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“Tinha entrado numa espiral negativa e não via a luz”

Depois da 12ª vitória no torneio de Roland Garros, o tenista espanhol Rafael Nadal admitiu numa entrevista ao “El País”, as dificuldades por que passou nos últimos meses, por causa das lesões, e confessa que pensou deixar de jogar.

Finais Masculinas Roland Garros
Fotografia: DR

“Há momentos em que temos que tomar decisões, e todos sabem o que me aconteceu nos últimos 18 meses. Se ao tema do joelho, que me foi dando problemas, somarmos todos os outros que me aconteceram, são demasiadas coisas. A certa altura, vamos seguindo em frente, mas chega a um ponto em que atingimos o fundo, porque é frustrante não ter a capacidade de treinar, nem de competir, para estarmos a um nível necessário”, afirmou, ao “El País”.
O tenista admitiu que sofreu uma quebra depois do torneio de Indian Wells (no qual desistiu nas meias-finais), e pensou em várias alternativas: “uma delas era parar durante uma temporada, para ver se o corpo regenerava um pouquinho, e deixava de ir de lesão em lesão; a outra era continuar em frente, mas precisava de o fazer com outra dinâmica, porque tinha entrado numa espiral negativa e não via a luz”.
Nadal explicou que precisava de “mudar o chip”, mas que isso não acontece de um dia para o outro. O seu ponto mais baixo, contou, foi depois de ganhar ao argentino Leonardo Mayer em Barcelona, em Abril, lembrando que não ficou satisfeito com a forma como competiu. Então prometeu: “Disse a mim próprio que ia estar com a atitude e a energia adequadas, aceitando os problemas para poder competir bem em terra batida”. O tenista considera que essa é “a parte mais bonita do ano”.
Em relação à sua quebra anímica, explicou que foi por causa da lesão no joelho e do tempo de recuperação. “Jogava com dor e isso é complicado. Nunca me cansei de sofrer no ténis, no campo, mas chega um momento em que estás cansado de sofrer de forma continuada.
No final, chega um momento em que ter dores é cansativo. E quando digo isto, digo mais além da vida desportiva, falo da vida real. Ter dores constantes é duro”, disse. Nadal admitiu que “precisava encontrar a minha força interior para continuar em frente” e que foi capaz de o fazer, lembrando também que está rodeado dos amigos e da família e que nunca se sentiu só.
“O que acredito é que nem quando ganho tudo é incrível, nem quando perco tudo é mau. Emocionalmente sou uma pessoa mais ou menos estável, com momentos melhores e piores, claro, mas não sou de ir muito acima nem muito abaixo. Estou num meio-termo que me ajuda normalmente nas coisas negativas que vão acontecendo e também as positivas”, referiu.
Sobre o deixar de ganhar e o fim da carreira, o tenista diz que “aos melhores da história, em qualquer faceta, chega o seu dia, como me chegará a mim. Comigo houve várias vezes que parecia que ia chegar, e no fim não chegou. Continuo aqui. Quando chegar o momento chegou, e as pessoas vão aceitar da mesma forma que aconteceu com todos”.

Espanhol nega obsessão pelo recorde de Federer

Cada vez mais completo em todos os pisos do ténis mundial, Rafael Nadal fez mais uma grande exibição em Roland Garros, no domingo. O histórico 12º troféu em Paris, uma marca nunca antes alcançada, tem forte importância também na luta pelo recorde de títulos do Grand Slam, possivelmente a estatística mais relevante da modalidade.
Pela primeira vez na carreira, o espanhol ficou a apenas dois títulos do suíço Roger Federer.
Na conta actual, Federer soma 20 troféus dos torneios mais tradicionais e importantes do circuito. Nadal já acumula 18. Mas estes números não são uma obsessão para o espanhol, garante o “Rei do Saibro”. “Nós motivamos um ao outro. Mas, para ser sincero, não é uma obsessão alcançar Roger”, afirma Nadal.
O título de domingo mostra a evolução do espanhol nas suas conquistas, enquanto Federer parece estacionar na busca pelos grandes troféus. A diferença entre eles já foi de 10 títulos (16 a 6), no início de 2010. De lá para cá, o espanhol reforçou o seu domínio no saibro de Paris e passou a brilhar também nos outros três torneios do Grand Slam.
Ao mesmo tempo, Federer viu crescer a concorrência de outros rivais, caso do sérvio Novak Djokovic, para quem perdeu duas finais de Wimbledon. A competição em Londres está para o suíço assim como Roland Garros está para Nadal. Federer é o recordista de troféus na relva londrina, com oito conquistas. Mas teria 11 se tivesse vencido todas as finais que disputou, como fez o espanhol em Paris. Djokovic, por sinal, é o terceiro colocado nesta lista, com 15 Grand Slams no currículo.
“Eu nunca fiquei pensando nisso: 'vou tentar alcançar Roger' ou não. Para ser honesto, não estou muito preocupado com isso”, reforçou Nadal, após levantar mais um troféu em Roland Garros, no domingo. “Você não pode ficar frustrado o tempo todo porque o seu vizinho tem uma casa maior que a sua ou uma televisão maior, ou um jardim mais bonito. Não é desse jeito que eu encaro a vida”.
Nesta disputa pelo recorde, Nadal tem a seu favor a idade: 33 anos. Em Agosto, Federer vai completar 38. E não deve ter mais do que duas temporadas no seu horizonte, de pai de família, responsável por quatro filhos. O espanhol, de casamento marcado para este ano, ainda não tem filhos.
“Se, ao fim da minha carreira, eu puder vencer mais alguns Grand Slams e ficar mais perto de Roger, será inacreditável. Se eu não alcançar, para mim, ainda será inacreditável!”, afirmou o espanhol.
Também tem a seu favor a evolução que ainda apresenta no seu ténis. Em Roland Garros, o espanhol deu mais uma prova disso. Destacou-se em fundamentos que não costuma brilhar, como saque e até subidas à rede. Na final, ele acertou providenciais saques poderosos em momentos difíceis: um aproveitamento de 73 por cento dos pontos quando jogou com o primeiro serviço. O austríaco Dominic Thiem, seu adversário, não passou de 57 por cento.
O “Rei do Saibro” surpreendeu também no rendimento junto à rede. Das 27 vezes em que subiu, saiu vencedor do ponto em 23. Trata-se de um aproveitamento de 85 por cento, superior até ao que mostrou Federer na sua campanha. Maior especialista neste fundamento ainda no activo, o suíço não passou de 83 por cento, e foi num jogo contra um adversário bem menos exigente que Thiem: o italiano Lorenzo Sonego.
A constante evolução de Nadal, acostumado a superar as mais diversas lesões, dá margem para que sonhe com o recorde absoluto de títulos de Grand Slam nas próximas temporadas. “Aqui estou eu aos 33 anos, jogando um bom ténis. Vamos ver por quanto tempo consigo continuar a fazer isso”, concluiu o espanhol.

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