Cultura

Vivências de Dom Caetano narradas aos fãs em disco

Manuel Albano

O quotidiano dos angolanos é o tema do próximo disco de originais de Dom Caetano, que decidiu neste novo CD, no mercado ainda este ano, explorar mais os aspectos da vivência sociocultural, em especial dos luandenses.

Cantor está a preparar um CD com inovações na sonoridade, capaz de conquistar várias gerações de admiradores
Fotografia: Contreiras Pipa | Edições Novembro|

Dois anos depois de apresentar “Esperança Divina”, o cantor disse, ontem, ao Jornal de Angola, ter já a maioria dos temas gravados do CD, o último do acordo assinado com a produtora de Matias Damásio, no qual estava previsto o lançamento de dois discos até este ano.

Embora as gravações tenham sido temporariamente interrompidas, devido à Covid-19, o cantor está convicto da materialização do projecto este ano. Ainda sem título, o CD começou a ser produzido há meses. “A empresa Arca Velha decidiu trabalhar comigo nestes projectos, mas ainda tenho muitas composições para colocar em disco, o problema, como sempre, é a falta de apoios financeiros”, destacou.

A parceria com a Arca Velha, destacou, tem possibilitado mostrar o que tenho feito ao longo destes anos. “Quero deixar um contributo importante, para que as novas gerações tenham um legado positivo”, disse. Dom Caetano explicou, ainda, que tem procurado diversificar a sonoridade de alguns temas, com a introdução de géneros musicais como a rumba, bolero, semba, kilapanga e kizomba, interpretadas em português e kimbundu. “Tenho trabalhado para tornar o produto final atractivo e inclusivo”.

Compromisso social

O cantor disse que a preocupação com o compromisso social, enquanto músico, o levou a colocar no CD um tema, “Fica em Casa”, cuja composição é um alerta aos citadinos para os perigos da Covid-19. O tema, produzido no estúdio do DJ Mania, no estilo kilapanga, foi escrito tendo em conta os vários apelos feitos pelo presidente da União Nacional dos Artistas e Compositores (UNAC), a encorajar os associados a utilizarem a capacidade mobilizadora da arte para transmitir mensagens positivas as populações sobre a pandemia. “A classe artística tem um papel preponderante na educação da população, em especila nesta fase de quarentena”, disse.

Na generalidade, adiantou, os temas “O mistério e o segredo”, “Dizanga Dya Wanga”, “Lagoa do Feitiço”, “Saneamento financeiro”, “Complexo social” e “Irmandade humana” falam sobre alguns aspectos socioculturais de Luanda. “As músicas abordam muito questões ligadas a espiritualidade, a própria sociedade, assim como lugares marcantes”.

Expectativas

No novo disco, Dom Caetano espera ter os mesmos resultados positivos do anterior CD “Esperança Divina”, que fez sucesso ao incluir sucessos como “Nova Cooperação” e “Vizinho”, em homenagem ao guitarrista Zé Keno e ao músico Beto de Almeida, a título póstumo. Para o cantor, ainda há muito a ser transmitido aos jovens sobre a música urbana angolana, um trabalho que tem feito há 47 anos. “Trabalhar com a nova geração tem sido uma experiência única”.

Quatro décadas dedicadas à música urbana angolana

Detentor de vários prémios e distinções, conquistados ao longo da carreira, Dom Caetano, que nasceu em Luanda no dia 25 de Abril de 1958, tem hoje um percurso artístico invejável. Em 1972, com apenas 16 anos, começou a dar os primeiros passos como cantor, tendo-se juntado a um grupo de amigos, com os quais formou a banda “The Seven Boys”, no bairro Sambizanga.

O cantor subiu ao palco pela primeira vez em 1973, no Centro Cultural Os Anjos, no Sambizanga, e foi acompanhado pelo conjunto Astros. Nesse mesmo ano, em companhia de alguns amigos dos bairros Mota e Cabuite, formou o conjunto “Os Sete Amigos”. Ainda em 1973, esteve ligado ao Surpresa 73, do Rangel, como guitarrista baixo. Passou, também, pelos Sete Incríveis, do Sambizanga. Entre 1976 e 1979, actuou, como vocalista, no “Combo Revolucion”, em Havana.

De 1985 a 1996, fez parte, ainda como vocalista, dos Jovens do Prenda e passou, também, pelo Instrumental 1º de Maio. De 1999 a 2001, actuou pela Banda Movimento, que na altura pertencia ao Movimento Nacional Espontâneo. De 2003 até à presente data, está ligado à Banda Movimento da Rádio Nacional de Angola.

Em 1987, sagrou-se vencedor do Prémio Welwitchia, atribuído pela Rádio Nacional de Angola, como vocalista dos Jovens do Prenda, com a canção “Nova Cooperação” e, em 1991, ganhou o prémio da União Nacional dos Camponeses de Angola, com a canção “O Meu Chão Tem Tudo”. Além disso, foi ainda vencedor do primeiro e único Prémio Sonangol da Canção, de 1996, com a música “O Pecado Carnal”, assim como ficou em sétimo lugar, num universo de 10 concorrentes, do primeiro Festival da Canção Política, organizada pela JMPLA, em 1982, na cidade do Huambo.

Em Portugal, gravou, em 1997, o primeiro disco “Adão e Eva”, onde se destacam os temas “Uegia Kusokana”, “Sou angolano” e “Semba Dilema”, grandes sucessos. Em 2011, Dom Caetano colocou o segundo CD no mercado, “Mateus:7.7”. Sete anos depois, o autor do sucesso “Sou Angolano” voltou a apresentar um novo disco, com o título “Esperança Divina”.

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