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A luta diária das mães para amamentar os filhos

Helma Reis |

Antónia Cipriano é mãe de uma menina de cinco meses. Quando a criança nasceu sentiu-se tentada a dar leite artificial a Sara, devido à sua fraca produção de leite. Mas Antónia, sabendo das vantagens do leite materno, resistiu à tentação.

A taxa de doenças que exigem cuidados médicos é mais baixa entre os bebés amamentados exclusivamente com leite da mãe
Fotografia: Jornal de Angola

Antónia Cipriano é mãe de uma menina de cinco meses. Quando a criança nasceu sentiu-se tentada a dar leite artificial a Sara, devido à sua fraca produção de leite. Mas Antónia, sabendo das vantagens do leite materno, resistiu à tentação.
“Era importante amamentar a bebé com o meu leite, mesmo tendo pouco, porque isso fortalece os laços de mãe e filha. Ao insistir em dar o leito do peito à Sara, ela desenvolve-se mais rápido, sente-se segura e amada”, disse Antónia Cipriano.
Muitas noites, acrescentou, o marido teve que acordar porque ela e a filha choravam ao mesmo tempo, tudo porque uma queria amamentar e a outra mamar, mas não era possível porque Antónia tinha pouco leite.
“No começo eu sofri muito. Os meus seios estavam muito doridos e quando a minha filha queria mamar e não conseguia e chorávamos as duas. Não dormia. Foi nesse momento que pensei em mudar para o leite artificial”, disse.
“A minha mãe recomenda-me sempre a não usar qualquer alimento artificial, até a bebé ter seis meses, para evitar que ela tenha diarreia e vómitos”, refere Antónia, sublinhando que, apesar do sofrimento por que passou para amamentar,  hoje é um exercício que lhe dá “muito prazer”.
A enfermeira pediatra da Direcção Provincial de Saúde de Luanda Felismina Neto explicou que o leite adequado é o leite materno, que é produzido durante três dias, depois do “colostro”. Depois “a quantidade de leite aumenta e as mamas ficam completamente cheias, endurecidas e pesadas. Chama-se a isso a descida do leite”, disse.
Felismina Neto acrescenta que o leite inicial é aquele que é produzido no início da primeira mamada e que fornece proteínas, lactose e o açúcar presentes em todos os leites e outros nutrientes. O bebé consegue ingerir grandes quantidades de leite e receber toda a água que precisa.
“O leite final é mais branco do que o leite inicial, porque contém mais gordura. Esta gordura fornece uma importante parte da energia de uma mamada, e por isso, uma boa razão para não tirar o bebé muito rapidamente do peito”, realçou a enfermeira. Falando da importância do apoio da família, Felismina Neto afirmou que este é um factor que tem repercussão no sucesso do aleitamento.
“Muitas vezes, culpamos a mãe, mas se ela não tem quem a ajude ou quem a oriente não sabe como deve amamentar, para aumentar a sua produção do leite”, disse.
A enfermeira disse ainda que existe uma diferença na composição do leite materno e o industrializado.
O leite materno, explicou, faz com que haja um vínculo entre a mãe e o filho que se cria na amamentação. Daí o papel da família na amamentação das crianças.
Felismina Neto sublinhou que o leite materno tem muito mais qualidade que o leite industrializado, especialmente, por ser o único a possuir anticorpos: “o leite de uma mãe que teve um bebé prematuro é diferente do leite de uma que teve o filho aos nove meses. Por isso, o leite materno é o mais apropriado para cada fase de desenvolvimento do bebé”.


Sensibilização às mães


“Existem muitas mães que não amamentam os bebés por falta de orientação. Muitas vezes elas não conseguem reconhecer a importância que isso tem para ela e para o bebé”, explicou, afirmando que é importante trabalhar pela sensibilização e incentivo do aleitamento materno.
 Felismina Neto Acrescentou que amamentar também beneficia a mãe: “a prática da amamentação exclusiva sem interrupção até aos seis meses, funciona no organismo da mulher como um método de contracepção, o seu prolongamento até aos dois anos, pode também ajudar na prevenção de cancro do útero e da mama”.
A enfermeira referiu que “temos vindo a sensibilizar a mulher nas consultas pré-natal, durante o parto e após o parto a amamentar o bebé 30 minutos depois do parto”. Falando da questão social, a profissional afirmou: “o leite materno é bom e não custa nada”.


