Desporto

Basquetebol: A dívida de Voigt como ponta do iceberg

Vivaldo Eduardo

Foi absolutamente sem surpresa que os dirigentes desportivos e treinadores nacionais tomaram conhecimento da dívida contraída pela Federação Angolana de Basquetebol (FAB), a favor do norte-americano William Voigt, ex-seleccionador nacional sénior masculino. Dizemo-lo com toda a certeza, porque contratos milionários, à semelhança deste, há algumas décadas têm permitido a treinadores estrangeiros garantir o “pé de meia” em Angola.

Fotografia: DR

Ismael Kurtz, Mário Palma, Manuel José, entre muitos outros, ganharam ou custaram ao país dinheiro suficiente para lhes garantir uma reforma tranquila. Em alguns casos, feitas as contas, a qualidade do trabalho desenvolvido esteve longe de se equiparar ao encaixe financeiro dos contratados. Eventualmente, nas raras ocasiões em que valeu, a penas do ponto de vista desportivo, não houve sequência ou existiu pouquíssimo “feed back” com os quadros nacionais, para assegurar a continuidade.

Apesar da condição de país subdesenvolvido, Angola procurou frequentemente treinadores credenciados no mercado. Por vezes, não tão competentes assim. Porém, a busca pelo resultado desportivo imediato, numa altura em que o desporto servia, sobretudo, como instrumento de propaganda, deu aos dirigentes a possibilidade de acenarem a quem quisessem com propostas financeiras irrecusáveis.

Às gerações actual e vindoura, estes gestores desportivos ficarão eternamente em dívida. Porque, política à parte, o dinheiro foi dado como provavelmente não mais acontecerá nos próximos 50 anos e o seu aproveitamento não esteve direccionado para projectos sólidos, capazes de assegurarem uma base de sustentação do desporto nacional. Essa função não era dos políticos, mas dos homens que, no terreno, dirigiam as operações.

No essencial, Angola vai pagar por ter construído (???) um sistema desportivo a partir do topo: orgulhamo-nos de dizer que temos alguns dos melhores pavilhões do Mundo, mas não há quadras básicas nas escolas, onde deve iniciar a actividade desportiva. O paradoxo estende-se aos ditos “estádios de futebol do primeiro Mundo”, em contraste com a inexistência de campos nas escolas e a eliminação dos recintos municipais a favor de actividades estranhas ao desporto.

Em rigor, a estratégia definida implica ter os praticantes nascidos já prontos para o Alto Rendimento, não havendo necessidade de investir precisamente aí, onde deve(ria) residir a principal linha de actuação do Estado: na promoção do desporto infantil, em grande escala e para todos, retirando da quantidade a qualidade. Curiosamente, ouvimos todos os dias os mesmos dirigentes gabarem-se de que, no seu tempo, praticavam vários desportos nas escolas, daí terem chegado à excelência.

Mas voltemos ao visitante intermitente William Voigt, que foi passando por Angola com convocatórias via WhatsApp e sem tempo para assistir a competições nacionais. Um milhão e quinhentos mil dólares americanos estão muito acima da estrutura de custos de programas sérios de formação desportiva, mesmo em nações do primeiro Mundo. Realisticamente falando, não temos o direito de gastar tanto por tão pouco.

Provavelmente, poderíamos, com este dinheiro, construir uma centena de quadras de basquetebol nas escolas e oferecer uma perspectiva de carreira desportiva a milhões de jovens angolanos, afastando-os da delinquência e capacitando-os a entrarem nas melhores competições do Mundo, garantindo até retorno financeiro ao país.

Se juntarmos este valor ao que foi pago a outras dezenas de treinadores estrangeiros, veremos a dimensão do crime que se cometeu contra o desporto nacional e, por arrasto, contra o país. Para já, no primeiro lugar da lista de clubes suspensos pela FIBA Mundo, por incumprimento, está uma marca angolana, o Recreativo do Libolo. Não pudemos ainda aferir ao certo as consequências do processo Voigt, em termos documentais, junto da entidade que rege o basquetebol mundial.

Mas a novela que agora começa deve ser o mote para fazer acordar a família desportiva para a realidade nua e crua. Angola sairá muito mais pobre da Pandemia do Covid-19. E isso vai implicar menos dinheiro para o desporto, sendo essencial assegurar que os parcos recursos sirvam, de facto, a actividade desportiva.

Chegou à altura de ponderar seriamente a possibilidade de não pagar estas dívidas. Ainda que isso implique manter as equipas fora das competições por tempo determinado! Em algum momento, teremos que fazer desporto de maneira racional e as instituições devem dar o corpo ao manifesto, ao invés de se esconderem de forma recorrente.

Se o Ministério da Juventude e Desportos fez sair um instrutivo, orientando às federações a cingirem - se aos valores atribuídos pelo Orçamento Geral do Estado, quem deveria fiscalizar o cumprimento desta medida? Será que William Voigt orientou a selecção sem contrato de trabalho, que tem de ser, necessariamente, autorizado pelo Minjud?

É, definitivamente, chegada a hora de fazer o desporto como deve ser feito, sem máscaras. Assumir que, com mais ou menos curvas, quase todo o dinheiro que sustenta o desporto vem do Estado. Logo, este, por via das instituições que o representam, está obrigado a assegurar, ao menos, alguma equidade na distribuição destes recursos, para salvaguardar o equilíbrio das competições, que é, em última análise, a alma do desporto.

Esta nova era deve começar por um diálogo sério entre os Ministérios da Educação e o da Juventude. Porque ambas as instituições são do Estado e a área do desporto, caso esteja interessada em fazer bem o seu trabalho, não pode ficar impávida e serena. Sobretudo, quando, ao nível da Educação, se fala insistentemente numa monodocência, que entrega os potenciais desportistas do futuro, na sua principal etapa de aprendizagem dos gestos técnicos, ao professor de Aritmética ou de Estudo do Meio, subalternizando, claramente, os especialistas de Educação Física.

Sem qualquer pretensão de rebaixar professores doutras disciplinas, há que assumir a falta de preparação para detecção de talentos, desenvolvimento das qualidades motoras das crianças e capacitação das mesmas para futuras aprendizagens de âmbito técnico, nas idades em que as crianças têm maior propensão para as assimilar. Trata-se de um trabalho exclusivo para professores de Educação Física, tal como a cirurgia é para os cirurgiões e não para o Otorrinolaringologista ou para o Oftalmologista, embora sejam todos médicos.

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