Desporto

Festa das Raposas do Deserto a contragosto dos anfitriões

Honorato Silva| Cairo

A contragosto dos Faraós, que falharam em casa a conquista do oitavo título, eliminados logo a seguir à fase de grupos, a 32ª edição da Taça de África das Nações em futebol terminou sexta-feira, no Estádio Internacional do Cairo, com a consagração da Argélia, pela segunda vez, mercê do triunfo (1-0) sobre o Senegal, 29 anos depois da estreia na galeria dos campeões.

Argélia sagra-se campeã africana pela segunda vez, depois de 29 anos, altura que conseguiu o seu primeiro título
Fotografia: DR

Pela rivalidade que travam com os argelinos, os egípcios, presentes em grande número para prestigiar a final, que teve mais de metade da lotação ocupada, prometeram e efectivaram o apoio aos Leões da Teranga, beneficiados ainda do facto de terem no plantel Sadio Mané, colega de Mohamed Salah no Liverpool de Inglaterra.
Logo, houve um sentimento de tristeza partilhada, enquanto as Raposas do Deserto davam largas à alegria. Os números da prova dizem que o troféu - até então em posse dos Camarões, que confiou a devolução a Samuel Eto’o, craque muito ovacionado na noite de gala -, teve um justo vencedor, como seria igualmente o Senegal, se a sorte não tivesse sido orientada, ainda na madrugada do jogo, para o lado do adversário.
Aos 43 anos, Djamel Belmadi alcançou, nas vestes de treinador, o feito que muito perseguiu como atleta, suportado por uma disciplina de grupo, que faz do individual um recurso acessório, na busca do sucesso, cuja chave, segundo o seu conceito, é a força do colectivo.
Em sete desafios realizados na Taça das Nações, aberta a 21 de Junho, a selecção argelina alcançou seis vitórias e um empate, numa relação de 13/2 entre golos marcados e sofridos, registo que garante a distinção como o melhor ataque e defesa. A acompanhar a cereja no topo do bolo, o troféu, Ismael Bennacer foi eleito “Jogador Mais Valioso” da prova.
O mesmo reconhecimento seria justo ao Senegal de Aliou Cissé, treinador que partilhou a infância e a adolescência com o homólogo argelino, em França. Cinco triunfos, duas derrotas, oito golos marcados e três sofridos são números de que se podem orgulhar os senegaleses, certos de que estão sólidos entre os colossos africanos, embora as vitórias morais sirvam pouco de consolo para quem perde, sobretudo quando o golo resulta de uma infelicidade do guarda-redes.
Entre os consagrados, destaque também para Odion Ighalo, avançado da Nigéria, medalha de bronze, que chegou aos cinco golos, no jogo de decisão do terceiro lugar, frente à Tunísia, e assegurou a distinção como “Melhor Marcador”.
As Super Águias lançaram Samuel Chukwueze, avançado de 20 anos do Villarreal de Espanha, revelação do CAN que terá marcado a despedida de John Obi Mikel da selecção.
Digna de elogios foi a prestação do estreante Madagáscar, talvez impulsionado pelo facto de ser a pátria de Ahmad Ahmad, presidente renovador da Confederação Africana.
Os Barea, orientados pelo francês Nicolas Dupuis, puseram a render o seu projecto de desenvolvimento de talentos, executado em França, com a particularidade de terem tido o número um da estrutura do Estado malgaxe, Andry Rajoelina, à testa dos adeptos.

Anfitrião lidera lista das apostas

Anfitrião pela quinta vez, o Egipto ficou aquém do prometido no Grupo A. Nem as três vitórias alcançadas na primeira fase, diante do Zimbabwe (1-0), Congo Democrático (2-0) e Uganda (2-0) mascararam a falta de aprumo competitivo dos Faraós, para cometimentos do grau de exigência da conquista do título.
A equipa armada pelo mexicano Javier Aguirre, despedido após a eliminação frente à África do Sul, tentou esconder-se no talento de Salah, estrela que chegou à prova caseira com baixas reservas de energia. Como consequência do fracasso nos oitavos-de-final, o elenco directivo da Federação demitiu-se em bloco.
Fim de ciclo foi repetido nos Camarões, dado o facto de os Leões Indomáveis terem terminado a defesa do troféu na primeira barreira depois da fase preliminar. O holandês Clarence Seedorf, antiga estrela do AC Milan de Itália, deixou o comando da selecção que desembarcou no Cairo com muitas discussões, por atrasos de premiação, e poucas certezas no êxito da campanha.
Na hora do balanço, importa olhar para a presença de Angola, afastada da segunda etapa do Africano por incapacidade de fazer os serviços mínimos, que passavam por não perder diante do Mali, na última jornada do Grupo E, numa altura em que a África do Sul, no hotel, estava convicta de que a última vaga dos quatro melhores terceiros seria dos Palancas Negras.
No entanto, a instalação de um clima de desconforto no balneário fez cair a imagem de união apregoada pela Federação. Estão todos convidados para o reencontro em 2021, nos Camarões.

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