Desporto

“Clubes e federações devem definir as suas prioridades”

António Júnior

A Covid-19, pandemia que está a mexer com o Mundo, provocou um facto inédito no futebol nacional. A época 2019/2020 fica marcada pela anulação dos campeonatos nacionais da I e II divisão, numa fase em que as competições caminhavam para a sua recta final. Sem vencedores e nem vencidos, a Federação Angolana de Futebol (FAF), ratificou em comunicado o que os clubes decidiram em reunião.

Fotografia: Paulo Mulaza | Edições Novembro

Oliveira Gonçalves, antigo seleccionador dos Palancas Negras, com passagem pelas selecções dos escalões de formação e alguns clubes do futebol nacional, actual vice-presidente para o futebol do Santos FC e comentarista desportivo da DSTV África, é uma voz autorizada para falar do cenário imposto por esta doença que está na boca do planeta, e as suas envolvências.

Com saudades de voltar a sentir o cheiro da relva, o técnico que conta já com duas presenças inéditas em fases finais de Campeonatos do Mundo, Sub-20 (Argentina 2001) e sénior (Alemanha 2006), promete regressar aos campos, “mas desde que seja para dirigir um grande projecto, quer seja de clube, quer de uma selecção”, esclareceu.

“O meu grande sonho é qualificar os Sub-23 aos Jogos Olímpicos. Estive quase a concretizar este objectivo, mas acredito que se voltar a ter oportunidade de orientar esta selecção tenho fé que chegaremos lá”, disse confiante.

Reservado em relação ao futuro da modalidade no país e não só, face ao actual momento que se vive, como consequência da pandemia que assolou o planeta, alertou para a necessidade de os clubes e federações definirem prioridades face a este grande desafio.

“Estamos numa situação extremamente difícil, criado por um ambiente que praticamente ninguém dominava, razão pela qual todos os campeonatos foram interrompidos e, bem interrompidos”, salientou, antevendo dias complicados.

“O que vai acontecer no futuro não podemos prever, mas como homens ligados ao desporto temos de estar atentos a esta situação e definirmos prioridades. Do ponto de vista financeiro, os clubes vão começar a ter problemas e, os atletas em função dos seus projectos económicos e sociais, também terão”, destacou.

Revelou que apesar do quadro preocupante, “ acredito que se estivermos juntos e pensarmos em conjunto podemos arranjar formas de superar esta situação. Antes de mais, temos que estar atentos à pandemia e fazermos tudo para bani-la do nosso seio”, aconselhou.
O ex-seleccionador reconhece que se antes da Covid-19 a situação de alguns clubes já era preocupante, “agora temos que pensar rápido, ser inteligentes e dinâmicos na forma de agir. Se tivermos todos juntos, vamos encontrar soluções para superar esta fase complicada”, sublinhou.

Alertou que o Estado, como principal patrocinador do desporto, do ponto de vista financeiro não está bem. "Por isso, algumas rubricas estão a ser revistas”, recordou, para depois alertar:“os clubes vão ter que reprogramar tudo de novo, já que isso vai se reflectir também na respectiva gestão”, alertou.
Falando propriamente do futebol, que considera ser a sua praia, Oliveira Gonçalves critica os moldes actuais de disputa do Girabola e justifica a sua posição pelo facto de a situação que se vive actualmente poder influenciar na desistência de algumas equipas.

“Acredito que nos próximos tempos, se mantermos os moldes actuais de disputa do Girabola corremos o risco de termos um campeonato extremamente reduzido, porque são poucos os clubes que têm condições de disputarem um campeonato nos moldes actuais. Se quisermos manter o futebol temos de partir para uma competição por séries”, enfatizou.

O treinador de 63 anos de idade e com uma folha de serviço digna de registo defendeu que “uma competição por séries movimenta mais atletas e havendo quantidade, haverá qualidade e consequentemente jogos de qualidade. Os jogadores do ponto de vista competitivo vão estar bem e o seleccionador nacional da quantidade vai poder extrair qualidade”, revelou.

Liga de clubes precisa-se

Como as dificuldades forjam os homens, a criação da Liga de Clubes em Angola para assumir a responsabilidade de organizar o principal campeonato nacional de futebol e defender o interesse dos seus filiados, retirando assim o peso à FAF, seria alternativa para colmatar as dificuldades que se prevêem.

Volvidos 45 anos de independência, a verdade é que a intenção não sai do papel. O antigo seleccionador nacional lamenta o facto e diz que “faltou acutilância das pessoas que dirigiram a Federação ao longo desses anos todos. Há muito que devíamos ter reunidas estas condições, e libertaríamos de certo modo a FAF”, reiterou.

Oliveira Gonçalves apontou como exemplo, países com menos percursos no continente e no mundo, mas as suas competições nacionais são geridas por uma Liga. “Lembro-me que após a nossa qualificação ao Mundial da Alemanha fui homenageado na Guiné-Bissau e naquela altura eles já tinham uma Liga, o mesmo acontece com Moçambique”, salientou.

