"Vamos criar um site para divulgar filmes africanos"

Francisco Pedro |
21 de Agosto, 2016

Fotografia: Raul Booz

O realizador, produtor e actor congolês Ne Kunda Nlaba afirmou, em entrevista concedida ao Jornal de Angola, em Luanda, que os cineastas africanos podem criar novas formas de sustentabilidade financeira para suportar as produções cinematográficas envolvendo o público amante da sétima arte e os empresários nacionais,

ao contrário de se cingirem numa única fonte de financiamento, que se resume no Fundo de Cinema instaurado pelos governos. Formado em Produção Cinematográfica, Ne Kunda Nlaba reside em Londres há 8 anos, e apresentou, recentemente, no Centro Cultural Brasil-Angola, em Luanda, uma palestra sobre “Marcados alternativos para filmes angolanos”, em que destacou a existência de novos canais para divulgação de filmes africanos no mundo.

Jornal de Angola - Quais foram as questões mais importantes afloradas na palestra “Mercados alternativos para filmes angolanos”, em que foi orador no Centro Cultural Brasil-Angola?

Ne Kunda Nlaba - Destaquei alguns pontos-chave relacionados com o mercado de distribuição de modo a orientar os cineastas angolanos a produzirem filmes de alta qualidade profissional, para o mercado nacional e internacional, com um orçamento pequeno.

Jornal de Angola - Na sua opinião, quais os requisitos que os realizadores e produtores angolanos devem ter em conta para conquistar mercados internacionais?


Ne Kunda Nlaba - O primeiro requisito é conhecer e entender como funciona o mercado internacional e produzir de acordo com as suas regras e a demanda. O segundo está relacionado com um bom roteiro, equipamento profissional e trabalhar com uma equipa de pessoas talentosas, pois, a qualidade da imagem, os aspectos técnicos e narrativos devem atender à expectativa dos distribuidores e das cadeias de televisão.

Jornal de Angola - O processo de distribuição e exibição está circunscrito à televisão, salas de cinema e festivais?


Ne Kunda Nlaba - Existem formas mais abertas de distribuição dos nossos filmes, além da televisão e das salas de cinema, tendo em conta a tecnologia digital que nos oferece novos canais de distribuição. “Netflix”, “Amazon” são algumas plataformas para divulgação de filmes e existem muitas mais onde cineastas independentes podem mostrar os seus trabalhos e ganhar algum dinheiro. Através da minha empresa de distribuição de filmes, “Afrika Bizizi Distribuição Ltd”, estou a planear lançar um novo canal de fluxo contínuo, “streaming”, de filmes que irá distribuir apenas filmes africanos profissionais sob demanda (On Demand).

Jornal de Angola - Os constrangimentos de ordem financeira com que se debatem vários países africanos para o fomento da produção cinematográfica têm como solução, apenas, a criação de um Fundo de Cinema instituído pelos governos.

Ne Kunda Nlaba - Eu acho que a obtenção de apoio por parte dos governos é um imperativo, mas não podemos depender apenas de uma única fonte. Acredito que podemos criar muitas formas de financiar os nossos projectos. Cinema, além de ser uma arte, temos que tomá-la como um negócio. Assim, todas as pessoas poderão, também, entrar nesta jornada e investir na produção de filmes e obter lucros. Podemos criar um financiamento colaborativo, envolvendo o público no financiamento de filmes que gostariam de ver. Mas é necessário uma certa cultura, temos que ensinar as pessoas e explicar-lhes mais sobre como isso é importante.

Jornal de Angola - Sobre o documentário que o trouxe pela segunda vez a Angola, porquê o título “Kimpa Vita: Mãe da Revolução Africana”?


Ne Kunda Nlaba -
Kimpa Vita fez a sua revolução no Reino do Kongo que cobria uma parte de Angola, Congo Kinshasa, Congo Brazzaville e Gabão, numa época de fronteiras que já não existem... Eu acredito que ela lutou em primeiro lugar a favor do Reino do Kongo, e também a favor dos negros, em geral, em África, porque todo o continente africano foi afectados pelos mesmos problemas.Ela é a mãe da revolução por causa da sua contribuição excepcional no momento em que as pessoas não podiam levantar-se e dizer aos traficantes de escravos que eles estavam a matar, a torturar e a deportá-los. Kimpa Vita levantou-se, embora muito jovem, contra a escravidão, tortura, deportação e massacre do povo negro. Acho que pela sua grande contribuição para a nossa liberdade, ela merece ser chamada “Mãe da revolução africana”.

Jornal de Angola - Como foi a recepção do filme “Kimpa Vita: Mãe da Revolução Africana”?


Ne Kunda Nlaba - O filme foi bem recebido pelo público, tanto em Luanda, dia 4, no Centro Cultural Brasil-Angola, quanto em Mbanza Congo, no dia 11, no Centro Vuvamu. As pessoas ficaram surpreendidas ao conhecerem parte da história que nunca ouviram antes. Mostraram-se felizes e esperavam obter um DVD do filme para verem em casa. Para mim, o interessante foi a parte de perguntas e respostas no final, a oportunidade de discutir mais com o público entusiasta. Isso demonstra como as pessoas estão ligadas a este documentário. O filme foi bem recebido e pretendo voltar a Angola para fazer novas exibições de “Kimpa Vita: A Mãe da revolução Africana”, através de um passeio pelas 18 províncias e exibir em espaços abertos.

Jornal de Angola - Como avalia a sua estadia?

Ne Kunda Nlaba - Foi muito valiosa pois conseguimos os objectivos, que era mostrar o documentário em Luanda e Mbanza Congo, apesar dos atrasos que tivemos especialmente em Mbanza Congo. Outro grande resultado foi conhecer novas pessoas e descobrir a Associação Angolana dos Profissionais de Cinema e Audiovisuais (Aprocima), o que vai ajudar na concretização de parcerias e novos projectos, para a efectivação de uma indústria cinematográfica angolana. Tal parceria será focada mais em co-produção, mercado de distribuição e desenvolvimento de talentos.

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