Cultura

Valorização da massemba pelo culto intimista da “dikanza”

Jomo Fortunato

Raúl Tolingas, instrumentista de múltiplos talentos, representa, entre outras figuras não menos importantes, o simbolismo da cultura musical do Bairro Marçal, consubstanciado, fundamentalmente, no culto intimista da “dikanza” e na valorização da herança do cancioneiro tradicional.

Raúl Tolingas fez parte dos Ébanos e do África Show
Fotografia: Mota Ambrósio | Edições Novembro

A influência familiar, sobretudo do seu pai, desempenhou um enorme papel na sua propensão para a música, facto que recordou, nostálgico, nos seguintes termos: “Embora trabalhasse como rádio-telegrafista, o meu pai tocou concertina e sempre que o visse tocar, acompanhava-o com um prato ou garrafa. Com o tempo e de forma repetida, comecei a ganhar o gosto pela música”.  
A condição de multi-instrumentista transformou Raúl Tolingas num artista muito solicitado para acompanhamento, tanto para cantores individuais, como em conjuntos musicais, este facto explica a sua integração em inúmeros agrupamentos musicais ao longo da sua prestigiada carreira. Em 1968, ajudou a fundar “Os piratas do ritmo” com os seus irmãos Chico Assis, vocalista e bailarino, e José Fernandes da Fonseca, também conhecido por Zeca Xaxata, na puíta,  incluindo os amigos Manuelito Torrado, bumbo, percussionista que tocou congas no “Gienda Ritmos” e depois no “Makaku muxima”, conjunto do cantor e compositor Voto Gonçalves e João diá Nzamba, irmão do cantor e compositor Givago. 
No ano seguinte, Raúl Tolingas, harmónica, entrou para os “Morenos do Ritmo”, pequena formação da qual fizeram parte Belmiro Carlos, congas, Branquinho, voz, Teodoro, harmónica, e Ilídio, dikanza.  Ainda em 1969, foi a vez de integrar os “Picas do Zangado”, do pai dos Picas e Nelinho do Semba, ainda a tocar harmónica.  Na sequência, ajudou a fundar, dentro do quintal de ensaio dos  “Giendas Ritmos”, o conjunto “Rufino mais três” com Rufino, vocal, Baião, guitarra solo, Ito, viola baixo, e Raúl Tolingas nas congas.
Raúl Tolingas fez parte dos “Ébanos”, em 1970, com José Maria, guitarra solo, Nelinho Airosa, guitarra baixo, Robertinho, dikanza,  Mingo, bongós, Pincha, viola ritmo. Depois pertenceu aos “Focos” com Baião, viola solo, Didino, viola baixo, Gildo Costa, vocal. Fez parte dos Águias-Reais e dos “Corvos”, com Manuel Claudino, viola baixo, Zeca Pilhas Secas, viola solo, Novato, dicanza, Gildo Costa, voz, e Zeca, bongós.
Raúl Tolingas teve uma passagem pelo “África Show”, de 1972 a 1974, em substituição do Quim Amaral, dikanza, com Massano Júnior, voz e tumbas, Tony Galvão, órgão, Baião, guitarra solo, Zeca Tirylene, viola baixo, e Vininho, caixa. Nesta época, Raúl Tolingas assistiu à entrada de Didino, em substituição do Zeca Tirylene, assim como Belmiro Carlos, que substituiu o guitarrista Baião.
 
Jovens
A pedido do Didi da Mãe Preta, Raúl Tolingas teve uma passagem fugaz pelos “Jovens do Prenda”, em 1972, com Zé Keno, viola solo, Mingo, viola ritmo, Kangongo, viola baixo, Chico Montenegro, bongós e voz, Tony do Fumo, dikanza e voz, e Didi da Mãe Preta, voz e pandeireta. Depois voltou para o “África Show” na sua fase derradeira, 1974, e entrou para o “Ufolo”, formação de intervenção política,  a tocar congas, com Brando, viola solo, Dulce Trindade, baixo, Celino, viola ritmo, John Webba, acordeão, José Webba, voz, Josefa Webba, voz, formação que chegou a viajar, em concerto, para Brazzaville.  
Filho de João Fernandes da Fonseca, natural de Cabiri, e de Engrácia Diogo Lourenço da Silva, natural da Kilunda, Icolo e Bengo, Raúl Fernandes da Fonseca, Raúl Tolingas, nasceu em Luanda, Bairro Marçal, no dia 10 de Junho de 1954. 

