Desporto

Eleições no futebol causam dispersão de inteligências

Honorato Silva

A presença de cinco candidatos nas eleições da Federação Angolana de Futebol (FAF), cuja data será marcada na Assembleia-Geral de 14 de Agosto, foi criticada por Miguel António “Kamuloji”, vice-presidente para o basquetebol do elenco cessante do Interclube, que considera dispersão de forças e de inteligências.

Miguel António reprova presença de cinco candidatos na corrida ao cadeirão máximo
Fotografia: Edições Novembro

Apontado como aposta de peso para a substituição de Alves Simões, na liderança dos “polícias”, o dirigente apelou, em entrevista à Rádio Cinco, à fusão de listas, de modo a ser criada uma direcção forte, a bem do crescimento da modalidade no país.
“Primeiro é preciso estabelecer um perfil. Pode parecer salutar, ter tantos candidatos, mas não é assim tão salutar. Cinco candidaturas acho que é muito. Para um país com um défice de dirigentes, porque ouço vocês, os jornalistas, dizerem que o elo fraco do nosso desporto é o dirigismo, não se pode permitir que numa federação apareçam cinco candidaturas. Isso é dispersão de forças e inteligência. Que haja no máximo três candidaturas.

As outras devem fundir-se. Acredito que depois umas vão desistir”, analisou Kamuloji.
Quanto à capacidade dos candidatos, Artur de Almeida e Silva, Nando Jordão, Norberto de Castro, Dino Paulo e António Gomes “Tony Es-traga”, sem apontar a preferência, apostou na continuidade do trabalho.

“Um ou dois, temos candidatos à altura. Sou a favor da conclusão dos projectos. Mesmo com algumas dificuldades, os homens do futebol deveriam continuar a apostar em Artur de Almeida. Fez um bom trabalho. Conseguimos participar em todas as competições. Vendemos uma melhor imagem a nível das organizações internacionais, fundamentalmente na FIFA. O seu presidente esteve cá e teceu grandes considerações sobre a nossa Federação. Isso tudo são sinais positivos, de que nós angolanos, amantes do desporto, devemos nos orgulhar”.

Limites estatutários

Ágil a evitar a abordagem da provável corrida à presidência do Interclube, Miguel António estendeu a mão à palmatória:
“Sou dirigente e aceito, sem azedumes, a crítica feita aos dirigentes desportivos. Enquanto subalternos, temos limitações consagradas nos estatutos. A nossa intervenção depende da liberdade que as lideranças nos dão. Por vezes somos sacrificados porque fazemos parte de uma determinada estrutura. Mas, em qualquer organização desportiva, ou instituição, a responsabilidade do líder tem muito a ver com os passos que são dados”.

A falta de compromisso é outra pecha do dirigismo desportivo, identificada pelo antigo basquetebolista dos Dínamos de Benguela, que tem um percurso de quase três décadas no comando do Interclube.
“Não diria só as lideranças. As organizações desportivas no seu todo. As pessoas não são críticas. Fecham-se. Têm receio. Preferem preservar a relação que têm, a fazer esse exercício, que é benéfico para a estrutura. Pesam que serão conotadas. Por vezes, quando temos a coragem de abordar as coisas e chamá-las pelo verdadeiro nome, somos mal interpretados. Mas isso é em todos os sítios. É preciso termos a coragem de dizer. Tem a ver com os processos que se vão consolidando. Estamos numa fase de consolidação da própria democracia, das liberdades fundamentais e liberdade de expressão”.

Actividade desportiva pode regressar sem pressa

Kamuloji defendeu que o re-gresso aos treinos e às competições oficiais, previsto para o sábado passado, 27 de Junho, pelo decreto presidencial que regula a situação de calamidade pública de combate à pandemia da Covid-19, tem de ser feito sem pressa.

“Não adianta tentar imitar outras realidades, quer a nível da América quer da Europa, fundamentalmente nos países desenvolvidos. Querer retornar muito rapidamente à actividade desportiva. As razões são totalmente diferenciadas das nossas. Enquanto eles têm uma indústria desportiva, nós não temos. O nosso desporto não está industrializado. Não estando industrializado, não há necessidade”, argumentou.
O dirigente reforçou a ideia de precipitação sustentada pela falta de condições de biossegurança, nomeadamente a capacidade de testagem de todos os elementos dos clubes, desde os atletas ao pessoal de apoio.

“A sobrevivência dos intervenientes no desporto desses países é totalmente diferente de Angola. Eles têm de retornar, porque os próprios estados beneficiam da actividade desportiva, através das receitas fiscais, ao passo que em Angola não há essa pressão. Mesmo sem competição, estamos a pagar na mesma. Com ou sem desporto, os clubes vão continuar a pagar. Os meios de financiamento dessas estruturas desportivas não têm nada a ver com o rendimento proveniente da exploração da imagem no desporto”.

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