Desporto

Ricardino e Kikas põem fim à geração de Romero no basquetebol

Anaximandro Magalhães

Separados à nascença por um ano e 10 meses, mas envolvidos pela mesma paixão, o basquetebol, Vladimir Ricardino, 39 anos, e Joaquim Gomes “Kikas”, 37, terminaram de modo efectivo, ao colocarem ponto final nas respectivas carreiras (passado um ano), a geração de jogadores formados pelo malogrado técnico angolano de basquetebol, Wlademiro Romero.

Fotografia: DR

Kikas e Ricardino parti-lham em comum muito do percurso da carreira desportiva. Os “últimos sobreviventes” da era Romero começaram, embora em momentos distintos, no Petro de Luanda, e terminaram coincidentemente ao mesmo tempo no clube rival, o 1º de Agosto.
Caracterizado por ser ze-loso e exigente, qualidade elogiada por boa parte dos jogadores que consigo trabalharam, Gomes Kikas e “Vlad” Ricardino não destoaram e juntaram-se ao coro para qualificar o finado treinador.
Parcialmente distintos no trajecto desportivo, os dois ex-atletas continuam ainda assim atados à modalidade. “Kikas” abraçou o dirigismo nas vestes de director para o basquetebol dos “militares” do Rio Seco, e Ricardino é treinador adjunto do Desportivo da Marinha, equipa satélite dos agostinos.
“Foi muito difícil por ter sido o começo. Era muito jovem e não tinha noção das coisas. Uma das realidades que aprendi com o professor, por ser rigoroso e dedicado, foi o grau de exigência e de compromisso, e ainda hoje carrego isso. Amava o basquetebol. Ensinou-me muito e ajudou-me muito, também era amigo”, confidenciou Joaquim Gomes, antigo capitão do 1º de Agosto e da Selecção Nacional sénior masculina de basquetebol. 
Prosseguindo, assumiu: “Só tenho a dizer coisas boas. Foi o momento de ascensão da minha parte” Na memória guarda ainda algumas palavras ditas pelo seu mentor. “Disse-me apenas: treina, faz o teu trabalho e do resto cuido eu. Dedica-te e esforça-te.”
Por sua vez, Ricardino conta como foi a saída do Desportivo da Banca para o Petro, ainda nos seus tenros 15 anos: “Fui contactado e levado pelo treinador Diogo João. No mesmo dia fui apresentado ao treinador Romero. Não estava preparado para treinar e ele mandou darem-me um par de sapatilhas e comecei logo a trabalhar. Em seguida, disse-me não vais para casa, estás de férias na escola, portanto, tens muito tempo para treinarmos. Eu disse que tinha de regressar, porque a minha mãe não sabia de nada. Infelizmente, saiu para ir à Sonangol ter com os directores para tratar de assuntos da equipa, mas o ‘coach’ Diogo foi comigo e explicou à minha mãe”.
Continuando, “Vlad” revelou: “no segundo dia disse-me: tu vais ser como o Victor de Carvalho, vou fazer de ti um lançador, mas infelizmente igualar o Victor é algo muito difícil, tanto é que até hoje não há ninguém como ele. Mas evoluí bastante e não tinha como. A trabalhar com os ‘mais velhos’, como Benjamin Avô, Mário Belarmino, Benjamin Romano e Baduna, era impossível não crescer e melhorar.”.
Na mente, guarda e recorda o facto daquele ser “um treinador muito exigente. Com os juniores era muito mais ainda. Obrigava os jogadores adultos a controlarem-nos”.
A respeito da relação com “Kikas” o “benjamin” dos treinadores do BIC-Basket confessa conhecê-lo de ponta a ponta. Sempre tivemos contacto. Andávamos juntos, íamos a festas, à praia, entre outros sítios. Falar dele levaria muito tempo.” 

Feitos difíceis de igualar

Os feitos de Wlademiro Romero ao serviço da equipa sénior masculina de basquetebol do Petro de Luanda, de 1987 a 1999, continuam a ser um legado difícil de ser igualado e ultrapassado pelos seus sucessores.
Nos 12 anos à frente dos destinos dos “petrolíferos” do Eixo Viário, Wlademiro Romero que morreu dias após ter sofrido um acidente de viação, conquistou 18 troféus de distintas provas oficiais disputadas sob a égide da Federação Angolana de Basquetebol (FAB).
Chegado a um dos clubes mais consagrados do país em 1987, proveniente do Ferrovia, onde esteve durante sete anos, precisou de apenas um ano e meio para ganhar, em 1989, o primeiro dos seus oito campeonatos nacionais.
Metódico, o técnico bisou a satisfação em 1990, permitindo em 1991 que o seu arqui-rival, o também angolano Victorino Cunha, treinador do 1º de Agosto, ganhasse aque-le que seria o seu primeiro e último título da década de 90, depois das conquistas de 1981, 83, 85, 86, 87 e 88.
De 1992 a 1994, o Petro ganhou quatro campeonatos seguidos, números que permitiram a Wlademiro Rome-ro igualar o maior registo de conquistas alcançado por Victorino Cunha.
Em 1998 e 99, o treinador conquista os últimos campeonatos. Nos arquivos, Wlademiro Romero soma mais campeonatos ganhos no currículo.
O luso-guineense Mário Palma, pelos “militares” do Rio Seco, ficou-se pelos seis (2000, 01, 02, 03, 04 e 05. O luso-moçambicano Luís Magalhães, também pelos agostinos venceu três (2008, 09 e 10).
Na segunda maior prova do calendário de competições da FAB, o técnico soma seis dos 12 troféus das 33 edições já disputadas. 1990, 91, 94, 96, 97 e 98 são os anos de glória. Este título é o único desde a partida de Wlademiro Romero, igualado pelos diversos técnicos que se sentaram no banco: Nuno Teixeira (2000 e 2001), Raul Duarte (2004), Alberto de Carvalho “Ginguba” (2007) e Lazare Adingono (2013 e 2014).
Wlademiro Romero ganhou quatro Supertaças (1993, 94, 95 e 96). A prova, que marca a abertura oficial de cada temporada, passou a designar-se Wlademiro Romero após a sua morte.
A primeira medalha (pra-ta) conquistada por Angola num Campeonato Africano das Nações, Afrobasket, foi em 1983, na cidade de Alexandria, Egipto, com Wlademiro Romero no cargo de seleccionador nacional. Em 1995, em Argel, Argélia, o técnico venceu o Afrobasket e em 1996 disputou os Jogos Olímpicos de Atlanta, nos Estados Unidos da América.
Sem a maior referência do basquetebol nacional, o poste Jean Jacques da Conceição, falhou o ouro em Dakar, Senegal, em 1997 e abandonou o cargo.


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