Cultura

Yonamine e Nelo Teixeira em residências artísticas

Jomo Fortunato

O universo das artes plásticas, tem entendido o conceito de Residência Artística, como sendo os espaços específicos de criação que se convertem em lugares de trocas de conhecimento, nos quais os criadores valorizam, com os seus trabalhos e intervenções, a complexidade, a diversidade, o significado e valor das relações entre a arte e a vida.

Artista plástico Yonamine mostra e argumenta em fotos as produções de arte contemporânea
Fotografia: DR

De facto, a residência artística tem,  fundamentalmente, o sentido de troca de subjectividades, associando tempo e espaço a novos contextos de criação.
Tanto é assim que o debate, reiterado, sobre a residência artística incide, igualmente, na relação de cada artista com o desconhecido, ou seja, “aquilo que se apresenta ao artista quando aceita um convite para viver uma situação, o que também se pode converter em adversidade”.  No entanto, o mais importante, quanto a nós, não é apenas visitar ou estar mas estabelecer vínculos com as pessoas, espaços e lugares, permitir-se relacionar para que haja uma produção a partir dessa interacção.
 Neste sentido, torna-se necessário reflectir que as adversidades, peculiares nos seres humanos, são muitas vezes agentes motivadores das formas de relação dos artistas com o mundo. Neste sentido, estamos perante uma situação em que o adverso é parte importante do desafio de estar deslocado e vivenciar, simultaneamente, um conjunto de mundos possíveis que se projectam na criação artística. Depois dos artistas plásticos, Binelde Hyrcane Pedro Pires, em 2017, Yonamine é o terceiro artista plástico angolano a ser convidado, pela via da “open call”, chamada aberta, pela “Delfina Foundation” e o primeiro a ser escolhido através de um protocolo estabelecido entre esta instituição britânica e o “ELA - Espaço Luanda Arte”que, em 2019, fará chegar um quarto artista nacional pela mesma via. O Yonamine é representado pelas galerias, “Jahmek Contemporary Art”, Angola, e “Cristina Guerra Contemporary Art”,  Portugal.
No caso da Galeria AVA, “Association for Visual Arts”, Nelo Teixeira é o primeiro Angolano a ser convidado para residência, após o artista ter desenvolvido um projecto de serigrafias na Cidade do Cabo, 2017,  que chamou a atenção do mundo das artes locais. Após esta residência, Nelo Teixeira fará uma exposição das obras criadas durante os dois meses e irá participar na Feira da Cidade do Cabo em 2019. Yonamine iniciou a sua residência artística no passado dia 6 de Agosto e Nelo Teixeira no dia  11 do mesmo mês, permanência que se irá prolongar até dois meses.

Yonamine
Yonamine Miguel Fernandes Sebastião viveu em Angola, República Democrática do Congo, Brasil e Reino Unido. Actualmente reside e trabalha entre Lisboa, Luanda e Berlim. Começou a carreira com a impressão de artes gráficas em t-shirts, logos e flyers. Participou em diversos seminários e exposições colectivas durante a Primeira Trienal de Luanda, 2007, o que impulsionou a sua formação artística. Seguiram-se várias participações em mostras colectivas e individuais, das quais destacamos, Check List Luanda Pop, no Pavilhão Africano da 52.ª edição da Bienal de Veneza, Itália, 2007, participação na 29ª Bienal de São Paulo, Brasil, 2010, “No Pain”, Sem dor, na tradução livre, Salzburger Kunstverein, Salzburgo, Áustria, 2012, e“Luz Veio”, Teatro Elinga, Luanda, 2013, entre outras exposições.

Teixeira
Nelo Teixeira vive e trabalha em Luanda, estudou pintura e escultura nos “Workshops” promovidos pela UNAP, União Nacional dos Artistas Plásticos. Formado em carpintaria,  criou cenografias em diversos filmes,  dos quais destacamos, “A cidade vazia”, da realizadora Maria João Ganga, “Herói”, Zezé Gamboa, “Ponto de Encontro, Hugo Vieira da Silva,  e nas peças teatrais, “As bondosas”, José Mena Abrantes, e o “Preço do Fato”, com encenação de Adérito Rodrigues.  Nelo Teixeira tem exposto regularmente, desde 2000, e teve participação na segunda edição do JAANGO, Jovens Artistas Angolanos, movimento de arte angolana contemporânea que engloba artistas dos  mais variados domínios da arte, no Museu Nacional de História Natural de Luanda, em 2013. Neste ano fez parte da terceira  edição da “Ponte Cultural Angola-Israel”, um intercâmbio cultural na cidade de Telavive, que consistiu num conservatório intitulado “Danalogue” em prol do trabalho e do diálogo comunitário, em memória da jovem voluntária Dana Maor, onde participou numa Exposição Colectiva. Desde a década de 1990, integra o grupo “Os nacionalistas”, sendo membro de pleno direito da UNAP, União Nacional dos Artistas Plásticos, desde 1996. 

Depoimento
Dominick Tanner, Director Geral do “ELA-Espaço Luanda Arte”, fez o seguinte depoimento sobre a importância das residências, em termos de Diplomacia Cultural, “Conseguimos obter apoios privados em Angola de forma a garantir estas residências. Acredito não só na importância enorme que estas plataformas têm no crescimento do artista e, consequentemente das artes nacionais, mas no imenso papel diplomático que a Arte Contemporânea Angolana poderá desempenhar na melhoria das relações e actividades entre os três países: Angola, Reino Unido e África do Sul. É importante relevar que o sector de arte contemporânea nacional, pese embora a crise financeira que o país atravessa e o reduzido apoio institucional público, ganha vitalidade como nunca - revelando o enorme potencial caso houvesse de facto esse apoio. Por fim, e no futuro, esperamos que estes exemplos ajudem a garantir não só a atenção, mas eventualmente catalisem o apoio para mais residências de artistas, incluindo curadores, promotores das artes nacionais em outros países do mundo”.

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