Desporto

“No nosso conceito de jogo ninguém é superior a nós”

Teresa Luís

Após jejum de cinco anos, o Petro de Luanda reconquistou o título, o 24º da história, Vivaldo Eduardo, coincidentemente há 24 anos no comando, aborda as contrariedes ultrapassadas.

Fotografia: Jaimagens/Fotógrafo

Após cinco anos sem vencer o Campeonato Nacional, qual foi o segredo da conquista do título?
O trabalho. Nas últimas cinco competições da presente época vencemos quatro. O objectivo é recuperar todos os títulos principais. Entendemos que ficam melhor com o Petro. Em termos pessoais, quero estar à vontade para sair, mas deixar a equipa com os troféus que sempre teve.
 
Falou em sair.....Pensa deixar o comando técnico do Petro?
Sim. A actividade de treinador é muito desgastante. Pode não ser no imediato, mas tenho a perspectiva de explorar outros horizontes.
 
Quais foram as dificuldades na conquista do troféu?
Foi difícil controlar os factores externos. Precisámos de esconder o jogo. Apostámos que iríamos jogar a final, e fizemos uma preparação direccionada para o 1º de Agosto. Criou-se a ideia de que não estávamos a jogar nada, mas  jogámos o quanto bastava.  Nenhum jogo fugiu do nosso controlo. Manter a concentração competitiva foi a maior dificuldade. Na final algumas rotinas não saíram tão bem. O 1º de Agosto conhece a nossa dinâmica, e sabia que iríamos apresentar algum factor surpresa.

E no jogo da final?
Conseguimos manter o equilíbrio até à ponta final. Chegámos ao intervalo a perder por dois golos. Na segunda parte, entrámos com os mesmos índices de confiança. É verdade que num ou outro lance a sorte terá ficado do nosso lado, mas a sorte só protege os audazes. Disse às atletas: vamos estar sempre sete contra sete. Já enfrentámos búlgaras, cubanas e russas. Isso não nos intimida, às vezes até nos galvaniza.

Qual foi o trunfo?
Sabíamos que tínhamos 60 minutos para resolver o jogo. Guardámos as principais jogadoras para os últimos dez minutos, e disse-lhes: vamos ser campeões. Entraram para jogar no máximo do que podiam fazer, e assim conquistaram o título.
Temos um palmarés que, enquanto estivermos aqui, ninguém vai superar e estamos a fazer de tudo para manter a distância. Entendemos que temos mais "feeling", para ser os melhores de África...(risos).

Há atletas que se destacaram?
Sim. O treinador do 1º de Agosto tem a vantagem de conhecer as jogadoras do Petro, por ser o seleccionador. A andebolista mais decisiva é a central, no caso a Vilma Neganga. Por outro lado, é mais jovem e facilmente influenciável.
Então preparámos a Suzeth Cazanga para desempenhar as funções da Vilma. Fez parte da nossa estratégia. A Joana Costa tende a estabilizar; a Teresa Almeida "Bá" teve o seu rendimento habitual, que é fundamental para os nossos objectivos. Lançámos a Stélvia Pascoal e a Estefânia Venâncio.


Já está assegurada a participação na Taça dos Clubes Campeões?
A direcção já nos tinha garantido antes. Nós (atletas e equipa técnica) decidimos ir apenas na condição de campeões nacionais, de modo a motivá-las.
 
O plantel de que dispõe dá-lhe garantias, em termos de conquistas?
Não. Este é precisamente o encanto da nossa missão. A vitória não está garantida, mas é possível e basta haver uma mínima possibilidade, nos dedicámos a ela como se fosse a última coisa a fazer na nossa vida. Para o nacional, as meninas correram na Ilha, com treinos muito intensos e duros. Elas foram obstinadas, e aguentaram porque sabiam que o objectivo era grandioso. Infelizmente, os nossos adversários têm dupla ou tripla vantagem. O conceito de desporto entre nós é diferente.

A nível interno ou externo?  
Lá fora as coisas são iguais. Insistimos com a direcção em jogar fora, porque sabemos que há isenção. Jogamos com 50 por cento de possibilidade para cada equipa. O plantel pode ser reforçado ou não. O nosso adversário costuma tirar todas as atletas que nos podem reforçar. Algumas nem jogam. No nosso conceito de jogo ninguém é superior a nós, independentemente das jogadoras que tenham. Nunca nos resignámos.

