou Nandinha e imaginou-a no Asilo, de muros altos, impenetráveis, vigiada pelas madres severas e inflexíveis como gaviões. Mas no lugar da tristeza, sentiu uma estranha sensação de alívio. O seu segredo ficaria ali sepultado vivo, defendido por aquelas paredes maciças e inacessíveis. Mas as meninas, do alto daqueles muros pareciam tão tristes, tão desesperadamente frágeis. Recordou mais uma vez o rosto da amiga, estático, onde só os olhos se moviam preguiçosamente muito brancos e mortiços, e o sorrir dos seus lábios sem elasticidade, passivos. Falava baixinho, aproximando-se muito, como se vivesse num mundo de segredos. Como é que ela suportaria o Asilo? Ainda ficaria mais triste? Não pressentia nela nenhuma ambição. Brincara com ela durante todo o período das férias. Ela entregara-se à ternura daquela amizade infantil, de uma forma tão livre e rectilínea, que no fim dela ficava sòmente ele, único. Todo o seu ardor possessivo, quando junto dela, esvaía-se numa carícia, como uma onda revolta numa praia lisa e aberta. “Um homem vai logo direito ao fim... Não sejas parvo!” Cerrou os punhos ao pensar nas palavras do Sr. Chaves enquanto lhe piscava o olho intencionalmente, designando as criadas. Não, ela não. Ela precisava de protecção. Ela não sabia lutar. (Quando a mãe da Nandinha, no meio dos cestos de mateba abarrotados de mangas, bagres e cacussos, que lhe mandavam da Funda para revenda, enfrentava as quitandeiras em discussões acaloradas, ela não demonstrava a mínima emoção. Continuava apática, longínqua, e acabava por lhe pedir para irem brincar para o passeio, por causa do barulho). A sua ignorância de que havia um jogo vital em que era preciso ganhar, perturbava-o. O seu pai cedo lhe transmitira essa certeza sem piedade. Punha-o de sobreaviso, em relação aos vencidos e fracos. O que era preciso era ganhar. Mas ela não parecia compreender.
— ... sim, porque só um papa-açorda é que faz essa figura — concordavam as duas senhoras, confessionalmente, no meio de uma conversa murmurada.
De quem estariam a falar? O Mário cuidou que devia ser das cenas que o Craveira fazia para se declarar à Margarida. Ela rira-se-lhe na cara, carnuda e sensual, quando ele lhe chamara de... de quê? Ahn! Intangível! O que é que queria dizer aquilo?
Mas os juízos da mãe e da D. Conceição, que antes lhe provocariam a troça, deixavam-no agora pouco à vontade. Não que ele fosse um papa-açorda! No conceito das duas famílias o seu prestígio era bem firme. O Sr. Chaves incitava-o e gozava com os muxoxos e as queixas das criadas a quem ele levantava de surpresa as saias. Mas se viessem a saber daquela despedida...? Fora tudo tão rápido! A emoção traíra-o. Ainda sentia na mão o calor daqueles lábios quentes e suaves!
Iam por uma das ruas estreitas do Bairro Operário atrás do grupo formado pela mãe da Nandinha, pelas primas e pelos criados. Àquela hora algumas danças já tinham acendido os lampiões e um batuque descia a rua. Os primeiros guerreiros evolucionavam perto deles, ameaçando-os com as lanças e chocalhando os guizos dos braços e dos pés. Tinham-se encostado a uma cerca de tábuas, para não serem absorvidos pela multidão que avançava a cantar, e olhavam. Era tarde e ele procurava um pretexto para se despedir, mas não queria parecer aos olhos da Nandinha um medroso, tremendo dos ralhos da mamã. Ele era já crescido. Poderia entrar mais tarde em casa. Não tinha medo, procurava convencer-se, para esconder a razão do seu temor.
Nandinha olhava-o às vezes de frente e parecia compreendê-lo. O seu olhar estava carregado de intenções e envolvia-o numa teia de sentimentos que o perturbava. Ela amanhã partiria para o Asilo. Ele teria que se despedir agora e a separação viria irremediavelmente. Separação que ficaria vazia com um corte brusco num feixe de luz, sem um compromisso, uma garantia da confissão mútua da ternura que os ligava e que ele, afinal, evitara sempre. Iriam separar-se por quanto tempo? E não ficaria nada a preencher a distância... Ela só sairia nas férias grandes. Era melhor esquecer. Tinha que ser, não podia fazer nada. E acabou por dizer com determinação, sem se atrever a olhá-la:
— Vou agora..., atrás desta dança.
Nandinha, que lhe pressentia a agitação, percebeu que afinal seriam só aquelas palavras vazias de afecto que iriam encerrar toda a sua comoção da despedida. Ficou quieta, silenciosa, como se não tivesse ouvido, procurando nele, inutilmente, porque seria assim tão frio e sem futuro aquele momento. E como sonâmbula, segurou-lhe a mão e pediu trémula:
— Escreves-me?
O Mário receou viver a expressão daquela súplica e a garganta contraiu-se-lhe, recusando comunicar a afirmação que lhe enchia o peito. Acenou simplesmente um sim, com a cabeça, e subitamente sentiu na mão os seus lábios quentes, suaves.
Retirou-a bruscamente como se a tivesse ferido. Quis fugir. Nandinha arfava, envergonhada. Foi então que num beijo tímido ele também juntou o seu juramento de fidelidade. Não pudera nem quisera conter as suas lágrimas. Eram dela.
E naquele momento o Mário recordava, agitando-se no passeio, e mordia os lábios para não chorar. A mãe dele vira e sorrira. Toda a gente sorrira. Ao chegar a casa todos os rostos sorriram. Talvez soubessem. Gozavam.
— Só o nosso Mário é que não é de meios termos... — dizia D. Conceição, na continuação da conversa sobre o Craveira e fazendo alusão aos despropósitos do garoto com as criadas.
A gargalhada alta e fresca da Margarida que acompanhou os olhares e que se lhe dirigiram sorridentes, feriu o Mário como um espinho. Sentiu as orelhas a arder e um suor quente inundá-lo. Eles sabiam, gozavam, troçavam também. Mas o que é que eles tinham com isso? O que é que tinham com a sua vida? A fraqueza fora sua e ele não a recusara. Gritou:
— Não têm nada com isso, não têm nada com isso... — e fugiu, choroso, deixando os pais e os vizinhos boquiabertos.

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