Kissanguela
Raúl Tolingas entrou para o “Kissanguela”com Belmiro Carlos, convidados por José Agostinho, coordenador da secção cultural da JMPLA, em 1974, numa altura em faziam parte do agrupamento Manuel Claudino (Manuelito) viola baixo, Candinho, tumbas, Mário Silva, voz, composição e violão, El Belo, voz e composição, Artur Adriano, voz e composição, Filipe Mukenga, voz e composição, Santos Júnior, voz e composição, Manuel Faria,voz e composição, Elias dya Kimuezo, voz e composição, e Tino dya Kimuezo, voz e composição. Raúl Tolingas passou ainda pelos grupos “Quarteto  Universal”, “Instrumental 1º de Maio”, “Semba África”, “Negoleiros do Ritmo”, “Banda Monumental”, afecta à ENDIAMA, “Mizangala DT” e “Banda Welwitchia”. Actualmente faz parte do “Conjunto Angola 70”, “Grupo Kituxi”, “Novatos da Ilha de Luanda” e “União Elite”, os dois últimos de massemba.

Rádio
Em 2016, Raúl Tolingas foi convidado a fazer parte do painel de comentaristas do “Poeira no Quintal”, programa revivalista da Rádio Nacional de Angola, dirigido pelo jornalista Sebastião Lino. Do conjunto de comentaristas fazem parte cantores, compositores e instrumentistas do período de ouro da Música Popular Angolana, dos quais se destacam Dikambú, realizador, Cirineu Bastos, Xabanú e Manuel Claudino, com assistência de produção de Nelo Vieira, detentor de um importante arquivo discográfico da Música Popular Angolana, em vinil, Domingos Santana e Tó Lemos.

Belita
O clássico “Belita”, paradigma musical da carreira do cantor e compositor, Artur Adriano, e uma das canções mais interpretadas pelas gerações mais jovens de intérpretes, consagrou Artur Adriano na plêiade dos mais importantes compositores angolanos. A canção foi gravada com o acompanhamento de Carlitos Vieira Dias, viola baixo, Quental, solo, Mário Silva, viola ritmo, e Raúl Tolingas nos tambores. Pela importância do tema na carreira de Raúl Tolingas, transcrevemos a letra da canção: “Mãe Kuebi/  mu ngongo ua vale ò mona zé /  Kalumba ni kuaba/  Katé ni muxima/  Uami ua texika/  Muenié/  uala ni polo iá Santa/  ni muxima iá Zambi/  Osso u ngibeka/  Ó manhi kumbanduiami/  U mu bana iosso uandala/  Belita/  Muxima uami uatexika/  Belita/  Muxima uami uatexika/  Messu mami paleie/  Maku mami paleie/  Ué Belita/  Ué Belita...

Manuel Claudino
Manuel Claudino, também conhecido por Manuelito, para além de ter passado por muitos conjuntos musicais de vida efémera, notabilizou-se como baixista, primeiro no conjunto “Aguias-Reais” e depois no histórico agrupamento “Kissanguela”, uma das formações mais representativas da canção revolucionária. Na condição de amigo e companheiro da vida musical de Raúl Tolingas, Manuel Claudino fez o seguinte depoimento: “Conheci o Raúl Tolingas em 1965, em plena época colonial, no Bairro Marçal, Zona do Isidro, numa altura em que ele fazia parte do conjunto “Os Morenos”, onde tocava tumbas. Neste apontamento que faço, julgo oportuno realçar a dimensão multifacetada do Raúl Tolingas, ou seja, como artista domina vários instrumentos, canta e interpreta muitos temas do nosso cancioneiro.
Há um outro dado histórico importante, quando Raúl Tolingas entrou para o agrupamento “Kissanguela” eu já lá estava, como baixista, no entanto não posso deixar de considerá-lo, na prática, um dos seus membros fundadores. Como conhecedor da história da Música Popular Angolana, Raúl Tolingas tem dado um singular contributo no painel de comentaristas do programa “Poeira no Quintal” da Rádio Nacional de Angola, do qual também faço parte.”

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