“Para a nossa realidade, a FAF ficaria apenas com o Campeonato da II Divisão, as provas de juvenis e juniores, e libertava-se da principal prova de sénior. Com a criação da Liga, a direcção constituída iria à busca de alguns patrocínios.

É preciso salientar que temos aquilo que Moçambique e a Guiné-Bissau não têm”, avançou.

Recordou que o facto de a maioria das equipas do Girabola serem patrocinadas por instituições estatais terá contribuído para este relaxamento, mas o quadro actual exige a inversão urgente da situação.

Elogia a iniciativa da Zap e diz que foi um grande passo. “Agora é preciso dizer que se a Zap, se assume do ponto de vista económico como um dos mais fortes para apoiar os clubes, seria importante depois arranjar-se mais patrocínios”, frisou.

Em jeito de remate final admitiu que houve “negligência de todos nós que estamos no futebol, se não hoje já teríamos uma Liga, porque há países do ponto de vista económico com menos recursos que Angola e têm uma Liga Profissional”, confirmou.

“O vencedor de eleições na FAF deve ter o respaldo do Estado”Numa altura em que os três candidatos assumidos à presidência da FAF para o quadriénio 2020/2024 começam a preparar argumentos de razão para convencerem o eleitorado (clubes e APFs), Oliveira Gonçalves decidiu não entrar em campo para a disputa do assento ao cadeirão máximo do órgão reitor do futebol nacional, pois “não quero ser apenas mais um”, precisou.
O facto de muitos apresentarem bons projectos nas campanhas, mas na hora da sua execução, zero, mereceu o repúdio do técnico. “No meu ponto de vista, se olharmos para trás e vermos aquilo que as pessoas, que por lá passaram fizeram, rapidamente chegaremos à conclusão que não fizeram nada de realce e não justificaram terem lá estado”, criticou.
“Diante da realidade actual, podemos concluir que não precisamos de um presidente na Federação, mas sim de alguém que recebesse o dinheiro do Estado e organizasse o Departamento das Selecções Nacionais. Comprava os bilhetes de passagem e tratava das questões dos passaportes. É isso que a Federação faz neste momento”, deplorou.
Em jeito de conclusão da sua avaliação recordou que “não há ninguém que passou pela presidência da FAF, que diga eu fiz isto e aquilo, salvo Armando Machado, que construiu uma sede e um hotel, que já serviu muito para as selecções nacionais jovens”, exaltou. Para os três concorrentes ao próximo pleito da Federação, Artur Almeida e Silva, (para continuidade), Nando Jordão ( intitulado como verdadeiro homem do futebol ‘VHF’) e Norberto de Castro (proclamado candidato do povo), Oliveira Gonçalves pede apenas seriedade e responsabilidade.
“Quem for eleito tem de ter um projecto bem conseguido e bastante ambicioso, e ter em certa medida o respaldo do Estado”, frisou. Apesar de reconhecer que o Estado não deve imiscuir-se na decisão dos eleitores, ainda assim defende que deve ter uma palavra a dizer, pois “na hora da verdade é o Estado que banca tudo”, precisou.

Ex-seleccionador contra presença nas Afrotaças

A forma inesperada como a época desportiva terminou, em função dos objectivos traçados pelos clubes, pode ter influência no comportamento e na estrutura mental do grupo de trabalho para os desafios seguintes.

Oliveira Gonçalves concorda que a anulação do Girabola Zap2019/2020, posição que considera a mais acertada, mas pode influenciar no comportamento e à estrutura mental de todo o grupo de trabalho na época seguinte.

“Sinto mais pelos dirigentes que põem o dinheiro do seu bolso, contudo, destaco o Petro de Luanda que liderava o campeonato, embora o 1º. de Agosto tivesse um jogo a menos e numa altura em que estava a subir bem”, avaliou.

Sem retirar mérito ao desempenho das outras equipas, diz que o Petro é a que poderá ressentir mais da anulação da prova.

“Já não ganha o Girabola ao longo de muitos anos e estava bem lançado, mas não devemos nos esquecer que o 1º de Agosto tinha como meta o tão almejado penta, e estava na luta. Contudo, foram os clubes que decidiram pela anulação da prova, uma atitude digna de louvor”, recordou.

Em função do quadro actual e a incerteza quanto à extinção ou erradicação da Covid-19, o nosso entrevistado em defesa do bem mais precioso que é a vida, aconselha as equipas angolanas a não participarem nas competições africanas, ainda que tenham de ser penalizadas nos próximos anos.

“Estamos em África e quem conhece o nosso continente sabe das condições hoteleiras, alimentação e de transporte. Não vamos comparar com a Europa, porque são realidades diferentes e com outras condições. Agora, tudo depende dos clubes, mas para defesa do homem, acho que não devíamos participar”, afirmou.

 

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