Desporto

Voleibol sobrevive nas praias e tenta ressurgir nas quadras

António de Brito

Mergulhado num mar de dificuldades, o voleibol de sala aguarda por uma intervenção urgente das autoridades desportivas angolanas e de alguém que se preste ajudar a reverter o actual cenário, que perdura há 20 anos.

Provas em pavilhões eram disputadas apenas na província de Luanda nas últimas duas décadas
Fotografia: Mota Ambrósio | Edições Novembro

Os problemas estão identificados e são inúmeros. Dificuldades financeiras e  falta de incentivos, número reduzido de equipas, ausência de recintos desportivos, degradação acentuada dos poucos existentes, fraco trabalho nos escalões de formação e irregularidades na realização de provas provinciais e nacionais.
No passado, o voleibol de sala fez história e constituiu a quarta força das modalidades colectivas existentes no país, depois do futebol, basquetebol e andebol. Nos anos idos, Luanda rivalizava com Benguela, Namibe e Huíla nas competições nacionais da modalidade.
Nos finais dos anos 90 e princípio de 2000, a modalidade começa a regredir , porque a maioria dos clubes existentes, casos do INEF, Puniv, IMIL, IMEL, Angonav, Bangú FC, Dom Bosco, Terra Nova e Escorpiões foi forçada a encerrar as portas, devido a problemas de índole financeira e material.

Papel das escolas  
 
Na altura, as escolas do ensino de base e médio contribuíram gradualmente para o desenvolvimento do voleibol de sala. Neste capítulo, o Instituto Médio Normal de Educação Física “Saidy Mingas” teve um papel relevante, porque formou um número infinito de treinadores, atletas e juízes para a modalidade. O malogrado Massunda João, formado em Cultura Física na República de Cuba, foi um dos formadores mais activos da modalidade.
Fundada há 40 anos, a Federação Angolana de Voleibol (FAVB) está implantada nas províncias de Luanda, Benguela, Namibe, Huíla, Huambo, Malanje, Bié e Cuanza-Sul. A FAVB controla 1100 praticantes, sendo 600 masculinos e 500 femininos.
Luanda é o principal pólo de desenvolvimento do voleibol no país. Comparativamente às outras províncias, a capital do país é a recordista de clubes, designadamente 1º de Agosto, Petro de Luanda, Progresso Sambizanga, Renascer do Estoril, Águias de Luanda, MPA, Blue Vólei e Escorpiões da Boa Fé.

Ausência prolongada
Nas competições internacionais, Angola não compete há 21 anos, depois do Campeonato Africano sénior feminino, disputado em Maputo, Moçambique. Treinada por Hernâni Bastos, a equipa nacional arrebatou a medalha de prata, após derrota na final diante do Quénia. Angola tinha uma selecção muito forte, com o 1º de Agosto a ser o principal fornecedor de jogadoras, casos de Muca,Tina, Ana e Fatinha.
Na ronda efectuada pelo Jornal de Angola, 1º de Agosto, Petro de Luanda e Vólei Blue são os únicos clubes que oferecem condições ideais para a prática da modalidade. Os outros trabalham com enormes dificuldades, designadamente Progresso Sambizanga, Águias FC do Cruzeiro,  Renascer do Estoril do Golfe e MTA.
Por parte da Federação Angolana de Voleibol há muito boa vontade, mas sem ovos não se fazem omeletas, como salienta o  seu secretário-geral, José Monteiro.
“As dificuldades são várias. Sem a componente financeira é impensável fazer coisas boas. Ainda assim não cruzámos os braços. Estamos comprometidos com a modalidade”.

Voleibol de praia

 Em 2003, começa a ganhar corpo a prática da modalidade na praia , porque algumas equipas deixaram de fazê-lo na sala, por força das dificuldades que enfrentavam no dia a dia. Treinadores e jogadores refugiaram-se no voleibol de praia, por ser menos dispendiosa. Além disso, com dois atletas constitui-se uma equipa.
Com a realização regular de torneios, o voleibol de praia deu um salto qualitativo, dando lugar ao aparecimento de mais equipas. Hoje, o número de praticantes nas duas classes anda à volta dos 90, nas províncias onde a modalidade está implementada, casos de Luanda, Namibe, Benguela, Huíla, Huambo e Cuanza-Sul.
Fruto do árduo trabalho, Angola tornou-se na quarta força da modalidade no continente, depois da conquista da medalha de ouro nos Jogos Africanos do Congo Brazzaville, em 2015. No “ranking” africano, a África do Sul é a líder, depois vêm a Tunísia, Egipto e Angola.
A nível do voleibol de praia, Angola competiu também nos Jogos Olímpicos de Pequim'2008, com a dupla Morais Abreu/Manucho Fernandes.
Gustavo Cruz, antigo técnico do 1º de Agosto e da Selecção Nacional, disse com alguma mágoa que o voleibol está votado ao abandono, e necessita de uma intervenção urgente para sair do actual cenário. “ É muito triste ver o voleibol de sala a passar por estas dificuldades. Dá-me um aperto no coração. Façam alguma coisa, porque a modalidade já deu muitas alegrias ao país”.

Ressurgimento

Depois de 26 anos, a província de  Benguela acolheu os campeonatos nacionais seniores de voleibol  de sala, em ambos os sexos, com a participação do 1º de Agosto, Petro de Luanda,  Blue Vólei,  Renascer do Estoril,  Sporting do Lubango,  Império do Lubango, Estrelas do Palácio da Huíla, Atlético do Namibe e Misto de Benguela, sinal de que a prática nas quadras quer voltar a dar o ar da sua graça, ainda que timidamente, nas províncias onde já teve grande vitalidade.

Tempo

Multimédia