Dossier

Acção solidária na Ilha do Cabo

Josina de Carvalho |

O quarto e a sala da casa de Dona Maria da Conceição David  Kumola, 74 anos, estão completamente remodelados. Não foi ela, nem os filhos que pagaram a reabilitação.  

Remodelação da casa da anciã Maria da Conceição David deixa toda família feliz e melhor acomodada
Fotografia: Remodelação da casa da anciã Maria da Conceição David deixa toda a família feliz e melhor acomodada

O quarto e a sala da casa de Maria da Conceição David  Kumola, 74 anos, estão completamente remodelados. Não foi ela, nem os filhos que pagaram para o efeito.
A casa dela foi escolhida pela produção do programa televisivo “Família Mudámos o Kubico” para ser remodelada, pelo estado degradante em que se encontrava, devido à sua antiguidade, a existência de fissuras e infiltração de água nas paredes. Por falta de recursos financeiros, Maria da Conceição vivia naquelas condições, com dois filhos, dos cinco que deu à luz, e um neto.
Uma das filhas, com quem vive e partilha o quarto, tem 36 anos e padece de problemas mentais, que a impedem de falar correctamente. A filha tem tido crises, que a transformam numa pessoa violenta, inclusive com a mãe.
Maria da Conceição, uma telespectadora assídua do programa, é também viúva há quatro anos e usa uma cadeira de rodas há cerca de 20 anos, depois de ter sofrido um Acidente Vascular Cerebral (AVC). Enquanto se recuperava, andou de muletas, sendo operada a uma das pernas devido a uma infecção e teve pela segunda vez AVC. Por isso, voltou a usar a cadeira de rodas, onde se mantém até hoje.
Essa história de vida de Maria da Conceição comoveu a produção do programa e fez com que a sua casa fosse seleccionada para beneficiar de remodelação.
A produção do programa soube da situação da família, porque Maria da Conceição pediu ao filho para inscrevê-la.
Quinze dias depois, a equipa do programa visitou a família para apurar a veracidade da história contada, as condições da casa e anunciar que estava na lista das potenciais candidatas.
 Depois de mais 15 dias, chegou a “boa nova”, que fez a família pular de alegria e acreditar que afinal são verídicas as histórias apresentadas no programa.
Maria da Conceição disse que sempre acreditou, apesar da incredulidade da família.
O neto Dário contou que só acreditou quando a equipa foi a casa para fazer as filmagens e pedir que a família se ausentasse durante 48 horas para facilitar a remodelação. Maria da Conceição ficou em casa de uma neta, localizada também na Ilha de Luanda, assim como os demais ocupantes de sua casa.
De regresso, de madrugada, o filho Zé Maria disse que a mãe ficou muito feliz e sem palavras para agradecer o gesto da produção do programa. Por volta das 11h00, do dia 17 de Setembro, sábado, altura em que o Jornal de Angola visitou a casa, Maria da Conceição ainda estava bastante emocionada .
“Não sei o que dizer, minha filha… Obrigada, meu Deus”, disse, tentando estruturar o discurso e controlar a emoção.
Zé Maria disse que ela quase não dormiu de tanta felicidade. Ele gostava que o pai (falecido) pudesse estar com a família naquele momento e desfrutar da beleza e conforto que a casa tem agora.
 “Às vezes tenho a sensação de que estou em casa alheia”, desabafou o neto.
Para ele, a remodelação que foi feita acaba por ser um incentivo para a família fazer o mesmo em outros compartimentos da casa e torná-la mais harmoniosa.



Produtora quer expandir  iniciativa a todo o país


O Programa Televisivo “Família Mudámos o Kubico”, concebido pela empresa de direito angolano “Adriano Maia Internacional, Lda”, tem como objectivo proporcionar melhores condições de habitabilidade às famílias angolanas de baixa renda.  Para o efeito, a produtora “Adriano Maia Internacional, Lda” em parceria com várias empresas de distintos ramos, como as representantes das marcas “Tintas CIN”,  “Bella Holandesa”, “Global Seguros”, “JC le Roux”, apoia todas as semanas a remodelação de duas divisões da casa de uma família angolana que é seleccionada no universo de mais de 400 candidaturas registadas em cada semana.