Quando diz algumas jogadoras não jogam, a quem se refere?
Por exemplo, a Manuela Paulino. É uma jogadora de alto nível. Esteve na última selecção sénior. Sabemos que recebe salário, esteve fora do país, por conta de outrem. Ganha muito mais do que recebia no Petro. São essas situações de vantagem. A Manuela saiu para fragilizar a nossa capacidade competitiva.
 
Vencer com o plantel teoricamente inferior,  não inibe a direcção de fazer compras?
Felizmente estamos em sintonia. Posso dizer que temos carta branca da direcção para reforçar a equipa. O nosso padrão de exigência é muito elevado. Não vamos buscar uma jogadora, se não fizer uma grande diferença. É preciso procurar uma atleta de alta qualidade, e nem sempre é possível. Algumas não querem vir para África, falando do mercado externo. A nível continental muitas só fazem número, ou aumentam o leque de opções, e para estes casos contamos com as juniores e juvenis.

Neste caso, para que posto específico?
Praticamente todos os postos. Na maioria deles não temos duas jogadoras com nível equiparado. Ao longo dos anos, em que dominávamos as competições, apostávamos muito nisto e obrigava a cada uma delas a superar-se diariamente.

Tem feito pesquisas neste sentido?
Já começámos há muito tempo. É muito difícil, porque mesmo jogadoras com pouco tempo de utilização, às vezes não estão disponíveis, por motivos vários. Algumas estão vinculadas aos adversários, e temos o acordo de não agressão.

Já existe um plano de preparação para a Taça dos Campeões?
Sim. Se houver colaboração com alguns clubes, vamos reforçar alguns postos e recuperar melhor a Suzeth  e a Bá. Queremos manter a nossa divisa na Taça dos Campeões, onde a nossa meta é "ganhar ou ganhar".
Contam ainda com a pivô Edith Bunga?
Com certeza. Por nós ela já estaria a treinar, mas existem acordos e questões éticas a cumprir. A direcção em tempo oportuno vai tratar disso. A Edith é seguramente um bom reforço para nós.

Faz sentido afirmar, que a aproximação do Petro ao 1º de Agosto resulta do facto de Soubak estar ainda num processo de familiarização com o andebol angolano?
Não faço a mínima ideia. Por questões éticas não fica bem falar do treinador, com créditos firmados. Já nos ensinou muito em relação ao andebol, prevenção de lesões e treinamento. É  inquestionável a qualidade do técnico Morten Soubak. Jogámos várias vezes com os mesmos adversários. Eventualmente terá algum peso na aproximação em termos competitivos, mas também não é tão seguro. Agora a nossa  meta ficou mais ambiciosa. Não tem a ver com o mérito ou demérito do 1º de Agosto. É altura de verem também o mérito do Petro. Há uma boa cultura andebolística no clube, onde trabalham em conjunto três dos melhores treinadores do país. São poucas as agremiações onde isso acontece. Na maior parte dos casos guerreiam-se.

Fala de Edgar Neto e Luís Chaves?
E Vivaldo Eduardo, modéstia à parte, também deve ser um dos melhores...(risos). Temos qualidade. Os nossos vizinhos não percebem e se calhar podemos não ter. Mas, a nossa agressividade é determinante. Podem vir outros. Já tivemos aqui treinadores de alta qualidade, e não foi por serem maus que nós ganhamos.

PERFIL

Vivaldo Francisco Eduardo
Idade: 51 anos.

Habilitações
Formação Superior em Linguística Portuguesa, Professor de Educação Física e Master Coach.

Percurso
Treinador da BCR (1985), Leões da FTU (1992), Académica do Funchal - Madeira, Portugal (1993) Petro de Luanda (1994).

Selecções
Júnior e sénior feminina (até 2014).

Títulos
Africano de Clubes (17), Taça dos Vencedores das Taças (9), Supertaça Babacar Fall (19), Nacional sénior (18), Nacional de juniores (6), Campeão africano de selecções seniores e juniores
Taça de Angola (10) e a Supertaça “Francisco de Almeida” (6)

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