Desporto

“Para mim, fazer golos é uma questão de hábito”

Honorato Silva

A distância de casa para o ex-RI-20 e as constantes cobranças da mãe fizeram o pequeno Jacinto Muondo Dala, na altura com 12 anos, abandonar, em 2008, os iniciados do 1º de Agosto.

Craque angolano forjado na cantera rubro e negra tem tido um início de época eficaz

Regressou quatro anos depois, já nos juvenis, sob a batuta de Filipe Nzanza e António Neto. Não tardaram os co-mentários a respeito do avançado franzino, irmão de Elísio Mundo, o lateral direito da fita branca na cabeça, notabilizado nos rubro e negros. Assim surgiu Gelson, o goleador que despontou nos escalões jovens do clube e das selecções nacionais. Hoje dá cartas na I Liga de Portugal, ao serviço do Rio Ave, cedido pelo Sporting.       
A estreia nos Palancas Negras, há três anos, frente à República Centro Africana, no Lubango, é lembrada com grande satisfação. “Foi bastante feliz. Fiz dois golos, com a ajuda dos colegas. Na altura tinha o Gilberto como “capitão”, jogador bastante experiente. Recebi muito carinho e confiança dos colegas, antes do jogo. Mereci a confiança do professor Ro-meu Filemon”.
No registo habitual, curto no verbo, considera normal o momento que atravessa na Selecção, por ser fruto do trabalho e da  dedicação. “Penso trabalhar sempre para dar o meu melhor e ajudar o grupo a ganhar jogos. É por isso que estou aqui”, disse o avançado, que valoriza o aprendizado no 1º de Agosto.
“No primeiro ano, nos seniores, fiquei sem jogar, por razões administrativas. Mas no segundo, tive a mi-nha oportunidade num jogo, acho que no 11 de Novembro. Entrei para aproveitar alguns minutos. Depois tive mais minutos. Fui fazendo golos. Hoje estou aqui. Esse processo todo no 1º de Agosto foi determinante”, lembrou.
A presença na Selecção, “é para mim o concretizar de um sonho de cri-ança. As referências eram Akwá e muitos outros. Como o Gilberto e o Flávio, que honraram a camisola da equipa nacional. Hoje estou feliz, por representar os Palancas Negras”.
O facto de fazer parte de uma família de futebolistas ajudou a inserção no futebol. Elísio Mundo é como um espelho para Gelson e os ir-mãos, como é o caso de Melono.
“A minha ida ao 1º de Agosto foi a conselho dele. Foi ele quem me levou para o clube. Hoje estou muito feliz. Terminou a carreira. Agradeço muito tudo que fez por mim. Esteve vários anos no 1º de Agosto. Também teve bons momentos e foi campeão. Estou feliz por isso”.
A cultura táctica é, para o goleador, um dos maiores obstáculos na adaptação dos jogadores angolanos ao futebol europeu. Como avançado, tem de ter preocupação não só com o ataque, mas também com a defesa.
“Nos últimos jogos tenho aprendido muito. Trabalho bastante nos treinos. A minha adaptação foi difícil. Quando fui, estive com o Ary. Nos sentíamos muito sós. Ao longo do tempo fomos fazendo amizade com os colegas. Encontrámos jogadores angolanos, na equipa B do Sporting. Isso também ajudou na nossa adaptação”, partilhou.  
A aposta na formação pode esbater as diferenças. “A aprendizagem da táctica começa mesmo na base. Quando cheguei não tive tanta dificuldade, porque sou avançado. O primeiro defensor, mas tenho limites para baixar no terreno. Tam-
bém não posso recuar tanto. Temos os bons exemplos em Angola. A Academia do 1º de Agosto, que tem feito um bom trabalho, e outras. Se começarmos a desenvolver esse trabalho aqui, vai facilitar o entrosamento, numa eventual mudança para a Europa”.
Gelson tem recebido muito apoio dos adeptos, que se mostram satisfeitos com o desempenho no Rio Ave.
“O povo angolano  espera sempre algo de nós. Tenho procurado corresponder da melhor maneira possível. Fazendo golos e boas exibições. Recebo muitas mensagens e telefonemas a encorajar”.
A abundância de talentos é, defende o ponta-de-lança, um argumento de peso para a transferência de futebolistas angolanos, “porque temos bons jogadores. Agora, na parte administrativa, temos de ter pessoas que encorajem. Que tomem a iniciativa de levar os jogadores para lá. Estamos em condições de colocar mais atletas no estrangeiro”.
Confrontado com a já recorrente reclamação de falta de homem golo no futebol angolano, Gelson foi peremptório: “Para mim, fazer golo é uma questão de hábito. Isso começa nos treinos. Aquele querer, aquela vontade. Qualquer bola, mesmo a brincar, empurro para a baliza. É assim que os avançados devem pensar e trabalhar. Em cada jogo que faço, primeiro está a equipa. Se estivermos todos unidos, trabalhar com o mesmo objectivo, podemos lá chegar. O meu pensamento é fazer golo”.
Quanto ao apuramento para o CAN, o jogador do Rio Ave considera que depende de Angola. “Começámos a campanha com outra equipa técnica, mas o foco foi sempre o mesmo. No meu caso, procuro fazer o que melhor sei. Divertir-me a jogar, independentemente do treinador”.
O desempenho no Rio Ave, pelo qual já marcou três vezes na Liga, pode abrir as portas para outros voos na Europa. “A minha preocupação é ajudar a equipa. Temos um objectivo. O clube sempre me recebeu bem. Jogadores e dirigentes ajudaram-me na adaptação. Começámos bem o campeonato. Em sete jornadas, estamos entre os cinco primeiros. Quanto ao salto para outros palcos, tudo depende do trabalho. Se as coisas continuarem assim, com golos e bons resultados, penso que a mudança se pode concretizar”.
 Gelson deixou de estar sozinho em Portugal. Tem a companhia da mulher e do filho. Nos tempos livres, sai um pouco com a família, mas gosta de ficar em casa, com a família e amigos. “Nas folgas, passo o dia todo a ver jogo. A minha esposa reclama muitas vezes, porque quer sair. Só que prefiro o ambiente caseiro”.

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