Materiais de construção


A empresa de venda de materiais de construção Fermat, que também patrocina o programa, é responsável pela gestão do processo de candidaturas das famílias.
Segundo o director geral da empresa, Dominick Maia-Tanner, tem sido difícil fazer a selecção. “Gostaríamos de ir a todos, mas como não podemos, tentamos apenas diversificar os bairros”, acrescentou.
Dominick Maia-Tanner disse ainda haver a intenção de expandir a iniciativa, numa segunda fase, a seis províncias. “Esperamos ter ajuda de novos parceiros para concretizar este objectivo. Mas já nesta primeira fase vamos a Cabinda, com o apoio do Banco Micro-Finanças”, declarou.
A produção do programa aprova apenas as candidaturas das famílias que vivam em casa própria, que não seja habitação secundária e que não esteja em obras. A produção avalia ainda a história da família, dando assim privilégio àquelas mais carentes.  “Somos muito sensíveis às histórias humanas das famílias que se  candidatam”, sublinhou, referindo que apesar disso, a remodelação não abrange todos os compartimentos da casa, porque a intenção é também inspirar as famílias beneficiárias a darem continuidade às obras e a incentivá-las a doarem os móveis antigos a vizinhos ou familiares carentes.
A remodelação das duas divisões da casa, escolhidas pela família, é feita em 48 horas, dois dias, “faça sol ou chuva”, assim como as filmagens de todas as etapas da obra até à sua entrega. Não pode ultrapassar o tempo previsto, porque depois o programa tem de ser montado em estúdio. “Isso demora alguns dias, por isso os programas são gravados com uma semana de antecedência”, disse o responsável.Enquanto decorre a remodelação, os ocupantes da casa são obrigados a mudar-se para a residência de um familiar, para permitir o andamento célere da obra. A sua execução, tendo em conta o desejo da família, está a cargo de quatro técnicos de construção da empresa “Oficina da Casa”. Eles melhoram o chão, tapam rachas, pintam a casa, colocam tecto falso, reciclam ou adaptam os móveis em que o seu estado ainda permite fazer estas transformações.
Com a ajuda de outros patrocinadores, como a Moviflor, Casacon e Belar, a família ganha novo mobiliário, artigos de decoração, entre outras ofertas valiosas. A empresa representante da marca LG oferece também à família novos equipamentos de imagem e som e aparelhos de ar condicionado. O transporte dos materiais de construção é garantido pela Ford.



Custos do Programa


Os custos da remodelação e da produção do programa são muito altos, segundo Dominick Maia-Tanner. “Mas tivemos a felicidade de conseguir patrocinadores que apoiam a produção e co-produção, incluindo os meios técnicos e humanos que permitem filmar cada série com muita qualidade”, referiu. A primeira série do programa integra 24 episódios, dos quais 21 são histórias das famílias beneficiadas. Os restantes episódios vão mostrar a remodelação de um orfanato, escola ou centro de saúde. O último será apresentado no Dia da Família, celebrado a 25 de Dezembro, com muitas surpresas, segundo Dominick Maia-Tanner. “Por mim faria uma série com 52 programas, que dava para o ano todo. Mas em televisão os programas têm séries e épocas. Esperamos voltar em 2012 com mais força para beneficiar mais 24 famílias”.



Decoração das casas


A decoração é feita pela arquitecta de interiores Antonieta Zulupina. Além de decorar, inspirando-se na história de cada família, ajuda cada uma a ter capacidade de tornar a sua casa bonita e confortável, com os artigos e mobiliário que têm à sua disposição.“Por exemplo, numa das casas reduzimos as pernas de uma cama, para torná-la mais baixa e poder ser utilizada por uma menina deficiente que tinha dificuldade em subir nela”. Numa outra casa,  conta que foram colocadas rampas nas portas para permitir a passagem de alguém que andava em cadeira de rodas. “São pequenas coisas que qualquer pessoa pode e deve fazer para mudar a qualidade de vida da sua família”, referiu.
Em casas onde vivem crianças de tenra idade, ela sugere que se evite cores muito fortes, como vermelho e laranja, porque as crianças nessa idade têm muita energia. “As cores suaves ajudam a acalmá-las. É isso que tento transmitir às famílias angolanas”, declarou.



Um apresentador conceituado


O apresentador do programa, que é emitido todos os domingos a partir das 19h30 no canal 1 da Televisão Pública de Angola, é um actor de profissão.
O seu nome, Carlos Paca, figura na lista dos actores africanos negros mais conceituados da Europa pelo número e nível de representação em peças teatrais, filmes e em séries. Tem participação também como guionista, em programas televisivos em Portugal.
Em Angola, onde nasceu, participa em spots publicitários.  “Estou no programa como um peixe na água”, disse, referindo que a desenvoltura resulta também do facto de ter a liberdade de apresentar o programa como quer e gosta.
“A pior parte para mim é o final do programa. Sinto dificuldades em fechar porque emociono-me com as histórias e porque também tenho muitos parentes que vivem na mesma condição”.A sua participação no programa é ainda emocionante porque tem a possibilidade de entrar na vida das pessoas e descobrir segredos.
“Se há algum sítio em que este projecto faz sentido é cá. Porque há muita gente que vive em dificuldades. Portanto, se realmente nos consideramos solidários, o momento é este para mostrarmos esse lado e não apenas no Natal”, apelou.Carlos Paca, de 32 anos, está em Angola desde Janeiro, depois de viver cerca de 15 anos na diáspora, a convite da co-produtora do programa, a Plural Angola, para fazer parte da equipa. 

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