Desporto

Ndungidi aponta caminhos para a melhoria do futebol

Honorato Silva

Para muitos o melhor futebolista angolano pós-Independência, Ndungidi Gonçalves Daniel, entrevistado pela Rádio 5, abriu o coração para falar da saúde, do 1º de Agosto, dos Palancas Negras e das transformações registadas na modalidade no mundo.

Antiga estrela do 1º de Agosto e da Selecção Nacional tem recebido o reconhecimento como uma das referências do futebol pós-Independência
Fotografia: EDIÇÕES NOVEMBRO

Dado como gravemente doente, a antiga estrela dos militares e da Selecção Nacional procurou tranquilizar os fãs e admiradores: “Estou bem de saúde, graças a Deus! Quero aqui fazer um apelo ao indivíduo que divulgou a notícia de que estou muito mal e que preciso de ser evacuado para o exterior. Sofro de diabetes. Uma doença terrível, que mata silenciosamente. Já estou com essa doença há oito anos. A minha filha é médica e compra-me os medicamentos. Faço as consultas no Hospital Militar. Tenho a glicemia controlada. A minha alimentação. Todos os sábados faço a minha caminhada, na Ilha de Luanda. Estou bem!”
Ndungidi apelou para a responsabilidade, dado o impacto da notícia, que atingiu muita gente. “Os meus familiares, os meus filhos. Todos ficaram preocupados. Isso não se faz. Não gostei. A pessoa que ligou para mim, falou comigo ao telefone. Não me viu. Foi uma notícia que me deixou muito desagradado, e espero que não volte a acontecer. Está tudo sob controle.”
Sempre com o clube rubro e negro no coração, o tricampeão, como jogador, e duas vezes no comando técnico, lembrou o seu percurso futebolístico, desde a passagem pelo Benfica e FC Luanda, no período colonial. “Após a Independência tornei a fazer a minha carreira no Luanda, e depois fui para o 1º de Agosto. Não tenho como me dissociar do 1º de Agosto. Eu sou o 1º de Agosto. Não sou do 1º de Agosto. Foi o clube que me lançou. Hoje sou o que sou, graças ao 1º de Agosto”.
Peremptório, Ndungidi Daniel disse que não tem razões de queixas, quanto a apoios. “O presidente Carlos Hendrick tem sido uma pessoa... Sei lá! Não tenho como classificar. Foi ele quem me recuperou, quando estava socialmente muito em baixo. É uma pessoa extraordinária. Quero agradecer a ele, através dos canais da Rádio Cinco. É um grande presidente. Recuperou o clube. Vocês não imaginam o que era o 1º de Agosto. Há pessoas que tinham vergonha de ser do 1º de Agosto. Hoje todo o mundo quer ser do 1º de Agosto. Isso fruto do trabalho que o presidente fez no clube. Principalmente na criação de  infra-estruturas. O 1º de Agosto não tinha nada. Era um gigante, mas adormecido”.

Pés de barro

Para o ídolo dos militares, a imagem recente da agremiação era de um gigante com pés de barro. “Hoje é mesmo um colosso. Recuperámos a hegemonia do futebol e o nosso estatuto como grande no futebol angolano. Sem medo de errar, o 1º de Agosto é um Benfica de Lisboa em Angola. Estou feliz. Só fiquei triste agora nesta eliminatória com o Esperance de Tunis. O clube cresceu muito. Em todas as vertentes. É de dar os parabéns ao presidente de direcção e ao seu elenco. Hoje só se fala do 1º de Agosto. Conseguimos acabar com a hegemonia do Petro. O Petro era o maior papão”.
O bom desempenho dos agostinos reflecte-se, afirmou Ndungidi, também no surgimento de novos valores para os Palancas Negras. “Gostei do jogo frente ao Burkina Faso. A Selecção jogou bem. Quero dizer de  viva voz, a importância de exportarmos jogadores. Vi a jogada do Gelson, no primeiro golo. Aquilo é fruto do trabalho no futebol na Europa. Vê-se que já é outro jogador. Já não tem nada a ver com o nosso Girabola. Já está moldado ao futebol europeu. Com isso ganham as selecções dos países que mais exportam jogadores para a Europa. A Selecção melhorou muito. Mas ainda tem de melhorar mais”.

 “Encarar o jogo com o Botswana como uma final para ganhar”

A última jornada do Grupo I, que já tem a Mauritânia apurada, é decisiva para a equipa nacional. “Precisamos de ganhar ao Botswana, em Março, para nos apurarmos. Angola tem de fazer sempre parte dos CAN.
Das competições importantes em África. Só assim é que há o respeito. Isso também afectou o nosso jogo com o Esperance de Tunis. Se o 1º de Agosto fosse um habitué, como o TP Mazembe, teria eliminado o Esperance. Temos de nos impor em África e depois no mundo. Esse último jogo temos de encarar como uma final. Quem vai à final é para ganhar”.
Algo desligado do Campeonato Nacional, Ndungidi caracterizou o estado da modalidade em Angola: “Acompanho os jogos do 1º de Agosto. Mas o Girabola caiu muito. Há poucas equipas competitivas. Só tem quatro ou cinco equipas que são competitivas. As outras têm um nível técnico e táctico muito baixo. Hoje, se os jogadores não dominam esses itens, é muito difícil jogar futebol.”
Em jeito de conclusão, a maior referência dos rubro e negros apontou a formação como o segredo do sucesso.
“Tu sabes quem foi o último craque do futebol angolano? Foi o Abel. Essa é a minha opinião. De lá para cá já não apareceu nenhum craque. As pessoas vão dizer que estou a exagerar. Mas é a verdade. É a minha opinião. Isso tem de preocupar as pessoas que regem o nosso futebol. Temos de ter um craque. Por isso é que os estádios ficam vazios. O futebol é um espectáculo rentável. Não vou ver um artista de nível médio. Um Bonga, um Michael Jackson, aquilo enche. E hoje o público é muito exigente. É uma pena ver o 11 de Novembro às moscas. Não pode! Aquele estádio foi feito para estar lotado. Em todos os sectores da vida o importante é a base”.

PERFIL

Nome: Ndungidi Gonçalves  Daniel 

Naturalidade: Buco Zau (Cabinda)

Data de nascimento: 13 de Outubro de 1956

Comida preferida: Funje de milho (molho variado)

Bebidas: Vinho

Tempos livres: Navegar na internet sobre temas variados como política, desporto e entretenimento.

Cantor preferido: Augusto Chacaya, uma referência dos Jovens do Prenda.

Conquistas como atleta: Campeonato nacional em 1979, 1980 e 1981.

Troféus como treinador: Bi-campeão nacional (1998 e 1999) e três vezes vencedor da Supertaça (1998, 1999 e 2000), e 1996 (campeão do Girabola, como adjunto de Mário Calado).

Internacionalizações: Oitenta, num percurso entre 1976 até finais da década de 1980.

Equipas como jogador: Benfica de Luanda, FC de Luanda, 1º de Agosto e Petro de Luanda

Como treinador: Sonangol do Namibe (1992); 1º de Agosto (1999, 2000 e 2004); Desportivo da Huíla (2003); Sporting de Cabinda (2007) e Progresso Sambizanga (2010)    

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