O lado emocional


A amamentação ajuda a mãe e o bebé a formarem uma relação mais próxima e amorosa, o que faz com que a mulher se sinta emocionalmente satisfeita.
O contacto íntimo logo após o parto ajuda a desenvolver esta relação. Os bebés choram menos e podem-se desenvolver mais rapidamente, se permanecerem próximos à sua mãe e forem colocados ao peito 30 minutos após o parto.  Mães que amamentam relacionam-se de forma mais afectuosa com os seus bebés e têm menos necessidade da sua atenção. Amamentar é um gesto de amor e carinho que dá à criança segurança afectiva, base do desenvolvimento da sua personalidade. O leite materno ajuda a criança a desenvolver-se física e intelectualmente.
Poucas são as situações em que o recém-nascido não pode receber o leite materno. Existem dois factores externos que ainda estão em estudo que impedem uma mãe de amamentar: que são a infecção com o HIV e a Hepatite B.


Benefícios do aleitamento
 

Felismina Neto realçou que o leite materno oferece muitos benefícios à saúde do bebé. Quando os bebés são amamentados exclusivamente com leite da mãe, esses benefícios são usufruídos ao máximo. De um modo geral, a taxa de doenças que exigem cuidados médicos é mais baixa entre os bebés amamentados exclusivamente com leite da mãe.
O aleitamento materno exclusivo oferece a melhor nutrição e crescimento ao bebé, continuando a promover o seu desenvolvimento após a introdução de outros alimentos a partir dos seis meses.


Protecção contra infecções


A enfermeira pediatra Felismina Neto assegurou que os bebés amamentados têm menos diarreia, infecções gastrointestinais e infecções respiratórias do que aqueles que são alimentados artificialmente: “o leite de cada mãe tem anti-corpos que protegem o seu bebé de doenças às quais ela tenha sido exposta”.
Factores de crescimento acentuam o desenvolvimento do bebé e a maturação do seu sistema imunológico, sistema nervoso central e de órgãos como a pele.
Enzimas digestivas como lactose e lipase, além de muitas outras enzimas importantes, protegem os bebés nascidos com enzimas imaturos ou defeituosos.
A lactose pode ajudar a prevenir o raquitismo, estimula a absorção do cálcio e o desenvolvimento cerebral.


Vantagens para o bebé


O bebé amamentado exclusivamente com leite materno tem menor risco de contrair diabetes, cancro, infecções nos ouvidos e melhora a resposta às vacinações e menos problemas dentais.
Os bebés amamentados com leite materno gozam de uma saúde de ferro e apresentam uma série de outras vantagens físicas que aqueles que são desmamados de forma precoce e alimentados com leite artificial, disse.
Felismina Neto referiu ainda que a principal causa da morte materna é a hemorragia pós parto. Mas o simples acto de colocar o bebé no seio da mãe 30 minutos depois do parto “evita as hemorragias, essa é uma das razões pelas quais o aleitamento deve ser iniciado imediatamente após o nascimento e mantido com frequência”.
A enfermeira explica que a prática de amamentação até aos seis meses, funciona no organismo da mulher como um método de contracepção. O seu prolongamento até aos dois anos, pode também ajudar na prevenção do cancro do útero e da mama: “as mães têm elevada eficácia activa e podem produzir leite mesmo com uma ingestão calórica limitada”.
O aleitamento frequente atrasa a volta da menstruação e ajuda a proteger a mulher de uma nova gravidez.


Leites artificiais


Felismina Neto sublinhou também que as consequências do uso de biberões são nefastas e têm contribuído muito para a mortalidade infantil, porque nem todas as mães têm cuidados higiénicos.
A água usada para lavar os biberões e dissolver leites artificiais pode estar contaminada.
Os leites infantis podem ser contaminados por erros de fabricação, geram despesas desnecessárias e diminuem a quantidade de alimentos disponíveis para outros membros da família.
Erros na preparação do leite infantil industrializado podem provocar doenças no bebé.Gestações frequentes podem sobrecarregar a família e a sociedade.


Passos para o sucesso do aleitamento materno

Informar as grávidas sobre as vantagens e o manejo do aleitamento materno.
Ajudar as mães a iniciar o aleitamento na primeira meia hora após o parto.
Mostrar às mães como amamentar a lactação mesmo se vierem a ser separadas dos seus bebés. Não dar ao recém-nascido nenhum outro alimento ou bebida além do leite materno, a não ser que tal procedimento seja indicado pelo médico. Praticar o alojamento conjunto para permitir que as mães e bebés permaneçam juntos 24 horas por dia.
Encorajar o aleitamento materno. Não dar biberões ou chupetas a crianças amamentadas nos seios.
-Encorajar a criação de grupos de apoio ao aleitamento materno, para onde as mães devem ser encaminhadas por ocasião da alta do hospital ou do ambulatório.

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